CR1893A - Carta da Baronesa de Guararema a Eliseu Visconti – 8 de maio de 1893

  • Tipo de Documento Correspondências - Até 1900
  • Ano 1893
  • Acervo Projeto Eliseu Visconti

Assim que desembarca em Paris para iniciar o cumprimento de suas tarefas relacionadas ao premio de viagem, Visconti escreve à sua protetora, a baronesa de Guararema, ainda excitado com a viagem e maravilhado com as belezas da cidade, mas com saudades do Brasil e de todos que deixara. A baronesa responde a Visconti com uma carta de cinco páginas, premonitória do êxito que Visconti teria na carreira de artista. Falecida em 1898, a baronesa não presenciaria a glória que sua sensibilidade pressagiou para Visconti. Tampouco veria novamente Eliseu, que retornaria ao Brasil somente em 1900. Imagens da primeira e da última página da carta estão aqui reproduzidas e a íntegra da carta está transcrita abaixo.

CARTA DA BARONESA DE GUARAREMA A VISCONTI - ÚLTIMA PÁGINA - 1893

Bom Elizeo
Recebi tuas cartas, uma dactada de Março, e outra de 10 de Abril, na primeira dizias-me que tinhas feito feliz viagem e que te tinhas maravilhado com as bellezas que Paris encerra, é verdade, porem immagino tambem as pungentes saudades deste torrão que é para vocé a tua 2ª Patria, e onde deixastes teus Irmãos e pessoas que te querem, eu por mim tenho sentido muitas saudades tuas, e tão habituada estava, que quando precizo de qualquer couza, logo me vem em mente que aquelle que sabia fazer tudo segundo a ma [minha] vontade está bem longe, eu continuo a passar mal, ainda não pude descobrir uma casa em [?] estou ainda em Paquetá, porem a falta dos ouvidos continua sempre só agora que as medicas declararão que tudo motivado pelo coração um pouco epetrophiado por cauza da maldita ashma. Titia hontem chegou da Fazenda um pouco adoentada, porem felismente nada é, Afonso esteve aqui hontem elle está bem, e o mesmo acontece as tuas Irmãs pelas quaes perguntei. Edea não se esquece de voce outro dia vindo eu de Paquetá mostrei a ella o mar e disse-lhe olhe minha filha é lá ao longe que foi Elizeo, então ella respondeu-me: Dindinha nos tambem vamos lá? Eu disse-lhe não minha filha esperamos elle aqui, não Dindinha eu queria ver elle, coitadinha como se pudesse ir a Paris pelo thelegrapho. Quando você receber esta immagino como não ficaras contente, pois verás uma pessoa a quem estimas, e que já não te considerarás tão só n’essa Babilonia, é Mlle Malhill de que será a portadora, a quem pedi pa ir em pessoa entregar-te esta carta, mesmo para proporcionar-te uma agradavel sorpreza. Dr Parente, Lilica estão bons, e elles pedirão me pa te enviar saudades, outro [?] faz titia, Mme, e Edea que te envia um abraço e um beijo. Recebi os modellos pa o bordado 2 estão mto a meu gosto pois são próprios pa Igreja, esquecestes de minhas sementes de Flores, e sementes de mimosas. É de esperar que ao receberes esta estejas de todo restabelecido da tua constipação, e que cheio de vida e corajoso como és, terás já enprehendido a tua nobre missão, esquecendo no trabalho as saudades, lembrando te do futuro brilhante que te abre as azas pa conduzir te a gloria de artista notavel; eu Elizeo se chegasse a ver isto teria immenso prazer, prazer este que só se pode comparar com o que ha de experimentar tua propria mãe, enfim, esta já vae longa por isso termino, dezejando do intimo d’alma a continuação de tua saude, pa prehencheres o teu nobre dever. Adeus pois Elizeo acceita saudades de todos d’aqui, assim como mas, e creia na estima verdadeira d’esta que é muito sua amiga.
Baroneza de Guararema
Rio 8 de maio
de 1893.
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