Ana Maria Tavares Cavalcanti I

A Família - Catálogo da Exposição "Eliseu Visconti - A Modernidade Antecipada", realizada na Pinacoteca do Estado de São Paulo e no Museu Nacional de Belas Artes - Abril de 2012

“Uma vez mais na minha vida me julguei feliz de estar no meio da família, tudo me pareceu bom”, escreveu Eliseu Visconti em abril de 1916, ao retornar a Paris após uma ausência de cinco meses. Ele estivera no Rio de Janeiro, para instalar as pinturas decorativas no foyer do Theatro Municipal. As emoções da viagem e o perigo da travessia do Atlântico durante a guerra podem ter contribuído para a sensação de bem estar ao chegar em casa. Mas sua frase resume com perfeição o que a família significava para ele. Se estivesse com a esposa Louise e os filhos Yvonne, Tobias e Afonso, tudo estava bem. Essa realização amorosa foi marcante em sua obra. De fato, como ressaltou Frederico Barata (1944, p.86), a pintura de Visconti esteve ligada à família desde seu casamento até os últimos anos de sua vida. Durante quase quatro décadas, sua mulher e seus filhos foram retratados individualmente, em duplas ou em grupo. Inúmeras vezes adivinhamos suas figuras em meio a paisagens ou reconhecemos seus traços em personagens que compõem cenas de gênero, alegorias ou painéis decorativos.

Em algumas dessas pinturas, Visconti mescla verdade e ficção. É o caso de Maternidade, realizada em Paris, em 1906, que hoje integra o acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo. É bem possível que Louise tenha posado para a figura da mãe que amamenta seu bebê, enquanto Yvonne, aos cinco anos de idade, pode ter sido modelo para a menina que brinca ao seu lado. Porém, Visconti não registrou uma cena real, pois Tobias, seu segundo filho, só nasceria quatro anos mais tarde. Um olhar atento aos detalhes revela que a menina, entretida com a boneca, replica em simetria e em ponto menor os cuidados da mãe com seu filho. Ela é um esboço da figura materna. Ou melhor, mãe e filha se espelham uma na outra. Há uma promessa de maternidade na menina e uma felicidade de criança na mãe. Com seu pincel, Visconti “escreveu” um poema visual sobre a maternidade.

Numa tela de 1910, ele volta a esse motivo e é interessante comparar os dois quadros. Agora, Louise é simplesmente Louise, e não uma ideia de mãe. Absorta na leitura da revista, dá de mamar ao filho e mistura seu chá, juntando deveres e prazeres. Cuidadoso, Visconti deixa seu rosto na penumbra. Assim, a resguarda de olhares alheios e nos deixa livres para passear pelo quadro, sorvendo com delícia sua diversidade e beleza.

Entre 1915 e 1935, Eliseu Visconti pintou ao menos seis retratos da família reunida. O primeiro, inacabado, apresenta Louise, Tobias e Afonso. O segundo, realizado por volta de 1918, é magnífico. No jardim da casa de sua família em Saint-Hubert, Louise, rodeada por seus filhos, mostra um livro ao pequeno Afonso, enquanto Yvonne se dedica ao crochê e Tobias nos olha com serenidade. Tudo se harmoniza e pinceladas vibrantes dão vida à cena idílica. Em Retratos de família (c. 1934), realiza a última pintura dessa série reunindo seus quatro amores. Em muitas outras, festejou sua família, e em todas Visconti foi o pintor dos afetos.