CR1896D - Carta do maestro Alberto Nepomuceno a Eliseu Visconti, informando que faria o primeiro concerto popular, um concerto de arromba, e outros assuntos – 14 de maio de 1896

  • Tipo de Documento Correspondências - Até 1900
  • Ano 1896
  • Acervo Projeto Eliseu Visconti

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Enviada de Petrópolis, nesta carta o maestro Alberto Nepomuceno afirma que em 31 de maio daquele ano iniciaria uma série de concertos populares, sendo que o primeiro seria de arromba.
Comenta ainda o maestro sobre pinturas que Henrique Bernardelli estaria executando para a cúpula do Instituto, elogiando particularmente uma tela intitulada Orpheo. Supõe-se que se trata do antigo Instituto Nacional de Música, do qual Nepomuceno viria a ser Diretor. Mas não foram encontradas pinturas de Henrique Bernardelli no antigo prédio do Instituto, que hoje abriga o Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, na Praça Tiradentes, Rio de Janeiro.
O maestro comenta ainda sobre Belmiro de Almeida, indaga sobre a moldura do seu retrato pintado em 1895 [P229] e faz acertos de pagamentos com Visconti.

Nesta correspondência endereçada a Visconti, Alberto Nepomuceno menciona uma mulher de nome Diana. Outros missivistas, como Félix Bernardelli [CR1906K] e Henrique Bernardelli [CR1898] também citam Diana em suas correspondências, todas endereçadas a Visconti entre 1896 e 1904. Duas décadas depois, Manoel Santiago em sua correspondência a Visconti cita o casal Dampt [CR1928], [CR1928A] e [CR1929]. A Diana citada nas cartas da passagem do século é a mesma Pag. 3Madame Dampt citada por Manoel Santiago nas cartas de 1928 e 1929. Diana Cid Garcia, nascida na Argentina, foi uma das primeiras artistas latino-americanas expondo com regularidade no Brasil. Ela participou das Exposições Gerais de Belas Artes em 1894, 1895, 1897, 1899, 1902, 1906 e 1914, entre outras. Em 1905 Diana esteve no Brasil para realizar uma exposição no Salão do Grão-Turco, no Rio de Janeiro, trazendo vários quadros. O Cristo e a Adultera, que teria sido bastante elogiado por Jean-Paul Laurens, na França, foi adquirido para a Galeria da Escola Nacional de Belas Artes e é a mesma tela que Félix Bernardelli denomina de A mulher adúltera, em sua carta a Visconti [CR1906K]. Diana casou-se com o celebrado escultor francês Jean Dampt e passou a residir em Paris, mantendo contato com Visconti, de quem foi vizinha em 1904 no número 17 da Rua Campagne Première, e também com outros artistas do círculo de amizades de Visconti. Manoel Santiago, acompanhado de sua esposa Haydéa, frequentou assiduamente a casa do casal Dampt no período de sua bolsa de estudos em Paris, entre 1928 e 1932.
A seguir, a íntegra da carta de Nepomuceno transcrita.

Pag. 4Petrópolis  14  maio  1896

Meu caro Visconti

Escrevo-te às pressas. Envio-te um cheque de 220 francos por conta do que te devo. Não estou bem certo quanto é pois as notas que tenho no momento são somente desta quantia. Lembro-me porém que fizeste ainda umas despesas por minha conta. Em quanto importam, não me lembro. Vê lá se me mandas dizer. Aproveito a ocasião do câmbio estar melhor para enviar esta soma. O franco está custando 966 rs. Faço também um pagamento de 80 marcos para Berlim. Cada marco 1$193 rs.

Aproveito desta ocasião porque não tenho confiança que o câmbio suba muito mais e assim fico aliviado um pouco porque sei que dinheiro de pintor está sempre à espera dos modelos.

Então que tal a Exposição? Os Champ Elisée et de Mars? E a Rose+Croix. Escreve-me a respeito. O que fizeste este ano? Eu cá vou iniciar a estação de concertos no dia 24 de maio. No dia 31 faço um concerto de arromba. É o primeiro dos concertos populares.

O Belmiro vai partir para Paris. Fez uns cobres, talvez uns 50 contos (disseram-me) e lá vai viver um pouco por lá. Faz muito bem. É um rapaz com quem a gente nunca deve ficar mal. Deves suportá-lo com um pouco de paciência e o melhor meio de evitá-lo é morar bem longe de onde ele mora.

Pag. 5Não vi ainda o Henrique depois que ele chegou de Teresópolis. O trabalho da cúpula do Instituto vai bem, e creio que será de bastante efeito, especialmente o quadro bucólico (música) e um quadro do Orpheo. Este especialmente. Os outros têm muita da ilustração, tais sejam a Música guerreira e os Trovadores e a Musica religiosa. Este especialmente falta o verdadeiro sentimento, não há fé nem crença ali, e é um pouco grosseiro um tipo de S. Cecilia que lá tem. São coisas estas porém que ferem a minha sensibilidade, mas que devem não ferir a deste povo blasé d’aqui. Em todo o caso é um trabalho muito interessante feito com aquela técnica prodigiosa do Henrique.

Para mim toda a decoração salvar-se-á e ficará pelo quadro Orpheo. É verdadeiramente poético. Tem invenção, é simples mas diz tudo o que tem a dizer. Enleva e encanta a alma.
Nunca pensei que o Henrique tivesse aquela poesia.

O Eivind está muito travesso. Não há quem o suporte. A Walborg vai bem e recomenda-se a ti.

Soubeste da falcatrua que o Mesquita fez com o pobre do Braga? Comeu todo o cobre do concerto e o Braga teve de vender tudo para pagar a orquestra e teatro.

Pag. 6Vou escrever ainda a Diana.

Adeus. Até breve.
Manda dizer alguma coisa dos Salões.
Teu Alberto.
NB. Manda dizer quanto custou a moldura do meu retrato

Texto inclinado na pag. 6
Mandei fazer um cheque para o teu dinheiro, a vista, e o cachorro do empregado do Vieira Machado fez a 90 dias! Desculpa-me que não tenho culpa disto.