CR1912A - Carta de Machado para Eliseu Visconti sobre a aquisição de “Maternidade” pelo Governo de São Paulo – Incidente com Freitas Valle – 26 de janeiro de 1912

  • Tipo de Documento Correspondências - De 1901 a 1920
  • Ano 1912
  • Acervo Projeto Eliseu Visconti

Pág. 2

Esta carta corrobora a hipótese de que o incidente do Deputado Freitas Valle com Eliseu Visconti, externado pelo artista na correspondência [CR1912], tenha tido como causa a aquisição da tela Maternidade [P415] pelo Governo de São Paulo. O Deputado, integrante da Comissão de Compras da 1ª Exposição Brasileira de Belas Artes, realizada no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, não indicou a aquisição da tela de Visconti ao Governo do Estado, como era desejo do artista. Segundo a carta, a obra somente teria sido adquirida após a intervenção do presidente da Comissão da Exposição, Dr. Adolpho Pinto. que conseguiu que o Sr. Altino Arantes, Secretário do Interior do Governo do Estado, autorizasse a compra.
Segundo o missivista e autor desta carta (Machado – não identificado), o jornalista português Augusto Barjona, ligado ao Correio Paulistano, criticava e apontava defeitos na obra de Visconti, aparentemente com o objetivo de inviabilizar a compra, interessado que estaria, junto com o pintor José Pinelo Llull, que o governo paulista adquirisse quadros da exposição de obras espanholas que também ocorrera em São Paulo em 1911, organizada pelo pintor Pinelo.
O missivista, para embasar suas assertivas, anexa à carta dois recortes de jornais da época. Um recorte é da coluna “Artes e Artistas”, intitulado “Exposição Brasileira de Bellas Artes”, na qual a aquisição de “Maternidade” é elogiadíssima pelo autor da coluna, que parabeniza o Governo do Estado pela aquisição. Infelizmente o comentário do missivista Machado sobre esta coluna está ilegível, no trecho inferior da página 1 de sua carta, danificado. E o missivista anexa também uma coluna do Correio Paulistano, intitulada “Pintura Espanhola”, em que estão relacionadas as obras espanholas da exposição organizada por José Pinelo Llull, adquiridas pelo Governo do Estado de São Paulo.
Visconti, nove anos antes, havia tido contato cordial com Freitas Valle, inclusive doando ao futuro deputado a obra Trecho de jardim no Luxemburgo [P441], fato relatado na correspondência [CR1903].
A seguir, a transcrição da carta.

São Paulo, 26 de janeiro de 1912

Visconti

Recebi ontem o regulamento da Escola. Obrigado.
Agora eu desejo que você me informe quais são os deveres impostos aos pensionistas na Europa, é que o regulamento nada diz a esse respeito.
Desejo saber quais são os trabalhos que os pensionistas do 1º ano, 2º ano, 3º, 4º e 5º são obrigados a remeter à Escola, tanto de pintura, como de escultura.
O artigo 50, do regulamento, diz que esses deveres serão organizados pelo corpo docente e nada mais adianta.
Remete-me estas informações o mais depressa possível. Sim?
O Secretário da exposição já me preveniu da aquisição de teu quadro e explicou-me como o governo a adquiriu.
Foi graças à intervenção do presidente da comissão da exposição, o Dr. Adolpho Pinto, que conseguiu que o Dr. Altino Arantes, Secretário do Interior do Governo do Estado, o adquirisse, depois de algumas considerações a respeito dessa venda.
O Dr. Altino, aconselhado pelo Dr. Freitas Valle e Ramos d’Azevedo, não o adquiriu antes, por serem estes senhores os membros da comissão de compras e não o terem indicado para o governo, e somente o quadro do Baptista e de uma D. Camargo e os três adquiridos ao Pinelo por 25.000$000 sem desconto.
De modo que você receberá somente 4.500$000, porque a comissão retira 10% do produto da venda do quadro!!
——————————————Trecho rasurado ilegível———————————————–
aquisição da Maternidade.
Também te remeto uma tira do “Correio Paulistano” sobre o mascate, e cujo jornal é do português Augusto Barjona, nosso inimigo, isto é, inimigo de tudo que é feito no Brasil por brasileiros.
Leia com atenção o último período do artigo e prepare trabalhos para a próxima exposição em São Paulo, para educar o senso estético dos paulistas e fazer despesas com o transporte de telas, cujo resultado, depois, será de somente ter coberto as despesas que fizer!!!!
Isto é que é a verdade,
É provável que no dia 5 aí já tenha chegado.
Remete-me as informações que te peço, logo que esta te chegue às mãos.
Adeus e aqui fico até ao dia 4 de tarde.
Lembranças aos teus e até breve.
Do colega amigo
Machado.

P.S. Concorri também, graças a um amigo meu aqui, para que você conseguisse vender o seu trabalho, aconselhando esse meu amigo o presidente e o vice-presidente, a que se realizasse essa compra por meio da intervenção de algum desses senhores. Isto não é para você me agradecer, mas estou satisfeito, porque não se realizou o que os mentores da terra Freitas Valle, Ramos d’Azevedo e o português jornalista desejavam. Este último todas as vezes que ia à exposição, era somente para te meter as botas e achar defeitos em teus trabalhos, principalmente na “Maternidade” em que ele só via defeitos de desenho, de técnica e outras imbecilidades por ele ditas. Creio que o Pinelo é sócio desse tipo, portanto, não lhes convinha que o Governo comprasse a “Maternidade”.

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