1937-1944 – Deleite (Teresópolis-Rio)

Finalmente, nos últimos oito anos de sua vida, Visconti parece se permitir gozar de tudo que conquistou. Ele ainda atua nos salões, como membro da Comissão Organizadora, apenas em 1937 e do júri de Arte Decorativa, em 1938. Mas, como expositor estará presente em todos os anos, até sua participação póstuma, em 1945. Contribui também com uma exposição internacional, como membro da comissão que escolheu as obras que seriam expostas no Stand de Arte do Pavilhão do Brasil, na Exposição do Mundo Português (1940) e exibindo ali, seu quadro A Providência guia Cabral (1899), na ocasião, intitulado apenas Cabral. E ainda, no seu último ano de vida, participa de uma comissão criada com o objetivo de selecionar pinturas de Castagneto, para uma exposição retrospectiva no MNBA, e evitar a inclusão de obras não autênticas.

NO JARDIM - OST - 47 x 61 cm - c.1938 - MUSEU HISTÓRICO E DIPLOMÁTICO DO ITAMARATY/RIO DE JANEIRO/RJ
NO JARDIM – c.1938

Porém, ele irá desfrutar cada vez mais do paraíso da sua velhice, em Teresópolis, assim como fora para Claude Monet, o seu jardim em Giverny. Ali Visconti cria ainda cerca de trinta pinturas, entre estudos de recantos do jardim, com predominância do vermelho vivo de suas folhagens e flores; paisagens polvilhadas com personagens anônimos, como aquela que enfoca uma casa vizinha na Avenida Delfim Moreira; ou vistas nas quais domina a exuberância da vida vegetal, identificando-se apenas o mesmo portão azul da entrada de sua casa, como em Efeito Matinal.

Dentre estas pinturas estão ainda paisagens em que se distingue, mesmo que apenas esboçadas, as figuras de sua esposa – Descanso em meu jardim, no qual o portão azul se agiganta; e da filha Yvonne, acompanhada agora dos seus próprios filhos, primeiros netos do pintor – Um ninho (1940-41), dentre outros; ou em que Visconti usa, mais uma vez, como elemento plástico em destaque, as roupas estendidas no varal, inclusive no majestoso Quaresmas (1942). Merecem ainda menção especial: Evocação de Louise, no qual a cabeça da esposa surge a um canto, sobre a folhagem do jardim, com o portão azul e a montanha ao fundo; e Passeio no parque, uma pintura impactante pela beleza do seu colorido e modernidade da fatura encorpada e ágil. Nesta, o sol, quase a pino, brilha por entre as folhas do jardim, e atinge o grupo pelas costas, provavelmente os netos do pintor, acompanhados pela babá e uma garota.

Talvez ainda mais que nas paisagens do Jardim do Luxemburgo, do Rio de Janeiro ou de Saint Hubert, nestas de Teresópolis, Visconti revela toda a preciosidade da renovação efetuada por ele a partir da técnica impressionista. Ninguém melhor que Reis Junior, seu contemporâneo, para expressar a profundidade desse processo, em poucas palavras:

O impressionismo conviria a êsse poeta visual, mas o impressionismo de Visconti é um recurso e não uma finalidade; a decomposição da côr satisfaz-lhe os sentidos, ao mesmo tempo que o auxilia a exprimir a delicadeza dos sentimentos, sem prejuízo da compreensão plástica da matéria.[1]

HINO À BANDEIRA - ESCOLA HIGINO DA SILVEIRA EM TERESÓPOLIS - OST - 192 x 240 cm - 1940 - PINACOTECA DO ESTADO DE SÃO PAULO
HINO À BANDEIRA – 1940

Escolhendo, ainda, Teresópolis, como cenário, mais precisamente o pátio externo da Escola Dr. Hygino da Silveira, Visconti deixa registrado seu amor por sua pátria de adoção e sua preocupação, várias vezes externada em entrevistas, com a educação da juventude, em uma grande tela. Apresentada no 46º SNBA, em 1940, como Hino à Bandeira, a pintura representa o ato cívico, àquela época, diário, que iniciava os trabalhos escolares. A Bandeira Nacional, que aparece ainda em outras composições de Visconti (esboços para as decorações não realizadas, Posse de Deodoro da Fonseca, 1925 e O Brasil Liderando a América, 1933), ocupa a posição central da tela – gigantesca, desce do alto mastro e se esparrama na altura dos alunos. A fatura é mista, como em outras pinturas de Visconti, com a bandeira e a paisagem em técnica divisionista, e os personagens em modelado tradicional; reconhecendo-se, do lado de fora da grade da escola, também saudando o pavilhão nacional, Yvonne e seus dois filhos, representando a família, e o governo brasileiro, na figura do então presidente Getulio Vargas.

Visconti dedicou seus últimos anos também à criação de vários retratos, de personagens com os quais mantinha diferentes graus de amizade: do historiador da cidade do Rio, Luiz Edmundo (1937); do galerista José Vieitas (1938), que expôs obras de Visconti, pelo menos em três ocasiões (1890, 1906 e 1910); do discípulo em curso particular, Manoel Santiago; de dois pré-adolescentes, nomeados no título da obra mas não identificados, Alédia e Crispim (1940); do biógrafo Frederico Barata (1942), realizado em dois aspectos – meio perfil e perfil total – entre os quais aparece ao fundo parte de um autorretrato; e do Diretor Geral da Biblioteca Nacional, ao tempo da construção da sua sede na recém-aberta Avenida Central, para a qual Visconti realizou dois painéis, Manoel Cícero Peregrino da Silva (1943).

RETRATO DO PAPA LEÃO XIII - OST - 97 x 97 cm - 1941 - TRIBUNAL SUPERIOR DO TRABALHO/BRASÍLIA
RETRATO DO PAPA LEÃO XIII – 1941

Realiza também o retrato simbolista do Papa Leão XIII (1941), em comemoração ao 50º aniversário da encíclica “Rerum Novarum”, que debatia as condições das classes trabalhadoras, tratando de questões levantadas durante a revolução industrial. Visconti sempre se interessou por esse assunto, especialmente sobre a colaboração dos artistas com projetos para uma indústria tipicamente nacional, e pela formação das mulheres nas artes industriais que, precisando trabalhar, teriam uma atividade digna e criativa.

Neste período, Visconti ainda se autorretratou cerca de uma dezena de vezes, incluindo dois dos mais significativos, um deles, aquele realizado em três posições. O pintor já havia realizado um autorretrato em quatro posições (1914), no qual seus cabelos, e principalmente a barba e o bigode, começam a pratear, e numa das posições ele ostenta elegantemente seu chapéu. Porém agora, já com mais de setenta anos de idade, cabelos e barbas totalmente brancos, portando a gravata borboleta e os óculos redondos com os quais ele vai se representar constantemente a partir da década de trinta, destaca no centro do primeiro plano a paleta e os pincéis que o acompanharam a vida toda. Ao fundo e à direita, aparece mais uma vez o rosto de Louise, como se depois de tantos anos de convivência, a imagem do pintor não pudesse mais se dissociar da dela, simbolizando o seu tema mais constante: a família.

O segundo é o Autorretrato ao ar livre (1943), cujo fundo paisagístico, representa, como em tantas outras obras, um quintal iluminado, colorido, em fatura moderna de pinceladas bem visíveis. É interessante fazer deste um pendant com aquele primeiro autorretrato, cujo fundo representa folhagens e pedras, sendo os dois os únicos ao ar livre de Visconti que se conhece, com exceção daquele de 1902, em que o céu azul, entre nuvens brancas, aparece por detrás do muro ao fundo. Porém, neste da sua maturidade, a paisagem ganha maior espaço e tem tanta importância quanto o retratado, tornando-se a pintura mais um exemplo da perfeita harmonia conseguida por Visconti entre figura humana e natureza.

NO JARDIM - OST - 50 x 62 cm - c.1942 - COLEÇÃO PARTICULAR
NO JARDIM – c.1942

Dentre suas últimas obras, como não poderia deixar de ser, estão também vários retratos da família, com destaque para dois em que Visconti representa a esposa Louise já com os cabelos bastante alvos, e para uma cena ambientada no jardim da casa de Copacabana, em que ela aparece ao lado da filha, intitulada Para o banho e apresentada no 48° SNBA, em 1942. Mas, também algumas figuras anônimas atraíram o olhar sensível do pintor e receberam a atenção do seu pincel, especialmente Flor da Rua (1943), dedicada a Frederico Barata, “amigo de sempre”, e Três Marias, no qual as jovens receberam finas auréolas, considerada a última pintura realizada pelo mestre, sendo ambas exibidas no 50° SNBA, de 1944.

Ainda uma última vez, Visconti estará presente na exposição anual do Rio de Janeiro, em 1945, postumamente, completando 38 participações (sem contar a de 1890, última sob a vigência da Academia). Antonio Bento escreve diversas crônicas sobre o salão que, naquele ano, teria aberto somente no início de dezembro, e em uma das últimas comenta mais longamente duas obras de Visconti – um autorretrato que foi comparado a um Rembrandt pelo seu primeiro proprietário, Henrique Cavalleiro, genro do pintor, e o retrato do seu terceiro neto, filho de seu filho Tobias:

São trabalhos da fase derradeira do mestre, já bem proximo da morte. Apesar disso, o pintor ainda nos aparece de mão e espirito firmes. No auto-retrato, sua mascara emerge sensual, viva e palpitante da massa escura do fundo que faz sobressair os tons rosados da face, e os brancos da barba. O retrato de seu netinho deitado no berço é um quadro delicioso, conforme já observei em outra cronica. Parece feito numa unica sessão, de tal forma é espontaneo. Vale sobretudo pela beleza dos tons e pela harmonia do colorido. Revela que o pintor impressionista ainda tinha bem vivos os seus olhos, naturalmente sensíveis à sua ternura de avô. São dos melhores quadros do salão.[2]

AUTORRETRATO EM TRÊS POSIÇÕES - OST - 63 x 81 cm - c.1938 - MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES - MNBA - RIO DE JANEIRO/RJ
AUTORRETRATO EM TRÊS POSIÇÕES – c.1938

Um pintor que teve a coragem, como poucos, de expor exaustivamente sua obra aos olhos da crítica e do público, nacionais ou estrangeiros, tanto quando era ainda um aluno desconhecido e apenas promissor, quanto depois de altamente consagrado, também por seus pares, Visconti dá a lição de humildade somente possível aos verdadeiramente grandes. São raríssimas as críticas negativas encontradas em mais de 120 anos de crônicas levantadas nas mais diversas publicações, restringindo-se a obras específicas, geralmente não compreendidas por poucos à época, pela ousadia do tema, composição ou fatura; ou quando o discurso o cotejava com outros pintores, procurando defender algum título para estes, o que acabou se revelando sempre infrutífero, uma vez que Visconti foi artista incomparável, em qualquer das diversas categorias de sua vida pessoal ou produção e carreira artísticas.

[1] José Maria dos Reis Júnior. História da Pintura no Brasil. São Paulo: Leia, 1944. p. 304.

[2] Antonio Bento. O Retrato no “Salão” de 1945. Diário Carioca, Rio de Janeiro, 6 jan 1946, 3ª seção, p. 1.

UM NINHO - OST - 69 x 56 cm - c.1940 - COLEÇÃO PARTICULAR
UM NINHO – c.1940
QUARESMAS - OST - 170 x 118 cm - 1942 - COLEÇÃO PARTICULAR
QUARESMAS – 1942
ROUPA ESTENDIDA - OST - 67 x 82 cm - c.1940 - COLEÇÃO PARTICULAR
ROUPA ESTENDIDA – c.1940
PASSEIO NO PARQUE - OST - 86 x 65 cm - c.1940 - COLEÇÃO PARTICULAR
PASSEIO NO PARQUE – c.1940
MEU GENRO E MEU NETO - OST - 54,5 x 46,0 cm - 1940 - COLEÇÃO PARTICULAR
MEU GENRO E MEU NETO – 1940
AUTORRETRATO AO AR LIVRE - OST - 81,0 x 59,5 cm - 1943 - MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES - MNBA - RIO DE JANEIRO/RJ
AUTORRETRATO AO AR LIVRE – 1943
RETRATO DE LOUISE - OSM - 34 x 25 cm - c.1940 - COLEÇÃO PARTICULAR
RETRATO DE LOUISE – c.1940
PARA O BANHO - OST - 81 x 65 cm - c.1940 - COLEÇÃO PARTICULAR
PARA O BANHO – c.1940
FLOR DA RUA - OSM - 33,5x25,0 cm - 1943 - COLEÇÃO PARTICULAR
FLOR DA RUA – 1943
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