CR1920 - Carta de Diana Cid Garcia (Diana Dampt) para Eliseu Visconti – 6 de julho de 1920

  • Tipo de Documento Correspondências - De 1901 a 1920
  • Ano 1920
  • Acervo Reprodução do documento no acervo do Projeto Eliseu Visconti

Diana Cid Garcia, nascida na Argentina, foi uma das primeiras artistas latino-americanas de que temos conhecimento expondo com regularidade no Brasil. Ela participou das Exposições Gerais de Belas Artes em 1894, 1895, 1897, 1899, 1902, 1906 e 1914, entre outras. Em 1905 Diana esteve no Brasil para realizar uma exposição no Salão do Grão-Turco, no Rio de Janeiro, trazendo vários quadros. A tela O Cristo e a Adultera, que teria sido bastante elogiada por Jean-PaulLaurens, na França (segundo a Gazeta de Notícias), foi adquirida para a Galeria da Escola Nacional de Belas Artes e seria a mesma tela que Félix Bernardelli denomina de A mulher adúltera, em sua carta a Visconti [CR1906K]. Diana casou-se com o celebrado escultor francês Jean Dampt e passou a residir em Paris, mantendo contato com Visconti, de quem foi vizinha em 1904 no número 17 da Rua Campagne Première, e também com outros artistas do círculo de amizades de Visconti. Manoel Santiago, acompanhado de sua esposa Haydéa, frequentou assiduamente a casa do casal Dampt no período de sua bolsa de estudos em Paris, entre 1928 e 1932.

Diana indica a data de 6 de julho nesta carta, sem mencionar o ano. Mas é possível deduzir que a carta foi escrita em 1920 com base em dois fatos concomitantes: o retorno definitivo de Eliseu Visconti ao Brasil no vapor Samara, em 30 de junho de 1920, e o pedido de notícias sobre Alberto Nepomuceno, encaminhado ao pintor recém-chegado ao Rio de Janeiro. Nepomuceno faleceria poucos meses depois, em 16 de outubro daquele mesmo ano.

Nesta carta,  além de pedir notícias de Alberto Nepomuceno e de sua esposa, Walborg Bang, Diana Cid Garcia (Madame Dampt) tece comentários sobre Jorge de Souza Freitas, proprietário da Galeria Jorge.  A íntegra da carta transcrita em francês e traduzida em português encontra-se a seguir.

Paris, le 6 juillet [1920]

Estimado Sr. Visconti,

Carta De Diana Dampt Para Visconti Em c.1922 - 2
Pag. 2

Je vous ai écrit hier, mais il m’arrive cette lettre do Freitas [Jorge de Souza Freitas, dono da Galeria Jorge], que je trouve si drôle que j’aime à vous demander ce que cela veut dire. Je ne pense pas que ce Mr. croit vraiment qu’il faut avoir des récompenses pour pouvoir vendre là-bas. Si cela est ainsi, vraiment il n’est pas malin car les marchands n’ont pas besoin de cela pour vendre les toiles. Qu’est-ce qu’il lui faut ? Parreiras ? À propos de celui-ci, j’ai oublié de vous dire que j’ai revu sa toile dans la salle où il s’était mis après avoir été dans le couloir, et bien l’ambition est mauvaise conseillère. Si bien il m’avait fait l’illusion, lorsqu’il était dans l’ombre de la galerie, dans la salle éclairée, il se découvre tout à fait. Vraiment c’est du truqué, et rien que du truqué.

Donne moi des nouvelles de Alberto [Alberto Nepomuceno] et de toute la famille, ainsi que de la vôtre. Dites à votre femme de m’écrire, si vous n’avez pas le temps. J’ai écrit à Freitas [Jorge de Souza Freitas] pour lui dire qu’il devrait s’imposer, et dire à ces gens que ce n’est plus de mode les récompenses, et de voir que tel qui a eu toutes les récompenses, n’a aujourd’hui aucune valeur. Tel qui n’a pas eu aucune, se vendent à un million ses tableaux, comme les Millet, les Degas, les Renoirs, les Puvis etc. Tout cela c’est de la bêtise qui est triste à notre époque d’esprits utilitaires.

Carta De Diana Dampt Para Visconti Em c.1922 - 3
Pag. 3

Je suis très occupée, je pars pour la campagne. Encore tous mes bons souvenirs à votre gentille femme et à Yvonne et aux chers petits. Ne m’oubliez pas au près d’Alberto [Alberto Nepomuceno] que malgré son injustice vis à vis de moi, je l’aime toujours bien. Dites à Walborg [Walborg Bang (1871-1936), pianista, mulher de Alberto Nepomuceno] de m’écrire. Nos meilleures amitiés et toujours à vos ordres,

  1. D.  Dampt

 

Paris, 6 de julho [1920]

Estimado Sr. Visconti,

Escrevi-lhe ontem, mas recebi esta carta do Freitas [Jorge de Souza Freitas, dono da Galeria Jorge], que achei tão engraçada que quis perguntar-lhe o que significa. Não creio que este senhor realmente acredite que sejam necessários prêmios para vender aí. Se for esse o caso, ele não é muito esperto, porque os marchands não precisam disso para vender seus quadros. Do que ele precisa? Parreiras? Falando nele, esqueci de lhe dizer que vi seu quadro novamente na sala onde ele o instalou depois de estar no corredor, e bem, a ambição é má conselheira. Embora me tivesse iludido na penumbra da galeria, na sala bem iluminada, ele se revela inteiramente. Realmente é só truque, e nada além de truque.

Dê-me notícias de Alberto [Alberto Nepomuceno] e de toda a família, assim como da sua. Diga à sua esposa para me escrever se você não tiver tempo. Escrevi a Freitas [Jorge de Souza Freitas] para lhe dizer que ele deveria se impor e dizer a essas pessoas que prêmios não estão mais na moda, e que alguém que antes recebia todos os prêmios agora não vale nada. Enquanto isso, alguém que não recebeu nenhum vende seus quadros por milhões, como os Millets, os Degas, os Renoirs, os Puvis, etc. Tudo isso é uma bobagem, o que é triste nesta nossa época de mentes utilitárias.

Estou muito ocupada; estou indo para o campo. Mais uma vez, minhas afetuosas lembranças à sua gentil esposa, à Yvonne e aos queridos pequeninos. Dê lembranças minhas ao Alberto [Alberto Nepomuceno]; apesar da injustiça dele comigo, ainda gosto muito dele. Diga à Walborg [Walborg Bang (1871-1936), pianista, esposa de Alberto Nepomuceno] para me escrever. Nossas melhores lembranças e sempre às suas ordens,

D. Dampt