Jorge Coli

Nu - Catálogo da Exposição “Eliseu Visconti – A Modernidade Antecipada”, na Pinacoteca do Estado de São Paulo e no Museu Nacional de Belas Artes – Abril de 2012

Os impressionistas de 1874, com sua poesia solar, sadia e heróica, não seriam capazes de interpretar o que Focillon chamou de “as profundidades de nossa vida moral”. Ou seja, de avançar pela espiritualidade do sonho, pelo sensualismo da imaginação, pelos matizes das perversões secretas ou pelas transcendências luminosas dos êxtases místicos.

No final do século XIX, são outros os caminhos que se abrem para essas explorações. Os pintores simbolistas, decadentistas, Nabis, Rosacruzes e mesmo algumas veredas do divisionismo respondiam a esses desejos.

Os nus de Visconti demonstram bastante bem como e onde o artista se situou em relação a esses movimentos contemporâneos. Gioventù, São Sebastião, a Providência, no quadro de Cabral, as Oréades, no pano de boca do municipal do Rio, mostram a qualidade de seu silêncio, de sua serenidade perturbadora, de sua graça ascética, que permite ascender à ordem de um mundo superior. O Sonho místico, que é exposto aqui pela primeira vez desde sua ida para o Chile (1910), na verdade desde sua última exposição no Brasil em 1903, busca a suavidade de um sfumato precioso para conseguir a atmosfera irreal.

Nos nus que constituem o moto das grandes pinturas altas do Teatro Municipal, constitui-se uma síntese dessa pintura onírica, com formas solidamente desenhadas (e das quais Ana Cavalcanti assinalou os modelos), tons irreais e um pontilhismo que se faz confete. Creio que apenas Visconti e Henri Martin ambicionaram grandes painéis decorativos a partir de modos que derivaram do pontilhismo.

Visconti, no caso, serve-se deles de maneira pessoal e singular. Não usa as pinceladas para tecer a superfície dos corpos, mas para criar um meio, em que a imagem ondulante do nu, imersa em delicado erotismo, emana como que de profundezas ilusórias. As aparências chegam a nós, longínquas e presentes, ricas em evidências plásticas e dissolvidas em devaneio. O pontilhismo de Visconti não recria o mundo, inventa sonhos.

Há outros nus, porém. Os do início, que fazem parte do aprendizado na escola, continuarão por algum tempo mas  cessarão na medida em que o artista avança em sua carreira. Muitos mostram adolescentes que mal iniciaram as metamorfoses do corpo. Esse era um tema freqüente na virada do século, baseado numa inocência infantil, hoje, para nós, bastante suspeita. De Sorolla a Eakins, numerosos foram os grandes artistas que exploraram o tema; o museu D. João VI conserva a mais perturbadora Lolita de todos os tempos, executada pelo pincel de Oscar Pereira da Silva.

Visconti se entrega a esses exercícios com grande prazer. Eles o levarão a As duas irmãs (tela conhecida como No verão antes que Mirian Seraphim descobrisse o verdadeiro nome de batismo), obra suprema, na qual a estratégia da composição impede o espectador de ver qualquer nudez que, no entanto, é poderosamente sugerida. Tela perturbadora, na qual a luz, embora muito fina, não deixa de acariciar ardentemente os corpos, os lençóis, a cama. Visconti percebe também as contribuições contemporâneas que tendem a explorar a vibração de luz.

Nos nus adolescentes e naqueles em que modelos adultos se abandonam com preguiça, a sensualidade é imediata, carnal e forte. Há assim duas vertentes, a sensual e a espiritual, que revelam um pintor fora de movimentos e de escolas, mas atento ao que ocorre à sua volta, para proceder a uma síntese altamente pessoal.