Theatro Municipal – Foyer

Inaugurado o Theatro Municipal em 14 de julho de 1909, somente ao final de 1912 é aberto concurso para as decorações internas do foyer. Concorrem Eliseu Visconti e Rodolpho Amoedo, este com três estudos hoje pertencentes ao Museu Nacional de Belas Artes. Visconti apresenta um estudo a óleo (acervo do Centro de Documentação da Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e é selecionado dada a superioridade da concepção do conjunto. [1]

VISCONTI NO ATELIER DA RUE DIDOT, COM OS PAINÉIS DO FOYER E AS PINTURAS DESAPARECIDAS QUE SERIAM PARA AS ARCADAS DA SALA DE ESPETÁCULOS - PARIS - 1915
Visconti no atelier da Rue Didot, com os painéis do foyer e as pinturas desaparecidas (ao alto e à direita) que seriam para as arcadas da sala de espetáculos do Theatro – 1915
SALA DE ESPETÁCULOS ORIGINAL DO THEATRO - AS ARCADAS JUNTO AO TETO FORAM SUPRIMIDAS NA REFORMA DE 1934
Foto da sala de espetáculos original do Theatro, onde se vê as arcadas que seriam suprimidas na reforma de 1934

Em carta de 13 de fevereiro de 1913, o engenheiro Francisco Oliveira Passos, Diretor Geral do Theatro Municipal, comunica a Visconti que o prefeito Bento Ribeiro aceitara a proposta do artista para a execução das decorações do teto, tímpanos e medalhões sobre as portas, todas no foyer, e também da decoração da arcada da sala de espetáculos. Essa carta, do arquivo do Museu Nacional de Belas Artes, se por um lado deixa uma incerteza sobre o que seria essa decoração da arcada da sala de espetáculos, por outro fornece uma pista para identificar alguns painéis não reconhecidos, que aparecem em foto de Visconti, na qual o artista está sentado frente aos trabalhos do foyer. Presume-se que esses painéis decorariam as arcadas junto ao teto do Theatro, situadas em plano equivalente ao da atual galeria. Na grande reforma de 1934, as arcadas foram suprimidas para aumentar a capacidade da sala de espetáculos e os painéis de Visconti teriam sido destruídos.

Mais uma vez, face às dificuldades de conseguir local de dimensões compatíveis, mas principalmente pela falta de modelos profissionais, parte Visconti para Paris em 3 de junho de 1913, onde aluga um terreno na Rua Didot, nº 102, e constrói um barracão que será utilizado como atelier.

FOYER DO THEATRO MUNICIPAL COM OS PAINÉIS PINTADOS POR VISCONTI
Foyer do Theatro Municipal, vendo-se o painel central “A Música” e o painel lateral “A Arte Lírica”.

A decoração do foyer seria composta por um grande painel central medindo 16 m x 7 m, representando A Música, e por dois painéis laterais, menores, com aproximadamente 6 m x 4 m cada, simbolizando A Arte Lírica (Inspiração Musical) e O Drama (Inspiração Poética). Os motivos dos painéis se complementam, evoluindo em irresistível e melodiosa atmosfera. A fluidez da luz é completa e a impressão do conjunto é de uma grande doçura.

No painel central, “Visconti usou vários estilos e procedimentos artísticos – o pontilhismo ou divisionismo, o art-nouveau e, sobretudo, o simbolismo, frutos de sua formação no Brasil e na França – para compor uma sinfonia de cores e formas em que vários nus femininos se movimentam num ritmo ondulante”.[2]

A predominância desse nu esvoaçante não se vê só em teatros, nem nesses exemplos de trabalho de Visconti. Nessas obras do pintor, todavia, ela se coaduna com a própria expressividade musical e rítmica, com os contornos e curvaturas elegantes e as vibrações das sonoridades, em plena época de Debussy e do impressionismo. A técnica do artista nessas obras, no geral divisionista e com o uso de roxos, azuis, rosas ou avermelhados suaves, culmina na obra prima que é o teto do foyer… O seu preparo, a sua adequação para a tarefa que executou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro fez do interior do edifício um centro artístico vital do primeiro terço do século XX brasileiro, continuando como foco de permanente beleza e autêntica sensibilidade, elaborado no País, com alta qualidade e surpreendente vibração, quase sem igual entre nós.[3]

Valéria Ochoa Oliveira se propôs a investigar a identificação das figuras que compõem o grande painel central do foyer e a sua simbologia, buscando uma ligação da pintura com o momento cultural do fin-de-siécle. Encontrando na obra de Visconti elementos da mitologia greco-romana, com procedimentos e estilos de arte moderna, norteia o desenvolvimento de sua investigação na convicção de que as figuras representadas no painel central A Música referem-se às nove Musas, às Três Graças e a Apolo, identificadas nas figuras de maior tamanho que dominam a composição.

A busca de sentido pessoal de Visconti, às vésperas da Primeira Grande Guerra, num mundo em crise, se realizava através da arte, “a grande Consoladora” (como Visconti denominou a arte em carta a Francisco Oliveira Passos). O painel com suas Musas, as Três Graças e Apolo – onde a figura central é a musa Polímnia, tocando uma enorme lira e com grandes asas abertas, que remetem aos anjos ou aos pássaros – expressa a simbologia que o artista pretendia: o símbolo das asas é o mais apropriado para representar o desejo de transcendência, a capacidade de voar pelo universo, de libertar-se das amarras e encontrar sentido num mundo idealizado, acima das dificuldades e dores terrenas. O painel foi a forma encontrada pelo artista para trazer este sentido a si próprio e aos visitantes do Teatro Municipal: edifício suntuoso, erguido durante as reformas urbanas de Pereira Passos – época de grandes contradições político- sociais – e um dos signos da modernidade no Rio de Janeiro.[4]

José Roberto Teixeira Leite considera o foyer uma obra prima da pintura decorativista em nosso País e julga-a merecedora dos elogios de Frederico Barata:

Verdadeira música de cores, de tons harmoniosos, impecável desenho e elegante linha de composição, revela tal segurança e maestria na fatura, sem uma hesitação, com uma sensibilidade tão inspirada e comunicativa, que pode, sem exagero, ser comparada ao que de melhor no gênero tenha sido produzido no mundo contemporâneo.[5]

VISCONTI EM PARIS COM O PAINEL "O DRAMA" - 1915
Visconti em Paris com o painel “O Drama” – 1915

Os trabalhos para o foyer foram embarcados para o Brasil em dezembro de 1915. Certamente a extrema ansiedade por ter deixado a família em Paris para cumprir uma obrigação contratual, atravessando o Atlântico em meio a uma guerra, Visconti combateu na certeza de que transportava seu momento de inspiração máxima. No dia 18 de março de 1916, Visconti concluiu a colocação dos trabalhos no Theatro, e em 5 de abril do mesmo ano, partiu novamente para Paris.

A reforma empreendida no Theatro Municipal do Rio de Janeiro para comemoração do seu centenário, em 2009, incluiu a recuperação de todas as obras de arte. Dentre os trabalhos realizados destacou-se, pela importância da obra e pelo estado de deterioração em que se encontravam, as restaurações dos painéis que Visconti realizou para o foyer. Também as demais pinturas de Eliseu Visconti no Theatro – pano de boca, plafond e friso sobre o proscênio – foram objeto de reparos, limpeza e revitalização, ressurgindo com todo o seu vigor plástico como uma atração à parte no Theatro.

PAINEL "A ARTE LÍRICA" ANTES DO RESTAURO DE 2009
Painel “A Arte Lírica” antes do restauro de 2009

Antiga reivindicação do Projeto Eliseu Visconti, a restauração dos painéis do foyer e a revitalização das demais pinturas de Visconti tiveram a coordenação da Holos Consultores Associados, e os trabalhos foram desenvolvidos pelas equipes de Maria Cristina da Silva Graça e de Humberto Farias de Carvalho. Todos os trabalhos de restauro contaram com a supervisão e a consultoria dos Professores Edson Motta Júnior e Cláudio Valério Teixeira.

Quem ocupa a presidência deste Theatro deve ter a exata noção do valor desse fantástico patrimônio, o pano de boca, os afrescos, enfim, todas as peças e detalhes da decoração interna, que deverão ser preservados….Visconti, para o Brasil, é o que Rafael ou Da Vinci representam para a Itália.[6]

 

NOTAS:

[1] XEXÉO, Pedro – Theatro Municipal – 90 anos – Museu Nacional de Belas Artes – 1999, p. 37.

[2] OLIVEIRA, Valéria Ochoa. A arte na belle époque – O simbolismo de Eliseu Visconti e as musas – Editora da Universidade Federal de Uberlândia – 2008.

[3] BARATA, Mário. – Catálogo da Exposição Eliseu Visconti e a Arte Decorativa – 1983.

[4] OLIVEIRA, 2008.

[5] BARATA, Frederico. Eliseu Visconti e seu Tempo, Livraria Editora Zélio Valverde, Rio de Janeiro, 1944, p. 140.

[6] ACHCAR, Dalal. In NEPOMUCENO, Rosa. Eliseu d’Ângelo Visconti – A arte além das telas – Série Memória – Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro – 2002.

 

A MÚSICA, O DRAMA E A ARTE LÍRICA - PRIMEIRA COMPOSIÇÃO PARA OS PAINÉIS DO FOYER DO THEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO - OST - 69 x 160 cm - c.1912 - COLEÇÃO PARTICULAR
PRIMEIRA COMPOSIÇÃO PARA O FOYER DO THEATRO MUNICIPAL – c.1912
A MÚSICA, O DRAMA E A ARTE LÍRICA - ESTUDO PARA O FOYER DO THEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO - OST - 51,0 x 79,7 cm - 1913 - CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO DA FUNDAÇÃO TEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO
ESTUDO SELECIONADO PARA DECORAR O FOYER DO THEATRO MUNICIPAL – 1913
A MÚSICA - PAINEL CENTRAL DO FOYER DO THEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO - ÓLEO SOBRE TELA DE LONA - 7 x 16 m - 1916
A MÚSICA – PAINEL CENTRAL DO FOYER DO THEATRO MUNICIPAL – 1916
O DRAMA – INSPIRAÇÃO POÉTICA - PAINEL LATERAL DO FOYER DO THEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO - ÓLEO SOBRE TELA DE LONA - 4 x 6 m – 1916
O DRAMA – INSPIRAÇÃO POÉTICA – PAINEL LATERAL DO FOYER DO THEATRO MUNICIPAL – 1916
A ARTE LÍRICA – INSPIRAÇÃO MUSICAL - PAINEL LATERAL DO FOYER DO THEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO – ÓLEO SOBRE TELA DE LONA – 4 x 6 m – 1916
A ARTE LÍRICA – INSPIRAÇÃO MUSICAL – PAINEL LATERAL DO FOYER DO THEATRO MUNICIPAL – 1916
A MÚSICA - PAINEL CENTRAL DO FOYER - DETALHE - MELPÔNEME
A MÚSICA – PAINEL CENTRAL DO FOYER – DETALHE – MELPÔNEME
A MÚSICA – PAINEL CENTRAL DO FOYER – DETALHE – URÂNIA
A MÚSICA – PAINEL CENTRAL DO FOYER – DETALHE – URÂNIA
A MÚSICA – PAINEL CENTRAL DO FOYER – DETALHE – EUTERPE
A MÚSICA – PAINEL CENTRAL DO FOYER – DETALHE – EUTERPE
A MÚSICA – PAINEL CENTRAL DO FOYER – DETALHE – CALÍOPE
A MÚSICA – PAINEL CENTRAL DO FOYER – DETALHE – CALÍOPE