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CD016 - Caderno 3 do acervo do Museu Nacional de Belas Artes – c.1915


Assinatura

Procedência

Coleção Tobias d’Ângelo Visconti
2003 – Coleção Tobias Stourdzé Visconti
2005 – Doado ao Museu Nacional de Belas Artes

Localização Atual Comentários

Neste caderno estão relatadas passagens que Visconti considerou importante deixar registradas por escrito, principalmente do período em que estava em Paris pintando os painéis do foyer do Theatro Municipal. Também estão relatadas as viagens que fez ao final dos trabalhos, em dezembro de 1915, para o Rio, e em abril de 1916, quando retornou a Paris para reencontrar a família que lá havia deixado para evitar os riscos da guerra. É dessa viagem de volta o mais extenso relato do artista, dentre todos os encontrados em seus cadernos de notas. A ânsia em encontrar a família e o risco da viagem o teriam estimulado a registrar todos os incidentes e as reflexões a bordo do vapor Frisia, ele que em ocasiões como essa preferia o desenho. E o final desse longo registro expressa a importância da convivência familiar para Visconti:
“Chegamos a Paris segunda-feira às 8.25 da noite de 24-04-1916. Encontrei na estação Louise, Tobie e Costa. Seguimos para casa pelo metropolitano e às 8:45 estava abraçando Yvonne e Fonsinho. Jantei com grande satisfação e logo me deitei.
Havia quase um mês que não saboreava um sono tão profundo e uma vez mais na minha vida me julguei feliz de estar no meio da família, tudo me pareceu bom. Inclusive o tempo era magnífico.”
O próprio Visconti intitulou esse caderno na primeira página, reproduzida ao lado, como o “Journal das viagens”.
Por ocasião de sua tese de doutorado Les Artistes Bresiliens et “Les Prix de voyage en Europe” A la fin du XIXe siècle: vision d’ensemble et etude approfondie sur le peintre Eliseu d’Angelo Visconti (1866-1944) U. F. R. d’Histoire de l’Art et Arqueologie, Pantheon Sorbonne, Université Paris I, Paris, 1999, a historiadora e pesquisadora Ana Maria Tavares Cavalcanti traduziu e interpretou todos os relatos que Visconti deixou nos cadernos que hoje encontram-se no acervo do Museu Nacional de Belas Artes. Contando com a colaboração de Tobias d’Ângelo Visconti, filho do artista, esses relatos foram à época datilografados com comentários e fazem parte do acervo do Projeto Eliseu Visconti. O mais extenso relato do artista sobre uma viagem, dentre todos os encontrados em seus cadernos de notas, pertence a este caderno [CD016] e está reproduzido a seguir.

Viagem para o Rio (para colocação dos painéis do foyer, que vieram em outro navio)

Parti de Paris a 27 de novembro de 1915, às nove e cinquenta da noite na gare d’Orsay. Noite bastante fria, cheguei a Lisboa depois de 72 horas de viagem regulares. Aqui me demorei quatro dias a espera do Oronza do Pacifico e seguimos para o Brasil no dia 3 de dezembro de 1915. Primeira escala, Las palmas, São Vicente. Passamos somente. Chegamos a Penambuco a 12, a bahia a 13, desci a terra sob um calor ardente. Chegando no Rio a 16 às 10 horas da noite. Desembarquei de manhâ às 7 horas. A primeira pessoa foi o Eliseu e o Remo [sobrinhos, filhos de Maria Anunciata]. O calor era intenso, e continuou até o 24, canicular. Chovendo neste dia cuja temperatura cuja temperatura se tornara fresca. Jantei no dia 24 com Magalhâes [português muito amigo, negociante, bastante rico]. Dia 25 passei no atelier revendo meus depositos, e mais papéis com Eliseu. Os meus trabalhos do teatro Municipal devem chegar no dia 27 com “Liger”.

Trabalhos do Teatro (colocação dos trabalhos no Theatro Municipal e relato da viagem de volta a Paris)

Estes trabalhos cujo maruflage ficou terminado completamente a 18 de março de 1916. Dando conhecimento disso por uma carta ao Sr. Raul Cardoso, diretor do patrimônio. A 3 de abril recebi a ultima prestação de 15000 $000 na Prefeitrua do Distrito Federal, às 3:15 da tarde. Para receber esta prestação ultima foi necessaria uma luta intensa, luta esta devida a má organização da Prefeitura. Este mesmo dia comecei a preparar a minha viagem para a Europa. No dia 5 de abril de 1916, às 4 horas da tarde, acompanhado do Eliseu, Remo, Angelo [irmãos entre si, sobrinhos de Visconti] e Frederico [amigo de Visconti], dirigi-me em automovel da Mem de Sá ao Cais Mauá, onde embarquei no Frisia, vapor Holandês. Largamos ferro às 7:50 da noite. Transpomos o Pão de Açucar às 9 horas, estando eu ainda jantando. As nove e meia completamente fora da barra. Se não apercebia mais nada, fui me deitar. No dia 8 cheguei na Bahia às 7 horas da manhâ, fui à terra, dia chuvoso, subi o elevador. Ai tomei o bonde do Campo Santo, percorrendo uma grande zona da cidade até o Cemitério. Voltei no mesmo bonde, os arredores são pitorescos, vegetação rica, belas mangueiras e outras arvores gigantescas. Na volta visitei a Catedral, uma linda igreja, os altares laterais são ricos e todos de entalhe monastico, completamente dourado a ouro fino, o efeito é esplêndido. A parte mais curiosa dessa igreja é o claustro, uma linda colunata toscana, quadrada, pintada de branco e cujo interior e ao redor do claustro é todo ornamentado de grandes painéis de azulejos, com cenas do novo e velho testamento, acompanhado de legendas segundo o sistema colonial português. Estes azulejos são claro escuro, azul e camaïen. na parte superior do claustro há um outro andar decorado no mesmo estilo, o efeito é realmente muito nobre e respira perfeitamente o ambiente da época. Este claustro pertence a Igreja de São Francisco, e não à Catedral. A igreja de São Francisco propriamente dita não é interessante, muito ouro e objetos policromos, tem-se a sensação de um templo carnavalesco tal o abuso do detalhe de mau gosto. Esta igreja é habitada por frades creio eu são (…). Não pude visitar outra igreja por estar fechada. O mercado da Bahia é um verdadeiro chiqueiro da cidade. Não se compreende como seus habitantes toleram semelhante infecção.

Depois de ter dado uma volta dentro deste emporium de porcaria e mau cheiro mesmo que houvesse coisas interessantes a comprar, creio que ninguém se atreveria em tocar nestes objetos, tal a repugnância que este estabelecimento inspira. Depois de almoçar por 2600$000 uma canja com vatapá, um copinha de cerveja e duas laranjas, voltei para terra às três horas da tarde na lancha Amalia. Cheguei a bordo na hora do thé e as dez horas do mesmo dia saimos da bahia para Pernambuco.

Domingo 9

Figuras novas sobre a ponte creio ser todo o bando de alguma companhia barata de teatro, gente esquisita e de maneiras livres, sobretudo há uma mulher toda vestida de seda azul com uma faixa na cintura com pretensão à bebê, sumamente pretenciosa. Os dedos das mãos todos chapeados com placas de estanho e pedras falsas que enche totalmente os dedos. Quanto mau gosto! Cada um desses personagens traz consigo um miquinho que faz mil diabruras e diverte todo o bando. O dia esteve bastante fresco. Fui deitar às nove horas. Noite agitada, ed manhâ estavamos em Pernambuco.

Segunda feira 10 de abril de 1916

Estamos diante de Pernambuco, atmosfera pesada, o sol aparece entre as nuvens e uma chuvinha fina encobre momentaneamente a cidade. O sol aparece algumas casas se avistam ao longe o que fere primeiro a vista um grande numero de vapores alemâes atracados desde o inicio da guerra, o novo porto está em construção. Avista-se duas extensas linhas pelo mar afora, e o imenso guindaste despejando pedras no fundo do mar, nenhum movimento ao redor do nosso vapor. A lancha da saude atracou num saveiro descarregando alguns volumes e depois seguimos em direção a Europa. As 9:30 da manhâ largamos ferros continuamos a ver terra até duas horas depois.

terça-feira, 11 de abril 1916

noite quente, pouco dormi, levantei-me às 5 horas da manhâ. As 6 horas começamos a avistar as primeiras silhuetas de Fernando de Noronha. As nove da manhâ estavamos percorrendo a linda ilha em toda a sua extensão. Ora rochosa, ora cheia de verdura. Costeamos a terra a 2 milhas mais ou menos. Num certo lugar apresenta-se uma pequena enseada de areias claras cujas aguas nos bordos são de uma limpidez exrtaordinaria. Verde esmeralda quase puro, em contraste com o azul da agua o efeito é feérico, avista-se a igreja, o presidio com a espécie de uma fortaleza, varias choupanas cobertas de palha enfileiradas nas encostas das colinas provavelmente pertencentes aosocndenados. Há um pico elevado que de certo ponto lembra o Pão de Açucar. Chegando de perto este pico compôe-se com outras montanhas e a impressão que se tem é de uma flecha elevada de catedral. O efeito é estupendo a vegetação da ilha não passa de arbustos regulares e muitas partes vê-se a cultura a julgar pelo aspecto de longe parece milho, feijão, etc. É sempre confortante ver terra no meio do oceano. E sobretudo o verde me causa uma sensação de calma e repouso.

Efetivamente não é o pior lugar para os condenados, eles devem gozar de um ar puro e de uma certa liberdade relativa. Há igualmente nesta ilha quatro pirâmides de ferro distanciadas umas das outras servindo de transmissão e recepção de telegrafo sem fio;

4° feira 12 de abril de 1916

Dormi um pouco melhor. Pedi ao companheiro do quarto para deixar a cortina do camarote completamente aberta, impossivel tomar-se banho de manhâ, a afluência é grande, tomei o partido de banhar-me às 11 horas ou às 4 da tarde. Esta manhâ passamos o equador às 6 e meia, temperatura agradavel, mar calmo, céu azul. Seguindo o vapor com movimento de tangage. O caldo das 11 horas pouco difere do gosto do oleo de ricino, contento-me em tomar alguns goles para saturar o estômago. Raras vezes tenho visto umas nuvens tão belas e um mar tão argentino, tudo vibra dentro de uma atmosfera clara e prateada.

Esta manhâ uma interessante por a minha (…) uma forte discussão entre portugueses e espanhois a respeito de aeite doce. O espanhol dizia que o azeite do seu pais desde o inicio da guerra tinha conquistado o mercado do Rio . Por sua vez os portugueses repetiam que não há como o azeite português e finalemten um outro grupo afirmava que o melhor azeite era o italiano. Enfim todos no fundo tinham razão e assim se acabou a discussão. Há um grupo de atores e mulheres fazendo parte de uma companhia cômica portuguesa, bem vulgares. Todos eles são portadores de um mico, animal sujo e imoral, muitos se divertem com isto. Muitos dando-lhes beijos na boca fazendo abraços e bebendo juntamente no mesmo copo.

14 – 6a feira

De ontem para hoje andamos 290 milhas e se assim continuar nos estaremos em Lisboa dentro de 6 dias. Amanhâ, sabado, devemos chegar a São Vicente. Me parece que a marcha hoje é melhor. A temperatura está se modificando sensivelmente, ontem foi dia de gala a bordo. Não tive a coragem de me vestir, fui para a mesa na forma de costume pois não podia resistir na mesa, tal era minha constipação. O jantar foi a mesma coisa, apenas alguns pratos a mais havendo muito pouca gente vestida de cerimônia. Durante toda a hora da refeição esteve tocando uma orquestra composta de um pianista, dois violinos e um violoncelo. Eu fui um dos primeiros a me levantar da mesa e fui logo me deitar. A minha temperatura era febril, impossivel conciliar o sono, estando a minha cabine abaixo do piano até as duas e meia da manhâ tive de aguentar o barulho da musica e os gritos que algumas mulheres que bailavam, largavam de tanto em tanto. So’ pela manhâ é que pude conciliar o descanso do meu corpo. As 11 horas de hoje tomei um grogue de uisque, de limão e agua quente. Almocei menos mal, porém sem aquele apetite das épocas normais.

15 sabado

O dia de ontem correu sem relevo, a temperatura começa a modificar-se. Há duas noites durmo regularmente. O mar me parece mais calmo e uniforme de movimentos e creio que o vapor tenha andado mais do que de costume. Atualmente 11 e meia da manhâ estamos para chegar a São Vicente. Dizem que devemos muito bem avistar terra e reina a bordo uma certa alegria. É sempre desagradavel quando tenho de abrir uma mala na minha cabine, é embaraçante e fatigante e nunca se acaba de fazer aquilo que se queria. O dia acabou-se estupidamente, sem o mesmo interesse.

Domingo 16

Ontem todo o dia estive na expectativa de avistar terra. O dia bastante fresco. É curioso ouvir-se todas as opiniôes a respeito da guerra. Alguns dinamarqueses sem o quererem mostrar as suas simpatias são sempre para os alemâes, porém nunca deixam de mostrar que a Alemanha militarmente não será vencida. Hoje falo com o maître d’hotel. Ele conta-me que o Frisia faz neste momento a sua trigésima sétima viagem e não podia prever até quando viajará.

Corre o boato a bordo de que o nosso vapor tocará Vigo antes de Lisboa devido ao receio de haver submarino nas proximidades de Lisboa. Porém isto não passa de balela. E assim se passam os dias, ouvindo opiniôes contrarias sobre varios assuntos, é o que faz passar um pouco o tempo. De todas as viagens que tenho feito, se formam sempre a bordo grupos, porém nesta viagem o fenômeno é mais acentuado. Devido naturalmente à manifessta promiscuidade de classes. gente de educação há pouca, a maioria é composta de portugueses mais ou menos arranjados porém cuspindo e atirando pontas de cigarro em toda parte.

Segunda feira 17-4-1916

Ontem, às 11 horas da manhâ, enquanto escrevia, ouvi o som de uma buzina e imediatamente apos percebi correndo um marinheiro com seu salva-vidas. Todas as pessoas que estavam na sala de jantar se levantaram mecanicamente, e se entreolhavam ansiosamente. Se não era um caso de naufragio. Corremos para fora da sala. A confusão já era muita e ninguém sabia dar explicação. Quem olhava para a 3a classe, o espetaculo era vibrante, dezenas de pessoas já trepadas nos toldos e nas cordas pendidas para os bordos do vapor e vociferando para um certo ponto que era impossivel descobrir. Finalemnte viemos a saber que se tratava de um exercicio de bordo e que todo o pessoal devia estar munido de salva-vidas. Vi algumas mulheres já palidas e homens pensativos e não deixei de ter um choque elétrico. Enfim assisti a um simulacro do que seria um desastre a bordo e creio que no caso atual sendo dado o rgande numero de passageiros, sobretudo de terceira classe, um sinistro deveria ser algo de pavoroso. Este mesmo dia reservou-me  um outro fato desagradavel: os meus quatro companheiros de cabine, um está bastante enfermo. A tarde tinha vomitado algum sangue, estava em companhia de um tuberculoso. Nesta apreensão custei muito a pegar no sono. Acordando varias vezes durante a noite. Aos primeiros raios do dia pulei da cama para fora da cabine. Ontem andamos 282 milhas, quatro de menos que no dia anterior. A temperatura é bastante fresca, porém ainda estou vestido como sai do Rio, paleto’ de alpaca e calça branca.

3a feira 18 de abril 1916

A viagem já é fatigante. É muito tempo sem ver a terra, a gente leva a pensar como é possivel passar-se doze dias seguidos sem avistar uma nesga de terra, céu e mar. O tempo tem estado magnifico e o vapor joga muito pouco, se não fosse a sociedade tão mesclada, e certa falta de conforto de bordo, como por exemplo quando chove não se tem para onde se refugiar, ou então todos se metem para a sala de jantar. É extraordinario as intrigas que se forjam a bordo. Ninguém poderia imaginar as mas linguas que se revelam em surdina sobretudo entre as mulheres. O curioso é que ninguém escapa de um exame mais ou menos aprofundado; até certo ponto isto faz passar o tempo, do contrario morrer-se-ia de tédio, sobretudo em viagem tão longa. Ontem a noite a orquestra de bordo exibiu alguns temas de Wagner, como por exemplo Loengrim, porém é impossivel ouvir com atenção. Há varias mesas de jogo compostas de homens e mulheres que impedem o silêncio. Entre algumas peças ligeiras exibidas, noto algumas cançôes camponesas, que ora são acompanhadas pelos proprios musicos e o publico cantando acompanhados de socos com as mãos sobre as mesas. Outras vezes com movimentos barulhentos com os pés, servindo-se até os violinistas de seu arco para acompanhar os embates da musica. Acho muitos povos do norte até certo ponto mais livres nos seus gozos materiais.

Ontem avistamos igualmente dois vapores de carga indo para o sul e provavelmente para a América. Foi a unica distração do dia. O médico de bordo veio ver o meu companheiro de cabine. É esquisito este tipo de médico, falta-lhe este ar de confiança. Pediu-me para sair da cabine para examinar o doente, o que fiz prontamente. Depois com ar galhofeiro se dirigiu a mim dizendo-me que eu tinha medo e respondi-lhe sorrindo, porém este médico não me parece sério. Falando com o maître d’hotel e acenando para mim como quem diz a este ultimo: mantei-o plantar favas. O maître d’hotel convida-me para ir ver o hospital acompanhando-o descemos o andar, encontro-me numa grande cabine com dois hublots e quatro camas. Julguei que este local era bastante cômodo para o doente, voltei para a minha cabine e disse ao doente que era conveniente ir para o hospital, mesmo para a sua tranqüilidade. Me parece que ele aquiesceu, protendo a tarde ir ver o local. A noite continuava com o paciente na cabine, creio que o hospital não lhe sorriu e assim vai continuando vivendo em nossa companhia até chegarmos a Lisboa na 6a feira proxima.

19 – quarta feira santa

O dia de ontem terminou sem a menor novidade, a não ser a ansiedade dos passageiros de avistarem terra, isto é as ilhas canarias. Nada vimos durante o dia, passamos muito longe, dizem como precaução. Desde ontem o vapor começou a jogar muito e assim continuou toda a noite. Estamos a dois dias de Lisboa. Há uma certa animação a bordo, sobretudo entre os passageiros que lá descem. Efetivamente há já há doze dias sem parar e sem ver terra, ora isto é demais, e acaba por enervar. Não há outro remédio senão ter paciência esperando.

20 de abril quinta feira santa

Dia agitado, digo agitado sob todos os pontos de vista. Os boatos não faltavam, e muito variados. Entre muitos que em vez de irmos a Lisboa desembarcaremos em Vigo, por receio dos submarinos. Naturalmente teremos que pagar a competente diferença de preço,  que é pouco agradavel aos passageiros. Outros dizem que este vapor não vai pelo canal da Mancha e para ir à Amsterdam ele fará a volta pelo mar da Escocia. Não se sabe em quem acreditar e assim o tempo passa no meio desses boatos.

Todo o dia o mar esteve agitado.  O vapor jogou sempre  no sentido de “tangage”, e muitos passageiros estiveram indispostos. Pela tarde tive a necessidade de fazer uso do meu sobretudo, o vento era bastante frio. A noite tivemos o jantar d’Adieu, alguns pratos a mais porém sempre o mesmo tom de sabor. A sala esteve animada, muitos bebendo champagne e dando vivas a Portugal e Espanha. Houve também uma quête para os musicos que foi menos mal concorrida.

Ao Dessert o Comissario não deixou de comparecer com seu ar de blasé, depois de engolir uma taça de champagne ausentou-se. Fui me deitar às 9 e três quartos. A orquesrta continuou sempre a tocar, alguns passageiros a cantarem e sobretudo o que mais me admira alguns pareceram se divertirem como se o seu pais estivesse em festa. Tudo é contraste na vida, o homem tudo esquece. Não se pode mais ir sobre a ponte, o vento é bastante forte e também os portugueses aproveitam a ausência de gente para largar por todos os cantos cuspidas e escarros o que verdadeiramente faz enjoar.

Estamos a trinta horas de distância de Lisboa. As tres horas da tarde devemos passar em frente ao estreito de Gibraltar. A distância percorrida ontem foi de 262 milhas, creio que este é o recorde de menor velocidade percorrido até hoje. Porém hoje o mar está menos agitado, e infalivelmente devemos chegar a Lisboa 6a feira pela manhâ, ou quando muito a tarde cedo.

21 sexta-feira santa

Ontem o dia correu muito animado por varios motivos. O principal é da expectativa da chegada em Lisboa, o segundo é terem cessado os boatos de perigo. Toda noite o vapor esteve em grande movimento e me parece que andou bastante. Hoje me levantei cedo, olhei para o tempo, é chuvoso, mas parece que vai se levantar. Almoço como de costume, às 7 ½ todos os passageiros que devem descer, estão mais ou menos presentes.

Espera-se avistar terra a cada momento, todas as minhas malas estão feitas.

21 – 4 – 916     Sexta-feira santa

Ultima noite de bordo, quase não dormi, levantei-me às 6 horas e logo avistei terra: cabo São Vicente, quanta alegria! Viajamos marjeando a terra e avistando alguns navios. As 10 e ½ avistamos Cascais envolto em brumas. As 11 e ½ entramos no Tejo. Ao meio dia estavamos tomando batelão da companhia para nos conduzir a terra. Meu Deus, quanta desordem! Estivemos longo tempo no batelão sobre o Tejo. Finalmente desembarquei às 2 horas da tarde em Lisboa. Dirigi-me para o restaurante do Corpo Santo, na travessa de mesmo nome. Almocei bem, juntamente com varias companhias de bordo, indo depois para o Hotel Paris. Passei todo o resto do dia andando pelas ruas e às 6 horas passei um telefonema para Paris. Temperatura agradavel.

22-4-916 sabado santo

Dormi mal, hotel péssimo e sujo. Chego ao Consulado passando na Calçada dos Abrantes. 11 horas, muita gente, era preciso reformar todos os meu papéis. Dirijo-me ao Consulado do Brasil, no Largo Luis de Camôes. Recebido pelo Cônsul Souza Dantas. Muito amavel, expus o motivo da minha visita, visar o meu passaporte, e levei uma carta do cônsul. Eis me de novo correndo para o Consulado Francês, a pé, pois os carros elétricos não andavam, falta de força. De novo o chanceler me disse que o documento visado não tinha mais valor. Volto ao Consulado do Brasil e mando fazer um novo passaporte, 5$600 fortes. As 2 horas de novo no Consulado francês. Depois de meia hora fui despachado. Sigo para o Governo Civil, onde um amigo português me arranjou mandar-me despachar imediatamente. Depois de visado meu passaporte, a alegria era imensa. Segui para a estação do Rocio em companhia do M. Cheret e sua filha. Despachamos as bagagens, troquei ao todo 300 francos, ao câmbio de 240$000 por franco. A passagem custou-me, de 2a classe, 42 mil réis fortes. As 4:35 da tarde largamos Lisboa sob uma alegria indescritivel. Os arredores de Lisboa são lindos, lembrando as paisagens dos primitivos italianos. Casas e povoaçôes pintadas de branco, montanhas bem cultivadas sobretudo de oliveiras. Uma tarde linda, fresca e ensolarada. Chegamos a fronteira espanhola às 10 horas da noite. Facilidade de bagagem, passamos à noite três pessoas no meu compartimento. Eu, Cheret e sua filha. Chegamos à Madri as oito horas da manhâ.

23 de abril 1916 Dia de Pascoa

Ninguém quer aceitar dinheiro português e a moeda francesa perdia 20%. Para comprar um jornal tive que dar 25 centimes. Largamos Madri as nove horas da manhâ. Paisagem monotona até a fronteira francesa. Parece que a Espanha detesta as arvores. Sempre campos desertos, algumas vezes cultivados e raramente arvores. Chegamos a Indaia às oito da noite. Nova revista de papéis, jantei uma sopa e uma omelete. Partindo para Bordeaux às 11 e cinco minutos. Carros muito maus. Chegamos às 6 horas da manhâ de 24-4-16, a demora era quase de 5 horas.

Pus as minhas malas em consigne e fui passear pela rua Sainte Catherine, que ainda estava deserta. Achava-me feliz por estar mais perto de Paris. As 10 horas entro no hotel em frente à estação, tomei uma refeição ligeira e as 11:35 partimos para Paris. Chegamos à Paris segunda feira às 8:25 da noite de 24-4-16.

Encontrei na estação Louise, Tobie e Costa. Seguimos para casa pelo metropolitano e às 8:45 estava abraçando Yvonne e Fonsinho. Jantei com grande satisfação e logo me deitei.

Havia quase um mês que não saboreava um sono tão profundo e uma vez mais na minha vida me julguei feliz de estar no meio da familia, tudo me pareceu bom. Inclusive o tempo era magnifico.

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