CR1893 - Carta de Rodolpho Amoedo a Eliseu Visconti – 19 de outubro de 1893

  • Tipo de Documento Correspondências - Até 1900
  • Ano 1893
  • Acervo Museu Nacional de Belas Artes - Rio de Janeiro

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Carta de Rodolpho Amoedo para Visconti quando este se encontrava no primeiro ano de sua bolsa de estudos em Paris.

“Rio 19 de 8bro de 1893

Amigo Sñr Visconti

Acabo de receber sua cartinha cheia de aprehensões pelas noticias sebastianistas espalhadas ahi com intuitos pouco louvaveis.

Não tenha receio quanto a sua pensão qualquer que seja o resultado dessa desastrada revolta, que comquanto, deseje não nos matou ainda à fome nem nos matará, Dieux Merci,!! o seu premio nada póde soffrer, mesmo porque os governos não rompem a continuidade com as couzas que constituem disposições anteriores ao seu dominio senão quando politicamente estas couzas o embaraçam e eu não vejo em que os [?] que o Sñr recebe embaração o futuro politico do futuro monarcha que ainda está para nascer!!… mas que é muito possivel que morra antes de vêr a luz do sol, mesmo da Europa.

Estude trabalhe e não dê ouvidos a essas historias de D. Corvelinha que tem dinheiro na caixinha.

Lembre-se que os principes que nos querem dar, terão de fazer quarentena no lazareto da ilha grande, antes de se sentarem no trono que elles sabem que não existe senão no olympo onde as vozes dos brazileiros não podem chegar. Houve é verdade algumas balas de canhão atiradas barbaramente dos navios revoltados para esta cidade nos primeiros dias d’esta vergonhoza especulação mas poucas foram as pessoas attingidas e poucos tambem foram os estragos cauzados pelos tais projectis e a melhor prova é que eu que estou morando na rua dos Ourives junto à rua do Ouvidor não fui sorprehendido pela visita de nenhuma d’estas balas. Tanto eu como minha mulher nada soffremos até hoje. No jardim do atelier do Bernardelli chaiu creio eu um pequeno projectil de canhão revolver, mas não cauzou o menor estrago nem matou a nenhum pé de violleta dos que lá florescem.

Os piratas como tal já estão classificados pelo governo que os expulsou da armada nacional estão encurralados no fundo da bahia de Guanabara rodeados de bôa parte de navios de madeira que com um tiro de canhão irão ao fundo quando haja meios de attingilos certeiramente o que espero será muito breve. De lá limitam-se a bombardear Nictheroy que cada dia responde heroicamente aos seus ataques fazendo-lhes bons estragos nos táes – Buques – o Aquidabam é o maior baluarte dos revoltozos e tem as machinas muito extragadas de maneira que nem para fugir serve!!!! Villegagnon aderiu desde o primeiro dia, mas como teve medo de um parque de artilharia postado no Castello conservou-se neutro (para inglez vêr) e só depois que o governo mandou de lá retirar os seus canhões se manifestou pelos revoltosos mas já soffreram um medonho fogo de trez dias consecutivos feito pelas fortalezas da lage S. João e Sta Cruz e está n’um estado lastimavel.

Enfim todos nós esperamos vêr por estes dias fuzilados ou lynchados os chefes da vergonhoza revolta que tanto nos desacredita no estrangeiro.

Não mostre esta minha carta a jornalista algum d’ahi que podem aproveitar-se da sua confiança para dar verdades e mentiras em que elles são ferteis como emanadas de bôa fonte compromettendo-me e compromettendo-o. Não creia nos telegramas ahi publicados a não sêr nos de proccedencia official e deixe andar os taes barcos restauradores pois que são elles é que precizam de restauração e quando lhe fallarem em monarchia no Brazil, conte a historia d’aquelle celebre artilheiro que n’um inquerito respondeu não dei tiro por trez razões 1ª porque não tinha pólvora 2ª … e o juiz atulhou é bastante não precizo saber das outras … pois a monarchia no Brazil está no mesmo cazo não póde sêr por muitas razões mas a 1ª é porque não ha monarcha!!!!!!!!!

Aceite um abraço do seu amigo e colla

Rodolpho Amoedo

  1. Escrevi muito á pressa a carta incluza dirigida ao Xavier de Carvalho que o acolherá bem. Não [sei] agora onde elle móra mas não lhe será difficil saber ahi.”