Diana Cid Garcia, nascida na Argentina, foi uma das primeiras artistas latino-americanas de que temos conhecimento expondo com regularidade no Brasil. Ela participou das Exposições Gerais de Belas Artes em 1894, 1895, 1897, 1899, 1902, 1906 e 1914, entre outras. Em 1905 Diana esteve no Brasil para realizar uma exposição no Salão do Grão-Turco, no Rio de Janeiro, trazendo vários quadros. A tela O Cristo e a Adultera, que teria sido bastante elogiada por Jean-PaulLaurens, na França (segundo a Gazeta de Notícias), foi adquirida para a Galeria da Escola Nacional de Belas Artes e seria a mesma tela que Félix Bernardelli denomina de A mulher adúltera, em sua carta a Visconti [CR1906K]. Diana casou-se com o celebrado escultor francês Jean Dampt e passou a residir em Paris, mantendo contato com Visconti, de quem foi vizinha em 1904 no número 17 da Rua Campagne Première, e também com outros artistas do círculo de amizades de Visconti. Manoel Santiago, acompanhado de sua esposa Haydéa, frequentou assiduamente a casa do casal Dampt no período de sua bolsa de estudos em Paris, entre 1928 e 1932.
Nesta carta Diana mostra-se mais amarga. Havia estado doente de cama por quatro meses. E lamenta que Visconti também não esteja com boa saúde (talvez uma referência ao pequeno derrame que Visconti sofrera em 1934). Enaltece a boa saúde do Sr. Dampt e passa alguns conselhos de alimentação a Visconti. Elogia Manoel Santiago e sua esposa Haydéa, mas tece críticas aos Bernardelli. A seguir, a transcrição da carta em francês e em português.
Paris, le 3 mai 1934 (o ano não aparece na carta, mas é colocado em função da informação de Diana, que assegura a idade de 80 anos do Sr. Dampt).
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Paris le 3 mai
Combien je vous remercie, cher ami Visconti, d’avoir pensé à m’écrire.
Je regrette que votre santé ne soit pas meilleure que la mienne. Je suis encore en convalescence. J’ai eu quatre mois de lit et deux de convalescence, c’est déjà bien. Je vais bien; mais je reste fragile. Il me faut des précautions pour vivre un peu comme tout le monde.
C’est M. Dampt qui ne change pas. Il est toujours le même et il travaille comme quand il avait 20 ans – et il en a 80 [o escultor Jean Dampt, marido de Diana, nasceu em 1854] – tachez vous même de faire autant. Et pour cela il ne faut pas manger de viande. Mangez des fruits, des légumes, du riz, de macaroni, de la polenta – des flocons d’avoine, et vous n’aurez plus de troubles à la vue. À nos âges il nous faut une hygiène sévère. La bas vous avez tant de bons fruits. Bananes – c’est de l’or comme alimentation, Ananas, Mangues, que sais je. Vous n’avez pas besoin ni de viande,
[Página 2] ni de toucinho. este é veneno — Les fruits il faut les mastiquer bien, surtout les bananes, si vous voulez avoir tout leur rendement.
Je suis bien heureuse de qu’ Yvonne se remette, pauvre petite, si jeune.
J’ai quelques fois de ses nouvelles par Santiago. Quel bon garçon, ce Santiago et sa petite femme, ce sont deux êtres adorables, de même que leur mère.
Aussi, j’ai fini avec l’Amérique du Sud. Il ne me reste que vous, Santiago et Itala. Vous la connaissez? Itala, fille de Carlos Gomes — o Guarani muito boa moça.
Enfin, vos garçons semblent tirés d’affaire. Architecte, c’est une bonne carrière. On construit toujours.
Quant aux Bernardelli, Ils sont resté la bas, — seulement pour empêcher les gens d’avancer et de gagner leur vie. Pauvres créatures, qui ne laisseront pas un bon souvenir aux races futures. Je crois que c’est triste; mais il faut dire qu’ils étaient très ignorants, ils voulaient
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être les seuls. Quel erreur, on n’est pas seul, et on ne peut pas avancer dans la vie seul — il faut aider pour être aidé, et avoir des amis, qui vous aimeront même au-delà de la tombe.
C’est ça la vie. Et non pas comme le pauvre Luis, que même après sa mort il a fait du mal. Si sa maison a fait faillite c’est à cause de lui. Enfin cela fera voir à ses associés que l’immoralité est une chose triste — et porte malheur à tous ceux qui l’entourent.
Enfin, tachons nous de faire une fin de vie noble et heureuse.
Adieu mon cher Visconti, dites à votre chère femme toutes mes amitiés et meilleurs souvenirs aussi qu’à Yvonne.
Amitiés de M. Dampt. Il comprend que vous ayez de désirs de venir. Mais vous trouveriez ici aussi la nuit, avec quelques éclaircies — c’est tout.
Toute mon affectueuse amitiés à tous les vôtres
Diana Dampt.
Em seguida, a transcrição em português:
Paris, 3 de maio [de 1934]
Como lhe agradeço, caro amigo Visconti, por ter pensado em me escrever.
Lamento que a sua saúde não esteja melhor que a minha. Ainda estou em convalescença. Passei quatro meses de cama e dois de convalescença, já é um avanço. Vou bem, mas continuo frágil. Preciso tomar precauções para viver um pouco como todo mundo.
O Sr. Dampt é quem não muda. Continua sempre o mesmo e trabalha como quando tinha 20 anos — e ele tem 80 —, tente você também fazer o mesmo. E para isso não se deve comer carne. Coma frutas, legumes, arroz, macarrão, polenta, flocos de aveia, e você não terá mais problemas de visão. Na nossa idade precisamos de uma higiene rigorosa. Aí onde você está, há tantas frutas boas. Bananas — são ouro como alimentação —, abacaxis, mangas, sei lá eu. Você não precisa nem de carne, nem de toucinho. Este é veneno. As frutas, é preciso mastigá-las bem, especialmente as bananas, se você quiser obter todo o seu rendimento.
Estou muito feliz que a Yvonne esteja se recuperando, coitadinha, tão jovem.
Às vezes tenho notícias dela pelo Santiago. Que bom rapaz, este Santiago, e sua jovem esposa, são dois seres adoráveis, assim como a mãe deles.
Também, acabei com a América do Sul. Só me restam você, Santiago e Itala. Você a conhece? Itala, filha de Carlos Gomes — O Guarani —, muito boa moça.
Enfim, seus rapazes parecem fora de perigo. Arquiteto é uma boa carreira. Sempre se constrói.
Quanto aos Bernardelli, eles ficaram por aí, — apenas para impedir as pessoas de avançar e de ganhar a vida. Pobres criaturas, que não deixarão uma boa lembrança para as gerações futuras. Acho isso triste; mas é preciso dizer que eram muito ignorantes, queriam ser os únicos. Que erro, não se está sozinho, e não se pode avançar na vida sozinho — é preciso ajudar para ser ajudado, e ter amigos que o amarão até mesmo além da sepultura.
Isso é a vida. E não como o pobre Luis, que mesmo após a sua morte fez o mal. Se a sua casa bancária/comercial faliu, foi por causa dele. Enfim, isso fará seus sócios verem que a imoralidade é uma coisa triste — e traz azar a todos ao seu redor.
Afinal, tratemos de ter um fim de vida nobre e feliz.
Adeus, meu caro Visconti, transmita à sua querida esposa todo o meu carinho e as melhores lembranças, assim como à Yvonne.
Lembranças do Sr. Dampt. Ele compreende que você tenha desejos de vir. Mas você encontraria aqui a noite também, com algumas aberturas no tempo — é só.
Com toda a minha afetuosa amizade a todos os seus,
Diana Dampt