CR1939B - Carta de Manoel Santiago a Eliseu Visconti, enviada de Paris – 20 de março de 1939

  • Tipo de Documento Correspondências - Após 1920
  • Ano 1939
  • Acervo Museu Nacional de Belas Artes - Rio de Janeiro

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Manoel Santiago esteve na capital francesa entre 1928 e 1932 em gozo da bolsa oferecida pelo governo brasileiro, já que fora vencedor do Prêmio Viagem ao Exterior no Salão Nacional de Belas Artes. Em 1939, antes da Segunda Guerra Mundial, Manoel Santiago retorna a Paris com sua esposa Haydéa e sua sogra, e de lá envia esta carta para Eliseu Visconti, onde emite opiniões sobre museus e exposições, fala sobre a guerra iminente e comenta sobre uma obra sua que será exposta na Société des Artistes Français. A transcrição integral desta carta de quatro páginas está a seguir.

 

Paris 20 – 03 – 1939 –

Caro Professor Visconti

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                                      A sua prezada carta nos trouxe grande prazer. É sempre animada de vida artística e mocidade
     Ficamos com muitas saudades do nosso querido Teresópolis, lugar admirável para os que amam e sentem a obra divina.
     Realmente seria para nós um prazer poder ficar um certo tempo aqui, 10 anos como nos desejou na sua carta, porém, é impossível. Tenho de ganhar a vida no Brasil para fazer Arte. A inimiga indesejável na nossa terra.
     Temos visto muitas exposições e salões. Acabo de ver um trabalho de Courbet que está sendo exposto com o Museu Pelletier. É admirável; é um nu de mulher dentro de uma floresta num regatinho. É a melhor coisa que vi deste artista, tão bom como qualquer dos grandes pintores antigos. Vi também os Independentes. Poucos trabalhos se salvavam. Na exposição de Cézanne, se destacavam principalmente duas naturezas mortas que eram magníficas.
    Haydéa trouxe na mala algumas manchinhas de Teresópolis para termos como lembranças daí; porém, como era tempo do Salão daqui e eu não tinha nada para aventurar a expor, resolvi ampliar uma delas para uma tela nº 25 e mandar. Acabo agora mesmo de ter a satisfação de receber a carta de admissão e de expositor, do júri da “Société des Artistes Français”.
    Haydéa não mandou porque não teve tempo de fazer nada.
    O movimento da Arte é grande. É o governo, é o operário, são as crianças, os militares, é o povo que enchem os museus e as exposições para satisfazer a sua sensibilidade estética. Faz parte da vida e não se pode viver sem ela.
    Mobiliza-se neste momento tudo, por toda a parte para fazer frente à hedionda guerra que ameaça e quer destruir a velha Europa. A Itália que era a irmã querida da França na Arte e na beleza, hoje não se entendem e querem brigar.
    Como tudo isto é triste e estúpido!…
    Eu como sou sempre otimista, não creio nas ameaças e nem nos jornais. Os homens devem se harmonizarem para a Paz da vida e da beleza na Terra.
    Saudades nossas a todos de sua distinta Família.
    Muitos abraços do discípulo grato e amigo certo.
                                                                            Santiago

      Hotel de La Paix
Boulevard Raspail , 225
            Paris _

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