CR1895B - Carta de Rodolpho Bernardelli a Eliseu Visconti – 08 de setembro de 1895

  • Tipo de Documento Correspondências - Até 1900
  • Ano 1895
  • Acervo Museu Nacional de Belas Artes - Rio de Janeiro

Esta é a quarta carta da série encaminhada por Rodolpho Bernardelli a Eliseu Visconti, quando este se encontrava em Paris como aluno-bolsista da Escola Nacional de Belas Artes. Dentre diversos assuntos relativos a exposições no Brasil e a amigos comuns, Bernardelli comenta sobre a cópia da tela de Velasquez “A Rendição de Breda”, em execução por Visconti no Museu do Prado, e pressagia o sucesso da obra. A pesquisadora e historiadora Ana Maria Tavares Cavalcanti é autora do texto intitulado “Impressões sobre o meio artístico nacional nas cartas de Rodolpho Bernardelli, Diretor da ENBA, a Eliseu Visconti, pensionista em Paris”, integrante da publicação “Histórias da Escola de Belas Artes – Revisão Crítica de Sua Trajetória”, Editora Nau, 2017. Entende a historiadora que a análise dessas cartas tem muito o que acrescentar ao conhecimento sobre o meio artístico brasileiro do final do século XIX.
A carta original tem sete páginas manuscritas, das quais encontram-se aqui reproduzidas as páginas 1 e 3. A íntegra da carta está transcrita a seguir.

 

Rio 8 de setembro 95
Amigo Visconti,
Tenho presente sua carta de 18 de agosto p.p. e por ella vejo que o calor abrasador é o que mais o importuna, espero porem que tenha continuado sem novidade respeito a saude e boa disposição de espirito.
Certo o trabo que emprehendeu não é para brincar e imagino que deve estar trabalhando como negro (depois de fôrro) mais não perca coragem, e va indo se precisar de alguma coisa respeito a seu atelier eu ponho a sua disposição o que fôr necessario e vou escrever ao Prince et Detivaud. Creio que durante o Inverno será mesmo prudente que não fique em Madrid porque tenho noticia que ali é ninho das p[n]eumonias. Se não tiver acabado veja o meio de guardar o trabalho para voltar, comprendo bem que isso é caceteação e faltar lhe ha o tempo, mas que fazer, é preciso achar um meio, espero porem que sempre o podera concluir esse trabalho que será um successo. Se estes senhores deputados tivessem já me decidido agora em vez de mandar lhe este pedaço de papel me apresentaria ahi a fazer lhe uma surpresa, mas qual os deputados estão pensando n’outra cousa e quem sabe se elles decidiram desta vez esse negocio. O Ângelo parte para Paris agora e só demorara uns 15 dias, elle vae fazer compras para o seu jornal (D.Quixote) que está indo de vento em poupa. Eu estou concluindo certas cousas e fazendo esbocettos para outros trabalhos, já conclui um projecto de um monumento para Floriano que deverá ser levantado em Manaos – Amazonas, vou fazer outro para o Almirante Barroso, assim terei feito uma quantidade de progectos sem poder dizer que realmente tenho as encomendas porque sem que me adeantem dinho nada posso fazer. Enfim esperemos que tudo se decida com rapidez que é para que possa partir. Em Novº deixarei a Direcção da Escola, e espero que o meu successor sahia-se melhor…….
Recebi noticias (pelo Zefirino) do Frederico parece que já perdeu uma menina não saberei dizer qual porque o Zefirino da me a noticia com laconismo, o Bento finalte participou me sua chegada.
Passemos a fallar lhe da Exposição em primeiro lugar participo lhe que por telegramma o ministro mandou ordem para que a Delegacia do Thesouro em Londres ponha a disposição do Mtro em Paris a quantia de 800 frs para a despesas a fazer com encaixotamentos e expedição dos trabos elles porem chegarão depois de aberta a Exposição. Como verá pelo Catalogo que meu irmão lhe enviou nossa exposição não é muito menor do que o anno passado, e se tivessem vindo os seus trabos os do Fredo e do Felix teriamos tido maior numero do que o anno passado. O dia da abertura foi feito com as presenças do Presidente da R.a e Vice Pe e Ministros, e generaes e deputados e senadores mas cahia tanta chuva que os convidados ficaram com medo, e o publico foi pouco numeroso, o Presidente demorou-se durante 3 horas. Como continuase o mau tempo a concurrencia foi pouca, hoje e hontem porem que os dias estavão bons encheu-se a botar fora, e o publico mostra-se satisfeito, quanto a compras muito poucas, isso dependerá da falta de dinho? não, isso depende da falta de amadores, os que ha são sempre os mesmos e estes querem fazer collecção de nomes e não de quadros. Enfim resta as compras da Escola: por ora o Cosme ainda não começou das suas descomposturas elle espera que os outros tenhão escripto para sobre isso fazer sua obra.
Coitado. Já esta haberta a inscripção do Concurso de Viagem, só se poderão bater o Vianna (que veis chamarão botija) e o Fiúza. Veremos que vencerá; o Baptista casou-se com uma Berna e está bem doente parece até que é negocio de peito, sentiria bastante que elle não fica-se bom, porque e rapaz trabalhador e bom. O Castagneto e Parreiras estão cultivando S. Paulo os dois vendem e tem encomendas. O Grupo de Positivistas continua na mesma, nada se vê de trabº palavras palavras e palavras.
Com que está gostando dos Touros? e muito interessante eu vi-os no México com certeza ali deve ser muito caracteristico veja se pode ver umas pousadas onde toccam e cantam e dançam – tome cuidado com os gatunos.
Há dias recebi uma carta do Prof. Luiz Alvarez que é ali vice director dos Museus e não sei onde diabo puz a carta por isso e que ainda não lhe escrevi. O Palmaroli conheci-o quando estava em Roma mas com certeza ele não se lembra de mim.
Por aqui a não ser a nossa pequena Exposição não há nada de novo. Fez a Paz no R. Grande e parece tudo andar muito bem, mas anda se desconfiado. Os Theatros estão cada dia peor agora como se falla em crear um Theatro nacional municipal, sahiram para fora os alcaides drammaticos, Ismenia fazendo de Morgadinha de ValFlor…..
O Alberto deu seu concerto no dia 4 de agosto e teve muito successo foi morar em Petropis com a família e por isso nunca nos vemos e estamos peor do que quando elle estava na Europa porque então escreviamos-nos e agora nada, sei que a Senhora teve já um aborto [desenho de uma carinha assustada].
Do Felix tive noticias, esteve doente de bronchites, mas já estava bom, e seus trabalhos só agora è que sahiram de lá para cá quem sabe quando estarão aqui: de minha velha sei que tem andado doente, mas cousa de senhoras velhas e velho, é como criança aqui um dia bom e outro mal esperemos porem que ella ainda possa voltar a Europa e com a tropa toda desta vez, se eu obtiver o que espero elles virão e o amigo terá sempre uma casa e amigos a sua disposição.
Já pensou no seu quadro?
Não se descuide pense em cousa que faça muita impressão pois é o que o collocará sobre seu pedestal. A Respeito de seu modo de pensar na decoração do Escurial é verdade mas n’esse tempo o que se queria era fazer arte, se visse as Egrejas em Roma veria o mesmo e o povo habitua-se e não se distrahe.
Nunca se desfaça de sua caxinha de pôchades e quando puder zaz, arrume ainda que seja dois borrões, verá como será agradavel ao depois que as ver no Atelier; Enfim esperemos que eu possa estar lá para hirmos fazer nossas escursões artísticas.
O nosso amo Dario me escreveo que tinha estado em Paris e que essa visita lhe tinha feito querer mais a sua Londres, o homem esta mesmo num beaf[?] completo e eu estimo porque nunca mais elle se achara perdido.
Vou concluir por hoje, tenha coragem e não desanime e disponha de mim e vá colhendo dados para sua bella posição.
Até breve, receba um apertado abraço deste seu amigo e
collega
Rod. Bernardelli

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