CR1928 - Carta de Manoel Santiago a Eliseu Visconti, enviada de Paris – 18 de dezembro de 1928

  • Tipo de Documento Correspondências - Após 1920
  • Ano 1928
  • Acervo Museu Nacional de Belas Artes - Rio de Janeiro

Pags. 2 e 3
Pags. 2 e 3

Manoel Santiago, de 1928 a 1932, morou em Paris em gozo da bolsa oferecida pelo governo brasileiro, vencedor que foi do Prêmio Viagem ao Exterior no Salão Nacional de Belas Artes de 1927. Nesta carta de 15 páginas, Santiago consola seu professor Eliseu Visconti, que se queixara de dissabores pelos quais estaria passando. Não se depreende da carta que tipo de amargura afligia Visconti, mas uma hipótese seria a doença de sua filha Yvonne Visconti, que teria contraído tuberculose. Na carta, Santiago mostra-se adepto das teorias teosóficas de Krishnamurti e também relata suas experiências como bolsista em Paris. Critica a moda de uma “arte bizarra”, comenta sobre algumas exposições que visitou e se orgulha de ter seu progresso como artista reconhecido por professores franceses.
Esta carta tem também importância por ratificar o entendimento de que a foto do interior do ateliê de Visconti na Avenida Mem de Sá, tirada por volta de 1930, apresenta também quadros pintados por sua filha Yvonne, embora a grande maioria dos quadros nessa foto seja de autoria de Eliseu Visconti. Este entendimento depreende-se quando Santiago escreve: “Fiquei radiante de satisfação em saber que o meu retrato tirou, como eu previa, a grande medalha de prata…O professor fará o obséquio de guardar os nossos retratos até a nossa volta;” Nesta frase, Santiago refere-se a dois retratos pintados por Yvonne, um do próprio Manoel Santiago e outro de sua esposa Haydéa Santiago. Ambos aparecem na foto do ateliê. O retrato de Haydéa inclusive foi apresentado em 2019 à Comissão de Autenticação das Obras de Eliseu Visconti por seu proprietário, que pleiteava para o retrato a autoria de Eliseu Visconti, com o argumento de que a pintura aparece na foto do ateliê. No entanto a Comissão, ao analisar a fatura da obra, atestou as características da pintura de Yvonne Visconti Cavalleiro.
De acordo com os catálogos das Exposições Gerais de Belas Artes da Escola Nacional de Belas Artes,  Yvonne  ganhou a grande medalha de prata em 1928, na 35ª EGBA. E pela frase de Manoel Santiago na carta, sabe-se agora que esse prêmio concedido a Yvonne foi obtido com o seu retrato.
Eliseu Visconti, como Santiago pediu na carta, guardou os dois retratos em seu ateliê até a volta do casal Santiago da Europa, em 1932.
Abaixo a transcrição completa da carta.

Pags. 14 e 15
Pags. 14 e 15

Paris, 18 de dezembro de 1928

Caro Prof. Visconti

Acabo de receber a sua estimada carta de 1º do corrente mês.  Pelo seu conteúdo vejo que se extraviaram as nossas respostas. Com endereço ao Consulado eu só recebi uma do professor é essa que respondo.
Quanto lastimo as contrariedades porque está passando o nosso querido Mestre. É preciso muita ciência e resignação para suportar todos os desgostos que fazem parte da nossa vida e que são necessários à nossa evolução.
A beleza está mais no sofrimento do que na alegria. Se não fosse o sofrimento nós não conseguiríamos os verdadeiros sentimentos de piedade e de amor.
Krishnamurti conta que em tempos muito afastados as pessoas se julgavam desamparadas por Deus, quando não tinham um pouco de sofrimento.
O professor, realmente, está tendo neste momento uma série de dissabores; mas, atendendo bem às causas, eles não são tão grandes como à primeira vista nos parece.
D. Yvonne foi sempre uma criaturinha, boa, dedicada e mística, esta linha de trabalho que ela escolheu não podia deixar de provocar da parte de Deus meios para ela se desenvolver espiritualmente e os meios são estes… é a minha escola.
O Sr., por sua vez, é um homem feliz, pois tem educado os seus filhos no caminho do dever, da honra e da beleza.
É um ambiente que admira a todos os que o conhecem. Aliado a esta qualidade de bom pai e excelente esposo, conseguiu ser um grande artista.
A todos os momentos nos lembramos dos seus trabalhos, é uma obra que merece ser guardada com carinho num País novo, que terá, como preveem os teósofos, a grande civilização da 7ª sub-raça da raça ariana. Onde as artes tomarão o seu verdadeiro lugar. Pois, na América do Norte onde desenvolve-se presentemente a 6ª sub-raça, é mais industrial do que artística.
Realmente, tem o professor razão de se aborrecer do nosso meio, que nesse momento é mesquinho e infantil: “moda, automóveis, querer popularidade, etc etc”.
Mas isto passará, o Brasil tem no seu solo as maiores riquezas do mundo. Aguardemos o futuro.
Não compreendo porque diz não ter trabalhado, “o pouco que faço nada vale, é naturalíssimo que traga o carimbo do meio”. É excesso de pessimismo ou modéstia ao extremo, pois ao sair daí, vi os seus últimos quadros e os achei admiráveis.
Viajando é que se aprende a julgar e comparar.
A Europa passa presentemente por uma preocupação de chamar atenção pelo que é bizarro. Esta influência tem atraído os maiores artistas. Nota-se felizmente já uma reação por parte dos críticos e dos próprios artistas. Dizem que foi a influência dos chineses, japoneses, que fizeram essa reviravolta na Arte. Também os excêntricos compradores americanos concorreram para despertar o apetite da pintura exótica. E chegou a tal ponto que as galerias só aceitavam trabalhos modernos e complicados. Ainda em Montparnasse se encontram spéciemens deste gênero: Um pedaço de vidro ou espelho com um cordão vermelho pregado, algumas manchas de tinta e está feito o quadro. A pintura negra terra de ???? e com muita falta de desenho tem produzido muitas mediocridades.
O pintor Guirand de Scevola fez uma bela exposição, talvez um pouco chique, mas mesmo assim muito boa, desenhada e colorida. A mesma orientação de quando esteve no Brasil.
Bernard fez uma exposição, não gostei tanto quanto esperava. Não tinha nada que se comparasse aos trabalhos dos museus.
Segue junto com esta carta alguns catálogos.
Tenho achado o meio admirável para estudar. Frequentamos quase diariamente a academia Chaumiere e Colarossi. De manhã fazemos pintura e à tarde frequentamos os cursos de desenhos e croquis.
Nos julgamos devido a este exercício diário, muito mais fortes. Outro dia, não encontrando lugar nos cursos sem professor, para não perder a semana, trabalhei na aula do professor Vaillant. Ele olhou a minha pintura e disse: “O Snr. conhece bem o métier. Pinta há muitos anos, não é verdade????”
O outro professor é o Grisset, me viu pela primeira vez e disse: “Ah.! O Sr. está se vendo que trabalhou muito nas férias…fez um grande, grande progresso!..”
É tudo que eu posso dizer ao meu bom professor dos meus estudos.
Em casa estamos sempre compondo e estudando. Comecei um quadro grande (2 metros), mas estou fazendo com toda a calma.
Haydeá também trabalha muito e não pensa em outra coisa senão na Arte.
Olga escreveu de Florença a Haydéa dando notícias detalhadas: – “vida barata”, pagam por um atelier 5.500 liras por ano, com saída independente para a rua. Depois viram um outro ao seu lado por 3.000 liras. O modelo pagam 5 liras por hora. Aqui em Paris é 25 francos por 3 horas.
O seu endereço é – “Piazza Donatello 5A Studio Olga-Mary” Firenze – Italia”.
Aqui em Paris se o Sr. vier terá o nosso atelier à sua disposição.
Fiquei radiante de satisfação em saber que o meu retrato tirou, como eu previa, a grande medalha de prata.
O professor fará o obséquio de guardar os nossos retratos até a nossa volta; no caso de alguma viagem, é favor telefonar ou escrever ao meu irmão: – Dr. Clovis Bastos Santiago, 2º escriturário da Alfândega do Rio de Janeiro, que lhe mandará buscar.
A minha carta já vai longe, mas a sua me trouxe muitas saudades.
Lembranças de Haydéa e Mamãe à sua distinta família. Muitos abraços do discípulo grato e amigo.
Santiago.
P.E. Frequentemente visitamos o casal Daumpt, sempre muito gentis.