Introdução

A Exposição Retrospectiva histórica de Eliseu Visconti foi organizada no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) cinco anos após a morte do mestre, num esforço conjunto e ousado do grupo de técnicos da instituição, auxiliado pela família Visconti, em poucos meses, sem tempo para a pesquisa necessária e sem patrocínio. Lygia Martins Costa escreveu o texto principal do catálogo: “Apreciação da Obra”. Certamente a primeira pessoa a elaborar um estudo metódico e cronológico da obra de Visconti – o que não foi tentado nem mesmo pelo seu biógrafo Frederico Barata[1] – a conservadora do museu buscou sistematicamente definir uma linha evolutiva para a produção do pintor. O catálogo traz uma “Nota Explicativa”, que considera:

Não há obra de artista que permita estabelecer de maneira infalível uma cronologia precisa e absoluta. Temos que levar em conta sua liberdade de concepção, por vêzes oposta em épocas simultâneas. Assim, pois, é preferível estabelecer períodos para, com melhor segurança, situar a sua produção artística. […]

Muitos de seus trabalhos estão datados, mas na deficiência precisa do ano, forneceu-nos esclarecimentos a família assim como o estudo comparativo permitiu determinar a época em que foram executados.[2]

Ainda que admitindo a liberdade de concepção do artista, Martins Costa adotou, a partir da idéia de “evolução”, alguns pressupostos que a levaram a equívocos, como o de considerar Revoada de pombos (s.d.), por sua fatura solta, dita por vezes “quase abstrata”, como uma das últimas criações de Visconti, colocada antes apenas de Meu netinho (1944), e Três Marias, tida como a última pintura criada por ele. Logo no início de sua “Apreciação da Obra”, ela ressalta a discrepância, observada então:

É o artista que não envelhece, espírito inquieto que concilia nas vésperas de morrer, aos 77 anos de idade, a “Revoada dos Pombos”, do patrimônio do Ministério da Educação e Saúde, com as “Três Marias” de propriedade da Viuva Visconti. E por mais afeitos que estejamos com as surprezas que os artistas não raro nos reservam, não podemos deixar de admirar gêmeos tão dissemelhantes. É o caso para se constatar e não para explicar.[3]

Ainda que Revoada de pombos já possa ser vista no atelier do artista, numa foto publicada em 1926[4] e, portanto, quase duas décadas separem as pinturas citadas, a mesma dessemelhança é observada entre Três Marias e paisagens de Teresópolis, da década de 1940, como, provavelmente, Efeito matinal (s.d.) e, certamente, Roupa estendida (1943). Assim também, efeitos bastante díspares podem ser notados entre obras circunscritas em outras fases viscontianas.

No entanto, na sua divisão em períodos, Martins Costa tentou associar cada um deles às designações – Naturalismo; Divisionismo; Realismo; Impressionismo; Neo-realismo – sem ter tido espaço para esclarecer as conotações dos termos e as razões de seu uso, como observou Mário Barata[5]. Apesar do texto apontar percursos de transição e retorno, essa associação não resiste ao conhecimento mais abrangente da produção de Visconti: o fato é que a influência desses movimentos, isolados ou mesclados pelo pintor, é observada em toda sua carreira.

Gilda de Mello e Souza, em 1974, a partir da mostra de 22 obras de Visconti na exposição “Os Precursores”, no Museu Lasar Segall, aponta no pintor uma “indecisão estilística” e o chama de contraditório já no subtítulo do artigo. Mesmo observando a liberdade com que Visconti se utilizava de técnicas diversas na mesma obra, a autora não se dá conta de sua originalidade e ousadia. Porém, na análise de determinadas pinturas, aproxima-se timidamente da peculiaridade do trabalho de Visconti:

A tensão entre duas inclinações diversas – uma objetiva e colorística assentada no Impressionismo e outra subjetiva e linear aparentando-se ao Simbolismo – podem no entanto se harmonizar. […]

À medida que alcança o pleno domínio de seus meios expressivos, o pintor abandona as características rítmicas e ornamentais do período simbolista. A visão interior cede lugar à necessidade de estruturar picturalmente a tela e a pincelada se torna mais larga, mais encorpada. No Retrato do Filho, no Auto-retrato da velhice, já não há mais predomínio do desenho e o oleo é tratado com um vigor que se diria expressionista, se sob as côres agressivas palpitasse um pouco mais de tormento.[6]

Só não se pode mesmo esperar de Visconti, o tormento. Uma característica sempre apontada por críticos desde o início de sua carreira é a sinceridade de suas obras. Ele não poderia expressar uma emoção com a qual não conviveu, somente porque era aquela que impulsionava a mais nova corrente estética. Visconti não se deixou permear pelos movimentos artísticos que encontrou na Europa por seu modismo. Mas somente absorveu e adaptou aqueles que lhe tocavam a sensibilidade, que se harmonizavam com seu temperamento, cujas técnicas e efeitos podiam expressar a sua forma de sentir o mundo. E desses se utilizou em qualquer momento da sua carreira, não só enquanto estavam no auge.

Visconti também não tinha necessidade de bradar contra as regras acadêmicas porque nunca se sentiu preso a elas. Utilizou as habilidades aprendidas na sua formação sempre que com elas podia conseguir o efeito desejado, assim como também do ideário e ferramental Impressionista, Divisionista, Art nouveau, Simbolista ou Pré-rafaelita. Como observou Mário Barata, Visconti “agiu simultâneamente com a sua suficiente capacidade de renovação e a sua necessidade individual de preservação de certos valôres sensíveis”[7]. Talvez sejam essas as suas características mais marcantes e peculiares, e certamente aquelas que o levaram a harmonizar linearismo, colorismo e divisionismo. Elas possibilitaram uma obra tão diversificada, que dificultou a compreensão de muitos críticos que, não conseguindo ver um percurso claro e retilíneo na evolução de fases distintas, julgaram que o pintor tivesse momentos de retrocesso. Porém, essa capacidade de expressar sua visão pessoal do mundo e do tempo em que viveu, de ser original sem a necessidade de rebelar-se radicalmente contra a tradição na qual foi formado, é que fazia Visconti declarar-se “presentista”[8].

PINACOTECA DO ESTADO DE SÃO PAULO – 2011

A partir de algumas iniciativas no sentido de catalogar a produção do mestre[9], ampliou-se consideravelmente o conhecimento de sua carreira, no cotejar de obras e documentos de toda a espécie. Também a recente grande retrospectiva realizada na Pinacoteca do Estado de São Paulo (dez. 2011 a fev. 2012), com segunda montagem no MNBA, no Rio de Janeiro (abr. a jun. 2012), “Eliseu Visconti – A Modernidade Antecipada”, possibilitou novamente, depois de 62 anos daquela histórica, a extraordinária visão de conjunto de mais de 220 obras originais de Visconti. Sendo assim, é possível hoje tentar estabelecer outra hipótese de divisão da sua obra artística em períodos; não mais a partir das técnicas trabalhadas, visto que este método se mostrou improdutivo, mas considerando-se fatos importantes ocorridos em sua vida particular e carreira profissional, que, aliás, se mostraram indissociáveis.

 

NOTAS:

[1] Frederico Barata. Eliseu Visconti e seu tempo. Rio de Janeiro: Zélio Valverde, 1944.

[2] Catálogo Exposição Retrospectiva de Elyseu D’Angelo Visconti. Rio de Janeiro: MNBA, nov. 1949, p. 35.

[3] Idem, p. 19.

[4] Angyone Costa. Na intimidade dos nossos artistas. O Jornal, Rio de Janeiro, 11 jul 1926, p. 15.

[5] Mário Barata. Significação de Visconti. In: Exposição Retrospectiva de Eliseu Visconti, 1977.

[6] Gilda de Mello e Souza. A arte brasileira já era moderna no final do século XX. Última Hora (Cultura crítica). São Paulo, 19 e 20 out 1974, p. 16.

[7] Mário Barata. Visconti é uma Lição. In: Catálogo E. Visconti. Rio de Janeiro: MNBA, jul/ago 1967.

[8] Angyone Costa. Opus Cit.

[9] Tese de doutorado “A catalogação das pinturas a óleo de Eliseu Visconti”, defendida em 2010, e o esforço continuado do Projeto Eliseu Visconti, disponibilizando um catálogo on line no site oficial do pintor, de toda sua diversificada produção artística, a partir de 2011.

REVOADA DE POMBOS - OST - 73 x 50 cm - c.1926 - MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES - MNBA - RIO DE JANEIRO/RJ
REVOADA DE POMBOS
MEU NETINHO - OST - 37 x 51 cm - 1944 - COLEÇÃO PARTICULAR
MEU NETINHO
EFEITO MATINAL - PAISAGEM DE TERESÓPOLIS - OST - 60 x 45 cm - c.1940 - EX-COLEÇÃO BANERJ
EFEITO MATINAL
ROUPA ESTENDIDA - OST - 81 x 60 cm - 1943 - COLEÇÃO PARTICULAR
ROUPA ESTENDIDA
RETRATO DO FILHO (TOBIAS) - OST - 39 x 39 cm - c.1930 - MASP
RETRATO DO FILHO (TOBIAS)
AUTORRETRATO - OST - 65 x 54 cm - c.1940 - COLEÇÃO PARTICULAR
AUTORRETRATO – c.1940
PINACOTECA DO EST. DE SÃO PAULO – 2011
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