Lygia Martins Costa

Texto do Catálogo da Exposição Retrospectiva de 1949 no MNBA - Apreciação da Obra - 1949

 

1º PERÍODO – 1888 -1897- Formação, Naturalismo (Brasil e França)

“Os seus primeiros trabalhos em exposição, academias, estudos de modelo vivo e um bom número de paisagens, são obras de aluno ainda da Escola Nacional de Belas Artes. Apresentam certa dureza, natural em todo período de formação, formas um tanto recortadas, preocupação com detalhes, que predominam sobre o conjunto. Mas o colorido já tem caráter,  se bem que ainda com tendências aos tons sombrios, as sombras castanho-escuras então em voga  em nossa Academia:  isso não impede, porém, que haja trechos de leveza como o que encontramos no primeiro plano do “Mamoeiro” de 1889. Na figura humana as feições são demarcadas, denunciando ainda preocupação com a cópia da natureza. Em instantâneos da vida diária, já concilia a figura com a paisagem . “As lavadeiras” em sua faina preocupam-no desde cedo e freqüentemente iremos encontrá-las em sua pintura. As roupas nos varais, a principio como simples acessório, com o perpassar dos anos chegarão a formar o motivo central de uma de suas obras de arte de maior valor.  

 Parte Visconti para a Europa em prêmio de viagem que obtivera em 1892. Pelos envios à Escola verificamos que prosseguiu no estudo do modelo vivo. Executa então uma série de nus, de que o Museu possui um esplêndido conjunto: de 1893, 94, 95 e 96. Seu pincel se solta gradativamente. Enriquece o modelado e sensibiliza a carnação. Mas as cabeças lhe interessam, como lhe interessarão sempre, mais do que propriamente o nu – a tal ponto que, com isso, prejudicará, às vezes, a unidade do quadro. Datadas de 1895 e 96 são as primorosas cópias de Velasquez que executou no Prado.

Desde o princípio revela dualidade na escolha dos temas: a paisagem e a figura se intercalarão em toda sua obra, com a predominância ora de uma , ora de outra. A paisagem, que se dedica sobretudo antes da ida à Europa, substituíra a figura humana. Tal o elã com que se entrega ao gênero, que em pouco se assenhoreia do assunto. Procura então um caminho novo, mais difícil – a composição. Provavelmente a leitura abriu-lhe horizontes, e vemo-lo em 1896 a esboçar uma “Saída da vida pecaminosa”, da Divina Comédia, e no ano seguinte a preparar-se para a “Recompensa de São Sebastião”. Já o pintor se transformava num artista feito, e abandonava o naturalismo para meter-se em empresas mais arrojadas”.

2º  PERÍODO–1898-1908 – Influências Renascentistas e Divisionistas (França)

“A leitura da grande literatura clássica leva Visconti à arte da primeira Renascença Italiana, assim como já levara no meado do século XIX os “pré-refaelitas” à mesma fonte. É a época em que produz “Gioventu”,”Recompensa de São Sebastião“ e “Oréadas”. Composições cheias de imaginação, pureza, graça, poesia, tipos idealizados, atingindo o primeiro apogeu de sua carreira. O nu se eleva a qualquer coisa de etéreo. A delicadeza de inspiração se alia a de execução. Há extrema sensibilidade nas expressões fisionômicas, sutileza do modelado e caráter linear das figuras que faz lembrar Botticelli. Embora apresentem vários predicados em comum, são peças bem diferentes, não só em tema, como em linha de composição e em colorido. “Gioventu” sublima todas as características dessa fase do pintor. A simplicidade e  a candura de que se reveste, fá-la superar tudo que se fez na Europa sob a mesma influencia pré-rafaelita.

De regresso ao Brasil, Visconti se afasta dessa tendência. Retratando parentes e amigos retorna ao naturalismo, diretiva em que se acha quando volta à França, uns poucos anos depois. Datado de 1905, “D. Nicolina Vaz de Assis” é o primeiro retrato famoso do artista. De um desenho impecável e modelado seguro, com transição suave da luz à sombra, é uma figura cheia de elegância e dignidade, magnífica a mão na cintura.

O sucesso de seus trabalhos leva o Engº Pereira Passos a pedir-lhe, nesse mesmo ano, um estudo para a decoração do Teatro Municipal, que se projetava então no Rio. No intervalo desses primeiros estudos  planeja sua “Maternidade”, de 1906. Executa várias “manchas” do Jardim do Luxemburgo, local onde se passará a cena. As primeiras são de tonalidades surdas, com predomínio do castanho, e passagens bruscas da luz  para a sombra. Mas, à medida que o artista se familiariza com o impressionismo que estuda para a decoração do Municipal, seu colorido enriquece, tons mais claros surgem e adquirem uma luminosidade inteiramente nova em sua palheta. Dessa fase pré-impressionista a “Maternidade” é sua tela principal. A esplendida saia de seda azul de reflexos prateados da jovem mãe é de muito efeito junto ao tecido branco, leve e transparente, da blusa  e do chapéu.

Desenhos e esbocetos documentam-lhe os estudos para a decoração do Teatro Municipal. Para trabalho de tamanha envergadura, Visconti estuda todas as possibilidades. E é no divisionismo, estilo que se consagrara na Europa  para pinturas dessa natureza, que ele encontra o meio de dar o máximo de riqueza colorística dentro de um conjunto leve e gracioso. Mas para que a dissociação dos tons não prejudicasse o sentido da forma, pensou em aliar essas conquistas recentes ao velho linearismo e modelado botticelliano. O resultado foi dos mais felizes. Lá está o “plafond” do teatro para atestá-lo: “A passagem do dia“, como chamou o artista, a “Dança das horas” como a chamem outros. É quase que a introdução da nova técnica e de novo colorido a um tema já estudado e resolvido nas “Oréadas” de 1899. Nus femininos dançam meio envoltos em panejamentos  transparentes e esvoaçantes, que cintilam em prata e ouro. Sobre o fundo em tons pastel, do azul ao rosa, pinceladas leves se sucedem como um redemoinho em linhas ora concêntricas, ora onduladas. As figuras são extremamente delicadas de fatura”.

 3º PERIODO – 1909 -1912 – Do divisionismo ao realismo (Brasil)

“Terminando a primeira encomenda para a decoração do Municipal em 1908, vem Visconti ao Brasil para instalá-la e tomar posse do cargo de professor da Escola Nacional de Belas Artes para que fora nomeado. Chega um divisionista da França e sob essa influencia executa seus primeiros trabalhos aqui. “A Rosa”, de 1909, é quase que inteiramente nessa técnica. Os trabalhos seguintes aos poucos vão perdendo esse caráter. Em “Morro do Castelo”, o céu de fundo azul mais forte, anuncia o período realista da sua pintura no Brasil e a volta à paisagem, fase interessantíssima da “Crisálida” e “Meu Quintal – Copacabana”. A “Crisálida” ainda retém um certo divisionismo na figura do primeiro plano. Caracteriza ambos um colorido forte, emprego de tons quase puros, o máximo efeito de contrastes pela superposição de complementares e passagens bruscas de luz para a sombra, sombras castanho-arroxeadas e o aparecimento do azul em nova tonalidade de verde. “Os Patinhos” e “Bolhas de Sabão” obedecem à mesma técnica.

Se esse primeiro contato com  o divisionismo francês aguçou sua sensibilidade a ponto de levá-lo a alterar sua palheta diante da natureza, pouco influiu, entretanto, quando o pintor trabalhava no atelier. Bons quadros desse período, tais como ”Boa-noite”, “Primavera”, “Estudando a lição”, e os retratos de “Alberto” e “Gonzaga Duque”, marcam um retorno progressivo aos castanhos que usava em época anterior. “Boa-noite” é de grande delicadeza. O fundo ainda divisionista destaca o grupo em pincelada lisa, pasta luminosa, sobretudo no bebe adormecido ao colo da mãe e da garota que o beija. Todo o resto está na penumbra. Em “Primavera”, a cabeça e o corpo juvenil nos impressionam pelo realismo do modelado sobre a meia sombra. O vermelho da cadeira e da flor ao cabelo da menina dão uma nota quente e viva ao castanho dourado de seu corpo. “Estudando a Lição” não é tão realista, qualquer coisa de indefinido contrasta com o feixe de luz intensa sobre o canto da mesa. O “Retrato de Alberto” é triste e dramático em seu rosto abatido, as mãos nervosas, os olhos sérios e indagadores. O colorido sombrio, o verde escuro da roupa e as sombras violentas ainda acentuam esse caráter.

 Já “Gonzaga Duque” é de um realismo saudável. Embora os castanhos dominem absolutos, salientando mão de mestre na riquíssima gama com que se exibe, a nota branca do colarinho e do punho da camisa comunicam ao  conjunto uma vibração estimulante. Figura quase em movimento, sombras pouco demarcadas obtidas com sutileza, a epiderme bem sentida na superposição de tons quer mais claros, quer mais  escuros, apresenta-se em modelado magnífico, sobre fundo escuro. Junto com o “Retrato de D. Nicolina” de 1905, “Gonzaga Duque” se recomenda dentre o que de melhor se fez no gênero na  pintura brasileira.

Ainda executou Visconti  duas decorações para a Biblioteca Nacional, alegorias á “Instrução” e ao “Progresso”.

4º PERIODO – 1913 -1919 – Impressionismo da decoração do “foyer” do Teatro Municipal e das paisagens de St. Hubert (França)

“A segunda encomenda para a decoração do nosso Teatro Municipal leva  Visconti de novo à  Europa. É o “foyer” dessa vez, já por todos consagrado como a obra prima do artista e das decorações mais belas da arte de nossos dias. Para executá-la volta Visconti ao impressionismo. O estilo tinha  que  ser, tanto quanto possível, semelhante ao das demais decorações que já fizera no Teatro. Mas o artista evoluíra e, não abordando a técnica pela primeira vez, supera-se a si mesmo.

 De três partes compõe-se a decoração: um grande painel central retângulo de cerca de 16 metros de comprimento e de dois pequenos laterais, em asa de cesto. Uma “alegoria à Música” é o motivo do principal, e “Inspiração musical” e “Inspiração poética” os painéis complementares. É uma sinfonia lindíssima de tons que vão, no painel central, do rosa ao azul, passando por todas as gradações suaves do violeta, tendo nos painéis laterais seus centros de irradiação do vermelho num, e do azul, noutro. O mais interessante é que na composição desses tons suaves entram cores como o vermelho, o azul ultramar e o amarelo, diferentemente distribuídos de modo a obter o máximo de vibração no efeito geral. Numa atmosfera de sonho, movem-se graciosamente nus femininos e anjos, tocando toda a variedade de instrumentos de musica. Há uma delicadeza extrema no tratamento das figuras  executadas, como já víramos no “plafond”, em pasta mais lisa do que o resto da composição em técnica divisionista.

Enquanto trabalhava nessa decoração, Visconti executava inúmeras  paisagens de Paris e de St . Hubert, sobretudo. As que executou tão logo chegou do Brasil ainda apresentam sombras escuras.  Mas clareia sua palheta, substitui os castanhos pelos violetas, bem patentes em “Leitura à Beira-Rio” “Sob a Folhagem” (uma jóiazinha que tanto nos lembra Pissarro), “Tetos de Paris”, “Outono em St. Hubert”, etc. Mais tarde, para as sombras, usa, ao invés do violeta, o oca, o que dá uma coloração geral dourada.

 Desse período de paisagista de St. Hubert têm que se destacar, como fases distintas na pincelada,  “Ronda de Crianças”,  ainda um tanto conservadora, “Flores da Rua”, mais vivo pelas pinceladas curtas e interrompidas, e “Cura de Sol”,  executada  bem pouco antes de voltar para o Brasil, com o contraste bem nítido do tratamento impressionista da paisagem com a fatura lisa na representação das figuras.

No esplêndido “Retrato da Família do Artista” de 1916, vê-se o colorido de tons baixos e sombras verde-escuras e a composição cerrada nas cinco cabeças agrupadas com aparente displicência. Mas essa tonalidade sombria traz em si muito do que apreendera na prática do impressionismo. Já o retrato de sua filha em ‘‘Meditando” é claro, alegre na superposição de tons de rosa e vermelho sobre o verde-claro do ar livre. As sombras são finalmente coloridas. E na ”Cura de Sol”, que citamos há pouco, as sombras são mais tênues, provavelmente devido à reverberação do sol”.

5º PERÍODO – 1920 -1930 – Do Impressionismo ao Neo-Realismo (Brasil)

“Chegando ao Brasil , Visconti recebe da Prefeitura a encomenda de um grande painel para a decoração do Conselho Municipal. Nele trabalhou de 1920-1923 e um desses estudos figura na exposição, ”Deveres da Cidade”. Num tríptico, dispôs no centro a glorificação do poder legislativo, e nos lados o saneamento de Oswaldo Cruz e a remodelação de Pereira Passos. Trabalho impressionista, é de inspiração e técnica bem diversas das decorações do Teatro Municipal.

É o período de suas numerosas paisagens de Sta. Teresa , Morro de Santo Antônio e retratos de família. Começa um impressionista, e tende progressivamente para um neo-realismo. O colorido também varia: vai dos tons pastel a detalhes vivos que, na transição para seu último período, se apresentarão como pontos luminosos que cintilam por entre a névoa.

 Temos da primeira época o tríptico ”Lar”, ”O colar” (ambos retratos) e “Igreja de Sta Teresa”, paisagem. De acordo com o assunto, “Lar” é muito mais sóbrio em todos os seus aspectos. É um estudo de expressões emotivas, principalmente, escapando, assim , um pouco , às características desta fase.

 A partir de 1925, com ”Os arcos”, é notória a tendência neo-realista. O “Retrato de Louise”, com um raio de sol sobre a cabeça, dando tons violáceos a todos os castanhos, inclusive aos cabelos, é bastante lírico nas variações dos azuis das flores e do sombreado sutil da cabeça e dos braços . Mas já é uma procura realista a pincelada larga com que executa o trabalho. Nas paisagens multiplica os verdes, que cobrem escala do amarelo ao azul. As sombras violetas se distribuem na vegetação. Contrastes violentos de vermelho às vezes mancham suas composições. Atestam-no ”A caminho da Escola ”,  “Para o Banho” , “Visita” , etc.

A decoração da Câmara Federal, em 1926, forçou-o a uma observação minuciosa de retratos de personagens que participaram da assinatura da Constituição de 1891. Executado em sépia, deve ter sido a razão por que retratou sua companheira do mesmo modo. As encomendas de retratos se intensificam daí por diante, e mais pronunciado é o realismo com que representa seus modelos. Numerosos também, são os auto-retratos que pintou então.”

6º PERÍODO – 1931–1944 – Neo-realismo com acentuada procura de atmosfera e luminosidade (Brasil)

“E’ o chamado ”Período de Teresópolis ”. Visconti se eleva a novos cumes em sua arte. Suas paisagens, a que até então não faltava luz, ganham extraordinariamente em atmosfera. O ar tem vida, tem movimento. Geralmente uma bruma suave arrefece os contornos, o que não impede, entretanto, que as flores vermelhas no primeiro plano se destaquem com violência. Voltam as roupas nos varais a encantar o artista, que não raro alcança efeitos surpreendentes com esse tema, como em ”Roupa estendida”, de 1943. As sombras se abrandam, e as linhas de horizonte, geralmente formadas por montanhas altas e recortadas, sobressaem-se no céu de nuvens. Animam as  paisagens pessoas de sua família e crianças dos arredores. A tonalidade e a compacidade de suas tintas variam. Claras e fluidas, ou mesmo quase monocrômica em azul claro, obtendo o mais belo efeito de neblina, como em ”Pombos do Meu Atelier”; ou sóbrias nas gamas de cinza e oca, trabalhando a espátula em pasta compacta como “Revoada de Pombos”, do Ministério da Educação e Saúde.

 Retrata amigos, os filhos, a si próprio, em fatura cada vez mais larga, luz e sombras bem manchadas em pinceladas sobrepostas, o colorido frio nuns, mais quente noutros. Salienta-se a série de auto-retratos, magnífica na liberdade de técnica.

Chega, no entanto, a qualquer coisa nova quando executa o ”Retrato do Sr. Cícero Peregrino da Silva”, 1943, do patrimônio do Museu Nacional de Belas Artes. Abandona os tons que usava e concentra-se numa modulação simples de castanhos. Ganha em capacidade emotiva. A superposição de tons, que já aplicava anteriormente, é agora distribuída em áreas maiores, o que faculta uma vibração discreta a essa figura abatida pelos anos.

Em ”Quaresmas”, sua procura no sentido de obter o máximo de atmosfera e luminosidade é coroada de êxito. Alia o divisionismo à pincelada corrida, e logra, não só a vibração do ar pela cintilação das quaresmas variadamente coloridas, como ainda a calma repousante da cena familiar no primeiro plano. A roupa no varal, em pinceladas largas, reflete esplendidamente a luz coada por entre as flores luminosas. Em ”Três Marias”, aplica ao retrato uma técnica um tanto semelhante, mas de colorido tão sóbrio como o “Retrato do Sr. Peregrino da Silva”. Não se limita aos ”terras”, entrando pelos ”lacas”. Sob o fundo divisionista livre, mas também sóbrio de cor, essas tonalidades sérias adquirem  uma luminosidade dourada apreciável, que ilumina a tez  morena das cabeças sabiamente manchadas. Ilumina por dentro, em claro-escuro imprevisto e estranho. São  retratos, porém tal é a transposição efetuada pelo pintor, que nos parece imagens de uma concepção de visionário.

 Pena ter a morte surpreendido o artista quando em sua nova procura – o que nos reservava ficará para sempre velado aos nossos olhos.”