CR1895C - Carta de Rodolpho Bernardelli a Eliseu Visconti – 1 de novembro de 1895

  • Tipo de Documento Correspondências - Até 1900
  • Ano 1895
  • Acervo Museu Nacional de Belas Artes - Rio de Janeiro

 

Páginas 2 e 3
Páginas 2 e 3

Esta é a quarta carta da série encaminhada por Rodolpho Bernardelli a Eliseu Visconti, quando este se encontrava em Paris como aluno-bolsista da Escola Nacional de Belas Artes. Bernardelli estimula Visconti a prosseguir na sua cópia da obra de Velasquez [P982]  “Rendição de Breda”, cópia que Visconti executava no Museu do Prado. Queixa-se de que outros pensionistas não escrevem para ele e comenta sobre sua recondução para o cargo de Diretor da Escola Nacional de Belas Artes.
A pesquisadora e historiadora Ana Maria Tavares Cavalcanti é autora do texto intitulado “Impressões sobre o meio artístico nacional nas cartas de Rodolpho Bernardelli, Diretor da ENBA, a Eliseu Visconti, pensionista em Paris”, integrante da publicação “Histórias da Escola de Belas Artes – Revisão Crítica de Sua Trajetória”, Editora Nau, 2017. Entende a historiadora que a análise dessas cartas tem muito o que acrescentar ao conhecimento sobre o meio artístico brasileiro do final do século XIX.

Rio 1 de Novo 95
Amigo Visconti
Com a presente respondo a sua carta de 7 p. p. ainda em Madrid, e pelo que diz, bem contrariado por não ter concluido sua valiosa copia de Velasquez, verá com o tempo como olhara para esse seu (massante) trabalho com saudades, eu pelo menos quando olho para as minhas copias me lembro de tantas cousas agradaveis, estou certo que sempre terá feito alguma pochade, e deve ter na España muita cousa interessante. Dirijo esta para Paris porque segundo o que me escreveu para ali voltava por essa epocha.
Ora agora vera Paris debaixo de outro ponto de vista e apesar de seus bellos Boulres[Boulevares], passeios e monumtos não tem o sabor artistico que tem a Hespanha e a Italia.
Em Roma está uma soffrivel colonia brasileira, esperemos que honrem o paiz e que vivam em paz. Do Frederico nunca recebi officio algum!… do Bento Barboza recebi participação que tinha chegado. O concurso está em curso, o Vianna e o Fiuza são os únicos, esperemos que se sahiam bem, tenciono mandar este pensionista para Munich, os dous primeiros annos pelo menos.
Antes que me esqueça participo-lhe que no Conselho dos professores havido em 24 p.p. tendo que se eleger o novo Director por unnanimidade fui reconfirmado para continuar no lugar; isto que é uma prova da confiança da qual sou muito lisongeado, para mim é de um grande prejuizo, e para
meus affazeres, não quiseram attender a tudo quanto expuz, e entenderam que se eu deixa-se, o Governo não faria as mudanças e reformas que são necessarias para completar o desenvolvimento artistico.
Mas veja que fatalidade eu que preciso mais do que ninguem da minha independencia para poder entregar-me unicamente aos meus trabalhos sou o mais prejudicado! para me substituir estavão em condições o Amoedo e meu irmão, este nada quer saber de amollações, e infelismente o Amoedo não poude grangear as sympathias do publico que se occupa de artes. Na vespera da eleição um critico (novo) de bellas artes no jornal, escreveu que entendia que a Directoria da Escola devia ser feita por nomeação directa do Ministro [desenho de um rosto] que muitos artistas estavam divorciados da actual Directoria, que os alumnos da escola erão cada anno em menor numero enfim uma sucia de sandices que insuflaram ao novel critico, que era boticario e passou (por nossa infelicidade) a ser critico.
Eu que odeio ver os artistas em polemicas pelos jornaes tive que abrir um parenthesis e lhe escrevi uma carta, na qual lhe provava que : os alunos da Escola são hoje em numero de 100 e que na Antiga Acaa[Academia] em 1886 erão ao todo 38 -!….. que faltava a verdade quando dizia que muitos artistas estavão divorciados da Escola…….. e depois de dizer muita cousa, conclui dizendo = lhe mais ou menos o seguinte:
Pois sinto dever dizer vos Sr Redator que fostes apaixonadate informado; não consta que tenha havido declarações = francas = de especie alguma, feitas por artistas, nem contra a Directoria, nem contra o ensino; pelo Contrario!
Existem Descontentes? e é natural; mas se verdadeiramente esses seus conhecidos são artistas, tem vocação de artistas, não são especuladores de arte, porque não mostrão o que fazem? que fação exposições, que sejão mais patriotas, pois o publico tera tudo a ganhar. – No campo livre da arte só o trabalho tem razão: os que recusam de medir-se com seus collegas, envolvendo-se n’uma capa hipocrita de victima ou de philosopho, nunca serão considerados como artistas pela historia e não passarão de orgulhosas nullidades.

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