Carlos da Silva Araújo

"Dois retratos da minha galeria" em "Eliseu D’Angelo Visconti". Rio de Janeiro: Gráfica Sauer/ Biblioteca da Academia Carioca de Letras - 1944

RETRATO DO MAESTRO ALBERTO NEPOMUCENO - OST - 59 x 81 cm - 1895 - INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO
RETRATO DO MAESTRO ALBERTO NEPOMUCENO – 1895

A 14 de outubro, cerrou-se definitivamente no Rio de Janeiro um grande par de olhos. Olhos admiráveis, que viveram a ver beleza. Olhos de pintor de talento, que soube comunicar a beleza que sua alma de artista inato sabia ver, que sua técnica admirável pôde transmitir, límpida, realçada pela poesia de sua arte, à sensibilidade do comum dos mortais.
Chamou-se Eliseu d‟Angelo Visconti.
Três nomes que, só por si, já valem uma evocação de coisas belas, divinas, grandiosas. Pertencem êsses belos nome reunidos a quem foi digno de ser dêles portador. Digno pelo talento, digno até pela sua beleza física. Pertenceram, realmente, a um grande, invulgar artista.
Coube ao Brasil e à nossa cidade a glória de possuir tal artista. […] [p. 37]
[…] E assim porque admito que todos êsses choques entre os mestres deveriam influir, e por tôda a sua brilhante vida, no jovem Eliseu d‟Angelo.
Quantos comentam e apreciam sua arte, põem de manifesto a ânsia constante do artista na busca do belo, as variações de sua técnica e de sua fatura, seu zêlo, seu equilíbrio, sua sinceridade. [p. 39]
[Cita trechos das críticas de Gonzaga Duque, Angyone Costa, Acquarone, Carlos Rubens, José Maria dos Reis Júnior, e de entrevistas com o próprio Visconti, nas pp. 40-42]
[…]
Foi êsse sempre o seu caminho. Entre a pirronice dos que “se aferram ao passado, ao que tôda gente já fez” e “as inovações tateiantes dos que experimentavam passos à frente”. Êle, artista equilibrado, soube caminhar com talento e segurança entre essas balisas, variando técnica, fatura, maneira, mas produzindo sempre obra de arte legítima, fresca e bela.
“Renovar”, foi preocupação constante do grande pintor. [p. 43]
[…]
Renovar. Renovar. Ficou no aluno o eco da agitação acadêmica de 1888. O grande artista colheu a lição. Soube adotá-la. Colheu-lhe os frutos, dando-nos a obra magnífica que a todos impressiona por essa constante renovação de sua técnica, sempre segura, sempre nova, sempre bela. [p. 44]
Visconti realizou sua obra de arte, com a segurança de sempre, sôbre os resultados da experiência feita por alheias mãos. […]
Eliseu Visconti marcou um ponto alto no meu sentimento estético. Isso sem que pessoalmente eu o conhecesse senão há poucos anos. Mas, é fácil explicar. Quando cheguei à idade do encantamento pela vida, aí por 1911-1914, – 17 a 20 anos de idade: Helás! – o Teatro Municipal era alguma coisa nova. Havia quem discutisse e quem negasse, com pasmo [p.45] meu sua beleza. Eu achava-o, lá das minhas torrinhas dessa época, próximo às figuras cheias de sonho, de poesia, de beleza, do Mestre Visconti, uma maravilha. Nos intervalos […], quedava-me a mirar, a sentir, a formar o próprio sentimento estético, nas figuras deliciosas do plafond ou do frontal do Teatro, a passarem, de leves contornos, como as de um sonho maravilhoso, sôbre o esplendor paisagístico da Serra dos Órgãos.
[…] Andei mundo. Vi teatros. Vi bailados. Vi pinturas. Nada vi que me encantasse mais que as bailarinas de Nijinski ou de Pavlova a bailarem junto às figuras de Visconti. Foram, de certo, as criações do mestre carioca que prepararam as emoções que haviam de me proporcionar mais tarde as telas de Renoir ou de Sisley, de Monet ou de Fantin-Latour, de Eva Gonzalès ou de Berta Morizot, na Sala Caillebotte do Louvre ou nos museus norte-americanos. Foram as emoções da adolescência no Municipal, que prepararam a minha estesia para se comover com as bailarinas de Degas, com as musas aquáticas de Chabas ou com o Bal musette de Renoir. São, com efeito, o sentimento e o juízo estéticos resultantes de um conjunto de sensações de memória. O sentimento estético varia de indivíduo para indivíduo precisamente porque depende de complexas reações pessoais resultantes de fatores variados: hereditários, raciais, mesológicos, culturais, como, aliás, já [p. 46] analisado por Taine. […]
A criação e a ideação artísticas são sublimações. São fugas do objetivismo da vida para o mundo subjetivo da emoção artística.
E porque atribuo às emoções iniciais trazidas à minha estesia pelo pincel de Visconti os sentimentos que viria a experimentar mais tarde diante dos pintores impressionistas ou daqueles que precederam ao seu movimento (Chabas, Degas, etc.) ou dos que sofreram a influência mais direta de sua ânsia de criação, de suas pesquisas, filiei, inversamente, a êsses artistas renovadores a criação magnífica  de Visconti, particularmente da que êle mesmo chamou sua segunda fase e que, sem menor estima pelo resto de sua obra, eu direi: a gloriosa.
Os dois retratos que valeram de pretexto para minha presença nesta tribuna trazendo a homenagem pobre da minha admiração pelo grande artista, são de nossa coleção particular. Duas telas que falam sempre à minha emoção. O primeiro é um retrato de Alberto Nepomuceno feito por Visconti em Paris e ali exposto em 1895. O segundo é seu auto-retrato em 1910.
RETRATO DE YVONNE - OST - 42 x 33 cm - c.1909 - LOCALIZAÇÃO DESCONHECIDAVisconti fêz com mestria todos os gêneros de pintura. Entre êles o retrato. Seus auto-retratos são numerosos. O de pessoas de sua família frequentes. Ainda há dias, apenas, estava aberta em uma sala do Museu Nacional de Belas Artes a exposição “A criança na arte”. Linda mostra. Entre as coisas mais lindas que lá havia, estava o retrato de uma [p. 47] criança – “Yvonne” – n.° 63 no Catálogo. Trabalho da coleção particular do artista. Pequena tela em que a poesia do artista se revela forte mais uma vez. A expressão e o olhar infantis, cheios de inteligência, surgiam entre o fulvo dos cabelos graciosamente adereçados com dois laços em azul-claro e um vestido castanho, apenas indicado.
[..]
Visconti teve a felicidade de não viver como retratista. Não pintou retratos para agradar aos retrados, como tanto ocorre neste gênero. Não são habituais nas salas de honra de ordens terceiras retratos com sua assinatura. Pintou retratos de pessoas a quem amou, a quem admirou. Pôs nêles a sua alma de artista. Deu-lhes a expressão da sua poesia e não a preocupação de enfeitar o retratado.
Foi assim com o retrato de Gonzaga Duque, com o de Nicolina.
[… p. 48]
Êsse retrato, oferecido à Pinacoteca pelo ilustre Sr. José Mariano Filho, foi pelos alunos da Escola de Belas Artes chamado a “Gioconda Brasileira”. Êsses dois vocábulos valem pelo maior elogio que se possa fazer do trabalho.
[…]
O retrato de Alberto Nepomuceno, hoje em nossa galeria, foi pintado em Paris, em 1895, quando os dois jovens artistas aprimoravam estudos na Cidade-Luz.
No canto direito inferior da tela, está a dedicatória: “Ao amigo Nepo Offce. E. Visconti. Paris. 1895”.
No canto superior esquerdo, ainda se pode ler: “Salon des Champs-Elysées de 1895”. Fácil concluir que o quadro aí deve ter estado exposto. [p. 49]
Além da excelência pictórica, há nêle a poesia que o pintor soube pôr, como sempre, na expressão do musicista, como êle cheio de sonhos.
Os jovens artistas brasileiros realizaram ambos os sonhos que povoavam suas cabeças em París, em 1895.
Alberto Nepomuceno foi, sem dúvida, expressão das mais altas de nossa música, em período efervescente e brilhante da arte brasileira. […]
Nepomuceno, sem arroubos indianistas nem excessos de nacionalismo, buscou fugir às inspirações melódicas vindas de ultra-mar.
Fê-lo discretamente. Mas, com êxito. Fixou na sua obra o Brasil em transição cultural. Entre a européia e a própria. Era o nosso romantismo. Em cenários brasileiros. [p. 50]
[…]
Precedeu aos que viriam registrar maior avanço no mesmo rumo.
Si não há audácia, há pesquisa, originalidade, êxito, beleza, imortalidade na inspiração do autor da Série Brasileira, do Garatuja, do Samba, de canções imortais da alma romântica do Brasil. Foi muito mais brasileiro na sua música que o autor do seu retrato em sua pintura magnífica.
Si eu devesse buscar entre os nossos compositores um paralelo para o pintor Visconti, poeta fino e sutil das meias tintas, preferiria lembrar-me de Henrique Oswald.
Visconti, grande pintor de sentido universal, não foi nacionalista.
* * * * *
O retrato de Nepomuceno – 1895 – é obra da fase acadêmica de Visconti.
O auto-retrato de 1910 pertence a outro ciclo.
A única vez que tive a honra de falar a Eliseu Visconti foi aqui, nesta sala, num vão de janela, depois de uma sessão da Academia Carioca de Letras a que ambos assistíramos. Conversamos, precisamente, sôbre os dois retratos que hoje me serviram de motivo a esta homenagem.
O Mestre sentiu-se um tanto embaraçado com a posse dêsse auto-retrato por alheia pessoa e fêz questão de me contar como saíra êle de seu atelier. Recebera a [p. 51] encomenda urgente de certo quadro. Faltando-lhe no momento uma grade ou chassis, estendeu a tela a pintar sôbre o autoretrato. Realizada a encomenda, já não mais se recordava da ocorrência. Entregou o trabalho. Foi pago. A transação ficou concluída. O cliente, certamente, descobriu mais tarde o ocorrido e não teve escrúpulo em vender o quadro adiante. Quanto a mim, informei-lhe da aquisição recente em público leilão da Coleção Fonseca Hermes. Convidou-me o pintor ilustre para uma visita em seu atelier. Motivos diversos fizeram com que eu a fosse adiando e não tivesse assim a alegria de ir vê-lo no recinto em que realizou Visconti uma das maiores obras pictóricas já feitas no Brasil.
* * * * *
No auto-retrato de 1910, foi Visconti verdadeiro e honesto para consigo como sempre fôra para com os amigos que retratou. A beleza de expressão, entretanto, também como nas outras não faltou nessa tela. Há nesse retrato, como no do crítico Gonzaga Duque, como no do músico Nepomuceno, aquêle dom superior de Visconti de pôr em comunicação, através sua arte, as almas das figuras que pintou com as dos observadores futuros.
Isso é Arte! Há algo de divino nesse dom. E êle está sempre presente nos trabalhos de Eliseu d‟Angelo Visconti.
AUTORRETRATO EM TRÊS POSIÇÕES - OST - 63 x 81 cm - c.1938 - MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES - MNBA - RIO DE JANEIRO/RJ* * * * *
No Salão de 1942, Eliseu Visconti expôs uma tela em que usou consigo mesmo daquela crueldade a que se referiu [p. 52] o comentarista do retrato de Nicolina, na “Ilustração Brasileira”, de abril de 1933.
É que o pintor insigne sofrera um pequeno derrame cerebral. Nunca o nome insulto para êsse acidente anátomo-patológico me pareceu tão acertado. A lesão trouxera, como sói tanta vez acontecer, a paralisia de nervos faciais e com ela modificações fisionômicas.
Fêz então o artista seu retrato, com a cabeça ultrajada, em três posições. De frente e de perfil: destro e sinistro. Não escolho propositadamente os adjetivos. Convenho, contudo, que trazem muito de sujestivo, em seus segundos sentidos. Ao fundo aparece a Espôsa, companheira dedicada de longos anos. A fisionomia está cheia de preocupações, cuja expressão três dedos pousados sôbre o mento, ao conto direito da bôca, acentuam. Não se engana o coração amante. Aquilo é o prenúncio da partidal Da irrevogável separação a que somos todos condenados.
No meu modo de ver, a tela é um poema admirável. [p. 53]

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