CR1907E - Carta de Eliseu Visconti a Francisco Oliveira Passos após o encerramento da exposição dos trabalhos do Theatro, realizada em seu atelier de Paris, rebatendo as críticas que recebeu o pano de boca – 9 de agosto de 1907

  • Tipo de Documento Correspondências - De 1901 a 1920
  • Ano 1907
  • Acervo Centro de Documentação da Fundação Teatro Municipal do Rio de Janeiro

Após a exposição das decorações do Theatro Municipal em Paris, Visconti recebe com satisfação os elogios da crítica francesa. Mas antes de embarcar para o Brasil com seus trabalhos, sabe que sua obra sofreu pesadas críticas publicadas na imprensa do Rio de Janeiro, estimuladas por alguns brasileiros residentes em Paris, insatisfeitos com o que haviam visto no pano de boca: três figuras de negros participando da massa de populares que exaltam o grande cortejo histórico.
Em 6 de agosto de 1907, o Jornal do Commercio publicou:
“Membros da colônia brasileira dirigiram-se ao Senhor Conselheiro Rui Barbosa, pedindo-lhe que interviesse junto ao Sr. Presidente da República, para que fosse evitado o acabamento do Pano de Boca do Theatro Municipal, em que o pintor Visconti representava o Brasil artístico na pessoa de Sua Majestade, finado Sr. D. Pedro II, boquiaberto ante o Maestro Carlos Gomes e rodeado de pessoas na mesma atitude, entre as quais uma preta mina, com tabuleiro cheio de bananas, além de outros atributos ridículos ou deprimentes.”
Visconti então encaminha esta carta a Oliveira Passos:

Paris, 9-8-907

Illmo. Sr. Dr. Francisco de Oliveira Passos. Engenheiro Chefe da construção do Teatro Municipal do Rio.

Tenho o prazer de cumprimentá-lo.
No dia 7 do corrente recebi um telegrama nos seguintes termos:
“Causa má impressão inclusão Imperador e mais pessoas populares pano Teatro”
A minha exposição encerrou-se aqui em Paris no dia 28 do passado ela foi visitada por centenares [sic] de brasileiros de todos os partidos e não me consta até esta data a menor antipatia pela figura do ex-Imperador do Brasil, pelo contrário!
A figura de D. Pedro 2o. não podia passar desapercebida no cortejo histórico-artístico que me propus de desenvolver; que tenho eu com as intrigas políticas? A minha bandeira é a da arte e só ela respeito! Porém isto de palavra em nada adianta, e estou certo que quando verem a tela, essa má impressão ficará dissipada.
Nada intento a respeito das ambas figuras populares a não ser um vivo … é muito justo que desagrade aos frutos secos, é deixá-los falar.
Ontem 8 recebi um segundo telegrama do seguinte teor:
“Mande urgente fotografia tamanho grande pano Teatro”
Como lhe disse nas minhas anteriores, o pano de boca foi preciso fotografá-lo em várias vezes, porém ainda não foi possível reunir esses fragmentos.
É necessário ainda algum tempo, quero dizer dias, e nesse caso é mais conveniente que seja eu mesmo o portador em fins de setembro próximo.
Compreendo o desejo que o Sr. tem em querer ver o trabalho por isso peço-lhe um pouco de paciência dois meses passam depressa.
O Plafond a Frisa e os dois triângulos estão igualmente fotografados.
O arquiteto da cidade de Paris o Sr. Bouvard honrou-me com sua presença e manifestou o desejo para que a colorante interna do teatro seja de acordo com as minhas decorações que julga produzirão bom efeito.
Sou com estima Amigo obrigado.

E. Visconti