CR1922 - Carta de Diana Cid Garcia (Diana Dampt) para Eliseu Visconti – 6 de julho de 1922?

  • Tipo de Documento Correspondências - Após 1920
  • Ano 1922
  • Acervo Reprodução do documento no acervo do Projeto Eliseu Visconti

Diana Cid Garcia, nascida na Argentina, foi uma das primeiras artistas latino-americanas de que temos conhecimento expondo com regularidade no Brasil. Ela participou das Exposições Gerais de Belas Artes em 1894, 1895, 1897, 1899, 1902, 1906 e 1914, entre outras. Em 1905 Diana esteve no Brasil para realizar uma exposição no Salão do Grão-Turco, no Rio de Janeiro, trazendo vários quadros. A tela O Cristo e a Adultera, que teria sido bastante elogiada por Jean-PaulLaurens, na França (segundo a Gazeta de Notícias), foi adquirida para a Galeria da Escola Nacional de Belas Artes e seria a mesma tela que Félix Bernardelli denomina de A mulher adúltera, em sua carta a Visconti [CR1906K]. Diana casou-se com o celebrado escultor francês Jean Dampt e passou a residir em Paris, mantendo contato com Visconti, de quem foi vizinha em 1904 no número 17 da Rua Campagne Première, e também com outros artistas do círculo de amizades de Visconti. Manoel Santiago, acompanhado de sua esposa Haydéa, frequentou assiduamente a casa do casal Dampt no período de sua bolsa de estudos em Paris, entre 1928 e 1932.

Nesta carta, estimada com sendo do início dos anos 1920, Diana Cid Garcia (Madame Dampt) tece comentários sobre Jorge de Souza Freitas, proprietário da Galeria Jorge, e pede que Visconti lhe mande notícias de Alberto Nepomuceno e de sua esposa, Walborg Bang. A íntegra da carta transcrita em francês e traduzida em postuguês encontra-se a seguir.

Paris, le 6 juillet [sem ano]

Estimado Sr. Visconti,

Carta De Diana Dampt Para Visconti Em c.1922 - 2
Pag. 2

Je vous ai écrit hier, mais il m’arrive cette lettre do Freitas [Jorge de Souza Freitas, dono da Galeria Jorge], que je trouve si drôle que j’aime à vous demander ce que cela veut dire. Je ne pense pas que ce Mr. croit vraiment qu’il faut avoir des récompenses pour pouvoir vendre là-bas. Si cela est ainsi, vraiment il n’est pas malin car les marchands n’ont pas besoin de cela pour vendre les toiles. Qu’est-ce qu’il lui faut ? Parreiras ? À propos de celui-ci, j’ai oublié de vous dire que j’ai revu sa toile dans la salle où il s’était mis après avoir été dans le couloir, et bien l’ambition est mauvaise conseillère. Si bien il m’avait fait l’illusion, lorsqu’il était dans l’ombre de la galerie, dans la salle éclairée, il se découvre tout à fait. Vraiment c’est du truqué, et rien que du truqué.

Donne moi des nouvelles de Alberto [Alberto Nepomuceno] et de toute la famille, ainsi que de la vôtre. Dites à votre femme de m’écrire, si vous n’avez pas le temps. J’ai écrit à Freitas [Jorge de Souza Freitas] pour lui dire qu’il devrait s’imposer, et dire à ces gens que ce n’est plus de mode les récompenses, et de voir que tel qui a eu toutes les récompenses, n’a aujourd’hui aucune valeur. Tel qui n’a pas eu aucune, se vendent à un million ses tableaux, comme les Millet, les Degas, les Renoirs, les Puvis etc. Tout cela c’est de la bêtise qui est triste à notre époque d’esprits utilitaires.

Carta De Diana Dampt Para Visconti Em c.1922 - 3
Pag. 3

Je suis très occupée, je pars pour la campagne. Encore tous mes bons souvenirs à votre gentille femme et à Yvonne et aux chers petits. Ne m’oubliez pas au près d’Alberto [Alberto Nepomuceno] que malgré son injustice vis à vis de moi, je l’aime toujours bien. Dites à Walborg [Walborg Bang (1871-1936), pianista, mulher de Alberto Nepomuceno] de m’écrire. Nos meilleures amitiés et toujours à vos ordres,

  1. Dampt

 

Paris, 6 de julho [sem ano]

Estimado Sr. Visconti,

Escrevi-lhe ontem, mas recebi esta carta de Freitas [Jorge de Souza Freitas, dono da Galeria Jorge], que achei tão engraçada que quis perguntar-lhe o que significa. Não creio que este senhor realmente acredite que sejam necessários prêmios para vender lá. Se for esse o caso, ele não é muito esperto, porque os marchands não precisam disso para vender seus quadros. De que ele precisa? Prêmios? Falando nele, esqueci de lhe dizer que vi sua pintura novamente na sala onde ele a instalou depois de estar no corredor, e bem, a ambição é uma péssima conselheira. Ele me deu uma ilusão considerável quando estava nas sombras da galeria, mas na sala iluminada, ele se revela completamente. É tudo armado, nada além de armado.

Dê-me notícias de Alberto [Alberto Nepomuceno] e de toda a família, assim como da sua. Diga à sua esposa para me escrever se não tiver tempo. Escrevi a Freitas [Jorge de Souza Freitas] para lhe dizer que ele deveria se impor e dizer a essas pessoas que prêmios não estão mais na moda, e que alguém que antes recebia todos os prêmios agora não vale nada. Enquanto isso, alguém que não recebeu nenhum vende seus quadros por milhões, como os Millets, os Degas, os Renoirs, os Puvis, etc. É tudo uma triste estupidez em nossa época de mentalidade utilitarista.

Estou muito ocupada; estou indo para o campo. Mais uma vez, tudo de bom para sua querida esposa, para Yvonne e para os queridos filhos. Não se esqueça de mim na presença de Alberto [Alberto Nepomuceno]; apesar da injustiça que ele me fez, ainda o amo muito. Diga a Walborg [Walborg Bang (1871-1936), pianista, esposa de Alberto Nepomuceno] para me escrever. Com os nossos melhores cumprimentos e sempre ao seu dispor,

  1. Dampt