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P301 - Dorso de mulher


Assinatura

Procedência

Coleção viúva Couto Valle
1965 (nov.) – Galeria Mondrian Atelier de Arte, Porto Alegre

Localização Atual Exposições Individuais Exposições Coletivas Publicações Comentários

No catálogo da Exposição Retrospectiva de 1949 a pintura está registrada com dimensões erradas: 68 x 62, mas não resta dúvida que se trata da mesma pintura, hoje no museu gaúcho, pois pode ser reconhecida na coleção de pequenas fotos com numeração correspondente às desse catálogo, dos arquivos do Projeto Eliseu Visconti. Está reproduzida em preto e branco, num recorte de jornal sem identificação, arquivado na pasta do pintor, da Biblioteca do MNBA.
O escritor gaúcho Paulo Bentancur tem importante texto sobre esta obra, publicado no Jornal do MARGS nº 57, de maio de 2000:

Flagrada na intimidade mais doce, aquela que parece anteceder uma posse (a sonhada posse masculina), a fêmea figura freqüenta a mente e a paleta de muita gente – Rafael, Goya, Renoir, e esses três são apenas alguns nomes centrais de uma prática de séculos e de centenas de artistas. O ítalo-brasileiro Eliseu Visconti, em Dorso de mulher, trai sua predileção pelo esteticismo de Degas, diluindo aí a antiga poesia vaporosa de Renoir, poesia ausente nessa tela, mas marca fundamental do impressionismo em cujas luzes muito da pintura de Visconti se banha.
Estávamos na passagem do século para o XX (não sabemos em que ano a tela foi pintada), entre o umbral do novo (agora velho) século e a década de 20, os ares do art nouveau lavando a pesada, densa luz do impressionismo que ficara para trás. O pontilhismo acenava de perto. O divisionismo dos neo-impressionistas, típico daquele tempo, fazia com que a cor estivesse sendo definitivamente perturbada, perdendo para sempre a rígida placidez dos tons clássicos.
Mas Visconti não trai a altiva intimidade dessa mulher que nos dá as costas. Ou melhor, que não nos nota, imersa na sua serena nudez, sem o reconhecimento, sem o movimento elegante de quem pede um espelho, tocada por uma luz que morre nela. Acostumamo-nos a ser levados por essa displicente apresentação do corpo feminino: a lassidão de quem se estende, levemente erguida, levemente deitada. Convite e impedimento. A diferença, claro, não está nas mulheres, nem mesmo nas épocas (cuja nudez sempre antecipa o futuro), mas no estilo dos pintores, isto é, nos pintores e seu olhar de macho, num primeiro momento amestrado, e, num segundo, vitorioso pela mão civilizadora da arte. Todos – e não é preciso ser Fragonard ou Rubens – estacam ante a visão e ali ficam, mortificados, incapazes de dar um passo à frente sem antes gravar para sempre a imagem que os feriu.
O impressionismo briga com o fotográfico, afasta-se levemente do figurativo, de certa forma, antecipa o abstrato, mergulhando na sede de luz, no susto ante o fulgor do mundo, ante a auréola nem santa nem demoníaca, mas pretensamente natural, num exagero que banha as formas e nos fecha um pouco os olhos como se um sol acendesse tudo. Num corpo não seria de se esperar esse facho, esse clarão, essa cor móvel, cheia de cintilações, que corusca com um calor úmido e ameaça faiscar o que se vê. A luz então conhece a sombra e mais tarde busca um equilíbrio onde ela não é o elemento principal, ou melhor, ainda é, mas discretamente utilizado. Visconti recupera em seu tempo a cena doméstica, a verdade sem o excesso lírico, a pele iluminada até onde somos capazes de ver, sem as ilusões pictóricas, visualmente retóricas. Como se uma toalha tivesse enxugado aquelas costas. Toalha que a própria mulher usou, sem a nossa miserável ajuda.

 

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