CR1921B - Carta de Marques Júnior a Eliseu Visconti, enviada de Paris – 9 de dezembro de 1921

  • Tipo de Documento Correspondências - Após 1920
  • Ano 1921
  • Acervo Museu Nacional de Belas Artes - Rio de Janeiro

Pags. 2 e 3Após concluir o período da bolsa referente ao prêmio de viagem ao exterior, Marques Júnior envia de Paris esta última carta a Eliseu Visconti antes de voltar ao Brasil. Tendo viajado em 1917, Marques Júnior conviveu na capital francesa durante três anos  com Visconti, que permaneceu em Paris até 1920 após concluir as pinturas do teto do foyer do Theatro Municipal. A amizade entre ambos vinha dos tempos da Escola Nacional de Belas Artes, onde Marques Júnior foi aluno de Visconti. Em fotos guardadas pela família de Visconti, a presença de Marques Júnior em diversas situações atesta a grande amizade entre os dois artistas.

Marques Júnior com a família de Visconti, em Teresópolis - c.1937
Marques Júnior com a família de Visconti, em Teresópolis – c.1937

A carta mostra que Visconti apreciou as tintas que utilizou na França, pois solicita ao amigo que traga material para si e para Louise e Yvonne, esposa e filha que também já pintavam. E Marques Júnior demonstra sua convicção de que permanecer em Paris não está em seus planos, pretendendo lutar para vencer no Brasil.
Ao voltar para o Rio, Marques Júnior dedicou-se com muito sucesso ao magistério, atuando também como expositor e membro de instituições como a Sociedade Brasileira de Belas Artes e o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Em texto elaborado em 1950 tendo em vista o provimento da cátedra de Modelo-Vivo da Escola Nacional de Belas Artes, Marques Júnior homenageia a memória de Eliseu Visconti e de João Batista da Costa.
A transcrição da íntegra desta carta está a seguir.

Pag. 4Paris 9 de dezembro 1921
Meu caro Professor e amigo

Acabo de receber a sua carta registrada com o cheque de 200 francos e as encomendas. Irei hoje mesmo ver o que me pede e com todo o prazer procurei acertar nas encomendas de sua Sra. e filha. Levarei as tintas e óleos segundo me diz na sua carta. Passarei antes de partir na revista “L’Amour de l’Art” e protestarei contra a irregularidade das remessas. Quanto aos seus objetos tomarei as providências que me diz: O Cavalleiro os guardará.
Estou pronto para partir como já disse em carta anterior, partirei daqui no dia 21 de dezembro (salvo atraso muito provável do navio do Lloyd Brasileiro “Poconé”).
Estou certo porém que antes do dia 25 ainda estarei em Paris. O Sr. diz-me desejar que a minha permanência aqui se prolongasse por mais algum tempo. Eu também teria este desejo caso as circunstâncias atuais da minha vida o permitissem. Enfim, o difícil é vir a primeira vez. Depois compreende-se, isto é, aprende-se o caminho e vem-se então outra vez. Eu porém tenho uma frase que a repito aos rapazes aqui “o difícil não é vir a Paris, é sair de Paris!” E eu como tenho visto tantos exemplos de rapazes que afundaram, se afogam em Paris, porque eu, nem eles sabemos, tenho Pag. 5medo, confesso, do Paris da aventura, da luta. É talvez uma pusilanimidade. Porém a coragem que tenho para lutar na minha terra é tão grande quanto o pavor de tentar sequer lutar em terra alheia, onde o egoísmo impera soberano e inexorável.
Se não tenho 20 anos, não sou entretanto velho, graças a Deus tenho saúde e vou lutar.
Portanto, penso estar no Rio por todo o mês de janeiro, salvo imprevisto. Chegarei em pleno calor, quando aqui tem feito ultimamente muito frio.
Os rapazes vão bem. O Pureni? manda muitas lembranças como também o Cavalleiro e o Paraná. O Nelson, quando o Sr. receber esta já aí estará e então contará que a vida aqui é a mesma: Cara e difícil. Porém comparando com a época de guerra em que passamos aqui, é hoje um paraíso.
O Salão de Outono continua aberto, como sempre interessante.
E creio que esta carta já vai longa. O resto contarei quando aí chegar.
Creio fazer uma boa viagem, pois os navios do Lloyd Brasileiro são muito bons. Dizem que o passadio a bordo é excelente.
Pags. 6 e 7Estou lhe escrevendo de um restaurante perto da gare de Lyon, onde vou tomar um trem para despedir-me de Madame Costa e família. Há 4 anos o nosso pobre Costa estava morto e enterrado nesta mesma Villeneuve de St. George!
Estou muito contente de ver o meu bom tio e estou certo que o seu contentamento será enorme. É o meu único parente e é um verdadeiro amigo. Se eu não tenho família, enfim tenho bons amigos. D’entre eles, eu tenho a honra de ter a sua amizade, meu caro Professor e amigo de quem sou muito obrigado, discípulo e amigo

Pag. 8Marques Júnior
É esta a última vez que lhe escrevo.
Até breve.
Recomendações a Sua Exma. Família
M. J.

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