Vera Beatriz Siqueira

Paisagem - Catálogo da Exposição "Eliseu Visconti - A Modernidade Antecipada", na Pinacoteca do Estado de São Paulo e no Museu Nacional de Belas Artes - Abril de 2012

Em seu famoso Autorretrato ao ar livre (1943), Visconti se representou à frente do quintal da casa de Teresópolis. Logo no primeiro plano, o feixe de pincéis nos dá a chave de leitura da obra: são eles os instrumentos que fundem, na matéria pastosa da tinta, a atividade da pintura, o pintor e seu ambiente. Mais do que um cenário, a natureza lembra o refúgio de sua velhice, mas também sintetiza o percurso poético do artista, ao lidar com o tema da paisagem, marcado pela aproximação afetiva e sua transformação em motivo plástico.

As primeiras paisagens – realizadas ainda dentro do quadro de sua formação na Academia – mostram como Visconti enfrentava o peso da tradição. Entre nós, o gênero paisagístico tornou-se particularmente relevante, já que, desde a produção dos artistas viajantes do início dos oitocentos, esteve associada à própria construção da imagem do Brasil (como Reino Unido, Império e República). Pinturas como Mamoeiro (1889), Mamoneiras – Morro de São Bento (1890), Vista na Gamboa (1889), Paisagem com casa (1892) e Lavadeiras (1891), entre outras, revelam a forma como o artista, ainda seguindo as orientações ortodoxas, subordinava os problemas artísticos da luz e da cor ao interesse descritivo.

A partir das viagens de estudo à França, Visconti compreende que a natureza seria bem mais do que um assunto entre outros. Seria a porta de acesso aos novos problemas artísticos que enfrentava, pois do estudo direto da luz e da cor dependeria, em última instância, a afirmação de sua personalidade como pintor. Vivencia, assim, o dilema aberto para a pintura moderna pela opção de pintar ao ar livre. A contemplação direta da natureza, a partir dos sentidos, punha em questão os padrões anteriores de representação, exigindo a confecção de uma imagem que não correspondesse nem à realidade visível (já que precisava traduzir para a pintura a experiência das sensações particulares), nem aos códigos pictóricos mais comuns (baseados, em larga escala, na tradição da pintura de ateliê). A infinita mobilidade da visão, as inconstantes refrações luminosas deviam dar origem a essa imagem nova, advinda do contato entre o exercício de olhar e sua realização pictórica.

A natureza se transformava no campo privilegiado das investigações plásticas de Visconti, no qual ele estabelecia um diálogo livre e pessoal com a vertente impressionista e, particularmente, com o divisionismo dos tons. Mais do que um modo de revolucionar a pintura, o artista parecia interessado em articular percepção sensível e lirismo sentimental, estudo do motivo e temperamento artístico. Aos poucos, o olhar ainda distanciado sobre os parques parisienses – Jardim de Luxemburgo (s.d.) e Paisagem de Luxemburgo (c.1905-6) – vai cedendo lugar para uma visada mais afetiva e mais pessoal das paisagens em que vivia, sejam em Saint Hubert, em Copacabana ou em Teresópolis – Trigal (s.d.), Flores da rua (s.d.), Revoada de pombos (c.1926), Garotos na ladeira (1928), Raio de sol, Teresópolis (s.d.), Três meninas no jardim (1935).

Nada mais significativo de sua poética do que a preferência por paisagens conhecidas e amadas, nas quais as figuras humanas estão presentes. Dissolvidas na trama luminosa e cromática, desempenham gestos simples, ações pequenas e cotidianas. Uma mãe balançando o carrinho do neném, mulheres descansando ou lendo, crianças brincando, pessoas passeando: são imagens que remetem à qualidade contemplativa e íntima desse lirismo. Voltando ao seu autorretrato, podemos qualificar sua atividade de pintor como mais um desses fazeres laboriosos e delicados, capaz de revelar a busca da harmonia entre o gesto criativo e a verdade da natureza.