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P021 - Ilusões perdidas


Assinatura

Procedência

1949 – Propriedade da viúva do artista
1967 – Coleção de Afonso Visconti
1978 – Coleção Francisco Márcio Carneiro Porto

Localização Atual Exposições Individuais Exposições Coletivas Publicações Comentários

Numa volta à inspiração simbolista, Visconti posiciona sua figura na lateral esquerda, cortada à altura da cintura pela extremidade inferior da tela, tendo a mão que segura pincéis e palheta apoiada no eixo vertical da composição. Desta paleta surge uma densa névoa povoada de figuras, que sobe em direção à janela. E coloca atrás de si uma grande tela branca, que aparece também em outra composição simbolista: a Vitória de Samotrácia [P987], na qual a aparição surge da própria tela e toma a forma da célebre escultura grega, saindo em direção à mesma janela gradeada, que aparece aqui. A pintura foi apresentada na EGBA de 1933, com o título Inspiração, que só será usado novamente na exposição Comemorativa de 1967, pois ficou consagrada por Ilusões perdidas, usado a partir da reprodução na biografia de Barata. Certamente foi tomado da pintura de Charles Gleyre, que passou pelo mesmo processo de assimilação: exposto no Salon de Paris, em 1843, com o título Le soir, o quadro logo foi chamado Les illusions perdues, pelo público que o relacionou à obra homônima de Balzac, um de seus romances mais famosos, publicado em três partes, de 1837 a 1843. Não se sabe quem batizou o mais interessante autorretrato de Visconti, mas o motivo pode ser inferido. No ano da edição da biografia de Visconti por Barata, 1944, foi publicada A Barca de Gleyre, reunião de parte da correspondência trocada entre Monteiro Lobato e Godofredo Rangel, cujo título fazia alusão à pintura de 1843, portanto, já centenária. A correspondência entre as duas pinturas se faz, obviamente, pelas figuras femininas que se vão: afastando-se do cais, na barca de Gleyre e dissipando-se no ar, a partir da palheta de Visconti.

Excluindo-se essa analogia, fica difícil justificar tal apropriação de título, pois, observando-se as duas pinturas, apenas podemos encontrar dessemelhanças e, portanto, a comparação só pode ser feita por contraste. Visconti empregou na sua pintura, concepção e fatura muito diferentes das do artista suíço, e nada mais distante do que a atitude das duas figuras masculinas representadas. A de Visconti é infinitamente mais positiva. Ao contrário do braço caído e inerte do homem no cais de Gleyre, Visconti tem os braços a postos e nas mãos a palheta e os pincéis prontos para o trabalho. Ele volta seu rosto em direção ao céu e, com os olhos fechados e um leve sorriso, deleita-se com suas recordações. Rafael Cardoso, em 2012, observa sobre essa composição: “Ao contrário de um autorretrato comum, em que o retratado ocupa geralmente a maior parte da composição, o pintor relega sua própria figura ao terço inferior da grande tela vertical. […] Olhos fechados, sorriso beatífico nos lábios, ele volta o rosto para cima e contempla interiormente os vultos que tomam forma na curiosa coluna de fumaça que se depreende da paleta em suas mãos. O pintor parece inspirar essa bruma mística, como que enchendo o peito de sua força imaginativa. Inspiração, no duplo sentido”.

Qual seria o propósito de uma área tão extensa ocupada com a emanação de sua palheta num autorretrato? Observando-se atentamente as formas voláteis visíveis na coluna de fumaça, pode-se reconhecer algumas figuras integrantes das grandes composições simbolistas do pintor. Estão assim distribuídas as “ilusões de fumaça” de Visconti: logo saindo da palheta está uma das figuras de Oréadas [P333], justamente a que fica em primeiro plano à direita daquele quadro; na sequência, aparecem duas das Horas [D714] que dançam no teto da plateia [P712] do Theatro Municipal do Rio de Janeiro; um pouco mais acima se encontram as Três Graças [D752], figuras centrais da Alegoria à Música [P708], no teto do foyer, no mesmo teatro; onde a neblina atingiu o seu ponto mais alto, surgem as Sereias que encantam os navegantes, de um dos painéis laterais do mesmo foyer [P710]; e no alto e à esquerda, o santo e a alegoria que o coroa em Recompensa de São Sebastião [P331]. Neste estupendo autorretrato, a expressão do rosto de Visconti, emoldurado pelos cabelos e barbas brancas, é tranquila e feliz, porque ele sabe que a qualquer momento, pode recuperar suas ilusões através de sua arte. É a expressão suprema do homem bem sucedido, consciente do seu potencial, e feliz por viver a plenitude da sua realização artística, rodeado daqueles que lhe são mais caros.


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