
Diana Cid Garcia, nascida na Argentina, foi uma das primeiras artistas latino-americanas de que temos conhecimento expondo com regularidade no Brasil. Ela participou das Exposições Gerais de Belas Artes em 1894, 1895, 1897, 1899, 1902, 1906 e 1914, entre outras. Em 1905 Diana esteve no Brasil para realizar uma exposição no Salão do Grão-Turco, no Rio de Janeiro, trazendo vários quadros. A tela O Cristo e a Adultera, que teria sido bastante elogiada por Jean-PaulLaurens, na França (segundo a Gazeta de Notícias), foi adquirida para a Galeria da Escola Nacional de Belas Artes e seria a mesma tela que Félix Bernardelli denomina de A mulher adúltera, em sua carta a Visconti [CR1906K]. Diana casou-se com o celebrado escultor francês Jean Dampt e passou a residir em Paris, mantendo contato com Visconti, de quem foi vizinha em 1904 no número 17 da Rua Campagne Première, e também com outros artistas do círculo de amizades de Visconti. Manoel Santiago, acompanhado de sua esposa Haydéa, frequentou assiduamente a casa do casal Dampt no período de sua bolsa de estudos em Paris, entre 1928 e 1932.
Nesta carta, Diana Dampt comenta sobre a exposição de Tarsila do Amaral na Galeria Percier, em Paris, em junho de 1926. E faz críticas às obras de Tarsila, ainda pouco conhecida à época, dizendo que ela vendeu um quadro horrível ao Museu de Moscou. Comenta que, enquanto isso, Angelina Agostini não consegue vender seus quadros. E diz que ela, Diana, não faz mais nada de pintura.
Comenta que pretende ir à Espanha no próximo inverno e pede notícias de Yvonne, filha de Visconti, esperando que ela tenha feito grande progresso em pintura. A seguir, a transcrição da carta em francês e português.
Carta de Diana Dampt para Eliseu Visconti (transcrição Ana M. T. Cavalcanti)
Grignon, le 23 Sbre [Septembre 1926]
Mon Cher Visconti. Il parait que nous ne savons plus écrire, ni vous ni moi. Il y a si longtemps que je ne reçois rien de vous, et sûrement, vous vous dites la même chose.
Je suis ici, comme chaque année – depuis deux mois. Nous avons eu si chaud que je pensais à Rio – Hélas ! Rio, que je ne reverrai peut-être plus. Et vous, quand pensez vous revenir ? Si vous apportez une collection de vue du Brésil, vous auriez du succès – même en faisant très bien, car la mode est au mal fait. Une brésilienne nommée Tarcila [sic] – peut être vous connaissez, a fait une exposition, dans le genre moderne. C’est à dire des horreurs [Exposition de Tarsila do Amaral, Galerie Percier, Paris, 07-06 a 23-06-1926]. Ce qui est une vraie signes de temps, c’est qu’elle a vendu un de plus horribles tableaux, au Musée de Moscou.
C’est à vous décourager, on ne sait plus que faire.
Je ne parle de moi, je ne fait plus rien.
Mais, Angeline Agostini, ne trouve pas la vente à ses tableaux.
Alors, je me dis, il vaut mieux faire la cuisine.
Nous rentrerons à Paris dans quinze jours, reprendre notre joug pour supporter l’hiver qu’on dit sera aussi froid que l’été a été chaud.
Ce Printemps, nous avons reçu le roi d’Espagne. Tout s’est passé avec noblesse. Peut être irons nous en Espagne c. à d. [c’est a dire] à Madrid cet hiver.
Ce n’est pas bien sur, mais, moi j’aimerais beaucoup. Ça me changera un peu.
J’espère qu’Yvonne fait de grands progrès en peinture – parles moi un peu d’elle. Ainsi que de votre gentille femme – et de vous enfants.
Je vous envoie à tous mon meilleur et très amical souvenir.
Diana Dampt.
Grignon, 23 de setembro [setembro de 1926]
Meu caro Visconti. Parece que nem você nem eu aprendemos mais a escrever. Faz tanto tempo que não recebo nada seu, e certamente você está pensando o mesmo.
Estou aqui, como todos os anos — há dois meses. Tem feito tanto calor que eu estava pensando no Rio — Ai! Rio, que talvez eu nunca mais veja. E você, quando pretende voltar? Se trouxer uma coleção de paisagens do Brasil, fará sucesso — mesmo que faça um trabalho excelente, porque a moda é o mau trabalho. Uma brasileira chamada Tarcila — talvez você a conheça — fez uma exposição, no estilo moderno. Ou seja, horrores [Exposição de Tarsila do Amaral, Galerie Percier, Paris, 7 a 23 de junho de 1926]. O que é um verdadeiro sinal dos tempos é que ela vendeu uma de suas pinturas mais horríveis para o Museu de Moscou.
É de dar desespero; você não sabe mais o que fazer.
Não estou falando de mim; não estou fazendo mais nada.
Mas Angeline Agostini não consegue encontrar um comprador para seus quadros.
Então, digo a mim mesma, é melhor cozinhar.
Voltaremos a Paris em duas semanas, para retomar nosso jugo e suportar o inverno, que dizem que será tão frio quanto o verão foi quente.
Nesta primavera, recebemos o Rei da Espanha. Tudo correu muito bem. Talvez possamos ir à Espanha, ou seja, a Madri, neste inverno.
Não é certo, mas eu realmente gostaria. Seria uma mudança agradável.
Espero que Yvonne esteja progredindo muito na pintura — conte-me um pouco sobre ela. E sobre sua adorável esposa — e sobre você e seus filhos.
Envio a todos vocês meus mais calorosos e amigáveis cumprimentos.
Diana Dampt.