Ana Maria Tavares Cavalcanti I

A Família - Catálogo da Exposição "Eliseu Visconti - A Modernidade Antecipada", realizada na Pinacoteca do Estado de São Paulo e no Museu Nacional de Belas Artes - Abril de 2012

LOUISE - OST - 66 x 81 cm - c. 1928 - COLEÇÃO PARTICULAR“Uma vez mais na minha vida me julguei feliz de estar no meio da família, tudo me pareceu bom”, escreveu Eliseu Visconti em um caderno pessoal, em abril de 1916, ao retornar a Paris após uma ausência de cinco meses. Ele estivera no Rio de Janeiro para instalar as pinturas decorativas no foyer do Theatro Municipal. As emoções da viagem e o perigo da travessia do Atlântico durante a guerra podem ter contribuído para a sensação de bem-estar ao chegar em casa. Mas sua frase resume com perfeição o que a família significava para ele. Se estivesse com a esposa Louise e os filhos Yvonne, Tobias e Afonso, tudo estava bem. Essa realização amorosa foi marcante em sua obra. De fato, como ressaltou Frederico Barata em seu livro Eliseu Visconti e seu tempo, a pintura de Visconti esteve ligada à família desde seu casamento até os últimos anos de sua vida. Durante quase quatro décadas, sua mulher e seus filhos foram retratados individualmente, em duplas ou em grupo. Inúmeras vezes adivinhamos suas figuras em meio a paisagens ou reconhecemos seus traços em personagens que compõem cenas de gênero, alegorias ou painéis decorativos.
Em algumas dessas pinturas, Visconti mescla verdade e ficção. É o caso de Maternidade, realizada em Paris, no ano de 1906, que hoje integra o acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo. É bem possível que Louise tenha posado para a figura da mãe que amamenta seu bebê, enquanto Yvonne, aos cinco anos de idade, pode ter sido modelo para a menina que brinca ao seu lado. Porém, Visconti não registrou uma cena real, pois Tobias, seu segundo filho, só nasceria quatro anos mais tarde. Um olhar atento aos detalhes revela que a menina, entretida com a boneca, replica em simetria e em ponto menor os cuidados da mãe com seu filho. Ela é um esboço da figura materna. Ou melhor, mãe e filha se espelham uma na outra. Há uma promessa de maternidade na menina e uma felicidade de criança na mãe. Com seu pincel, Visconti “escreveu” um poema visual sobre a maternidade.
O BEIJO - OST - 65 x 81 cm - c.1910 - PALÁCIO BOA VISTA - CAMPOS DO JORDÃO - SPLouise e Yvonne aparecem em muitos outros quadros do pintor. Ele volta a pintá-las em O Beijo, trabalho de c.1910 que hoje se encontra no Palácio Boa Vista, em Campos do Jordão, São Paulo. É interessante comparar essa tela à Maternidade, de 1906. Usando uma metáfora musical, podemos dizer que na pintura mais antiga Visconti realizou uma “sinfonia”, como um compositor que escreve para uma grande orquestra. Já a segunda tela é comparável a uma música de câmara, executada por um conjunto de poucos instrumentos, mas nem por isso menos bela. Aqui vemos Yvonne, que se inclina sobre a mãe para beijá-la, ao mesmo tempo que lhe dá rosas. O beijo encobre parte do rosto de Louise, que abraça a filha afetuosamente. A echarpe que a envolve, e da qual só vemos um pedacinho, reforça um movimento circular que funde as duas figuras em pinceladas ágeis. A luz, cujo foco se encontra na blusa de tecido leve e branco de Louise, é também elemento que contribui para a atmosfera reconfortante. As dimensões de O Beijo (65 x 81 cm) são pequenas em relação às de Maternidade (165 x 200 cm), e essa escala modesta favorece uma relação intimista com a pintura. Aqui, as figuras se encontram num espaço fechado, um interior apenas sugerido pelo esboço de uma pilastra ao fundo. Todo excesso é eliminado. Mas em sua simplicidade, o quadro de 1910 tem uma composição estudada, onde só o essencial permanece. Por volta de 1910, Yvonne figura em novo quadro do pai, que, dessa vez, a mostra concentrada nos exercícios escolares. Deveres é o título da tela primorosa que traz reflexos à la Chardin (1699-1779).
A FAMÍLIA DO ARTISTA - OST - 126,5 x 95,0 cm - c.1918 - COLEÇÃO PARTICULARSe não podemos aqui nos debruçar sobre todas as telas em que o pintor retratou seus familiares, não há como deixar de mencionar que entre 1915 e 1935, Eliseu Visconti pintou ao menos seis retratos da família reunida. O primeiro, inacabado, apresenta Louise, Tobias e Afonso. O segundo, realizado por volta de 1918, é magnífico. No jardim da casa de sua família em Saint Hubert, Louise, rodeada por seus filhos, mostra um livro ao pequeno Afonso, enquanto Yvonne se dedica ao crochê e Tobias nos olha com serenidade. Tudo se harmoniza, e pinceladas vibrantes dão vida à cena idílica. Em Retratos de Família, realiza a última pintura dessa série, reunindo seus quatro amores. Em muitas outras, festejou sua família, e em todas Visconti foi o pintor dos afetos.

 

 

 

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