CR1895A - Carta de Rodolpho Bernardelli a Eliseu Visconti – 8 de agosto de 1895

  • Tipo de Documento Correspondências - Até 1900
  • Ano 1895
  • Acervo Museu Nacional de Belas Artes - Rio de Janeiro

 

CARTA DE RODOLFO BERNARDELLI EM 08-08-1895 - PAG 2
CARTA DE RODOLFO BERNARDELLI EM 08-08-1895 – PAG 2

Nesta carta endereçada a Visconti, que se encontrava em Paris como aluno-bolsista da Escola Nacional de Belas Artes, Rodolpho Bernardelli comenta sobre a pretensão de Visconti de realizar uma cópia da tela de Velasquez, “A Rendição de Breda”. Também tece considerações sobre o júri eleito para a exposição que seria realizada no Brasil e sobre o maestro Alberto Nepomuceno.
A pesquisadora e historiadora Ana Maria Tavares Cavalcanti é autora do texto intitulado “Impressões sobre o meio artístico nacional nas cartas de Rodolpho Bernardelli, Diretor da ENBA, a Eliseu Visconti, pensionista em Paris”, integrante da publicação “Histórias da Escola de Belas Artes – Revisão Crítica de Sua Trajetória”, Editora Nau, 2017. Entende a historiadora que a análise dessas cartas tem o que acrescentar ao conhecimento sobre o meio artístico brasileiro do final do século XIX.

 

8 de agosto de 1895

Amigo Visconti

Recebi sua apreciavel carta escripta em Madrid e debaixo de uma impressão desagradavel, e estou bem certo que já terá modificado sua opinião. Certo viajar com o calor em trem de especie inferior depois de ter estado em França e Londres não é para ter entusiasmo, mas os bons artistas lhe farão esquecer tudo, e depois que tiver visto aquellas maravilhas verá que quando voltar para Paris achara que sua excursão não foi inutil. Sempre me lembro que quando cheguei em Roma (depois de ter estado em Paris), fui ao ministro pedir que me arranja-se meios de ir para Paris porque aquella cidade me era antipatica e me parecia horrorosa depois porem quando voltei para Paris, não via a hora voltar para Roma: creio porem que Madrid e toda a Espanha esteja atrazada no que diz respeito a conforto mas a nos artistas o que devemos procurar são emoções e ali creio que as haverá.

Quanto ao que me diz a respeito da copia do quadro das Lanças acho que é temeridade porque o trabalho é grande mas acho que o amigo fará uma grande cousa, porque será a unica copia do mestre espanhol que teremos n’este pequeno museo, coragem e não desanime, conte com migo para o que precisar, e avante.

Volto a caceteal-o – Pense no seu quadro, olhe que é necessario que esse seu trabalho o colloque em primeiro lugar, evite a banalidade e seja original, não se descuide de ser correto no desenho sem ser amaneirado.

Passemos a proposito dos seus trabalhos que estão na Legação, o Fialho escreveu pedindo verba para poder enviar esses trabalhos, eu fui consultado, e naturalmente disse que nunca tinha pago encaixotamento e expedição dos meus trabalhos, porque então minha pensão não teria chegado, e agora creio que o Governo mandará vir esses trabalhos, mas como estamos com um Governo a moda do tempo do Imperio onde as Belas Artes são tidas como luxo, quem sabe o que haverá, eu já estou tão aborrecido que não vejo a hora de largar tudo o que me obrigue a ter que fazer com essa burocracia governamental, ah! O dia que for senhor de mim! que grande suspiro farei. Sou capaz de pensar que renasci. (desenho de um rosto olhando para o céu). Coitado dos pensionistas.

Estamos com perto de 200 quadros para a Exposição, hoje procedeu-se a eleição de dous membros do Jury de pintura foram eleitos o Pinto Peres e Souza Lobo – resta a saber se o Peres aceita caso não aceite será nomeado o Facchinetti o que foi mais votado.

O Nepomuceno deu seu concerto no Salão do Instituto no dia 4 d. corrente e foi victoriado com entusiasmo o salão estava apinhado e fazia um calor do mes de janeiro; assim mesmo o publico ficou até o fim, agradou muito o coro grego e as composições de canto, realmente são bem originais: enfim está o nosso bom amigo lançado e Deus o ajudem elle é bom e talentoso e chegará.

Dos pensionistas que estão em Roma nada sei, isso não me admira, o Raphael nunca soube escrever e sempre pareceu dar nos a honra de sua consideração, o B. Barboza seguirá o mesmo, com migo elles poderão fazer essas faltas porque eu sou superior a essa ninharias que lá provam a falta de educação, mas com meu sucessor eles veram o que lhes acontecerá.

Vá trabalhando sempre meu caro amigo e preciso pensar que quem tem nome italiano deve honrar sua origem para que, a patria dos maiores homens das artes, letras e sciencias fique sempre no apice na categoria dos povos civis.

Não desanime quando precisar de mim falle-me sabe que sempre fui seu amigo.

Estou preparando um trabalho para a exposição só para não deixar a secção de esculptura as moscas creio que achei assumpto bom, é Moema morta no mar aqui concluo, até breve. Lembranças do Angelo e Alberto.

Seu amo e collega

Rod. Bernardelli

CARTA DE RODOLFO BERNARDELLI EM 08-08-1895 – PAG 4
CARTA DE RODOLFO BERNARDELLI EM 08-08-1895 – PAG 4
CARTA DE RODOLFO BERNARDELLI EM 08-08-1895 – PAG 3
CARTA DE RODOLFO BERNARDELLI EM 08-08-1895 – PAG 3