Mirian N. Seraphim - A Catalogação das Pinturas de Eliseu Visconti* - Abril de 2006

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Eliseu d’Angelo Visconti (1866-1944) foi um pintor múltiplo, um incansável pesquisador, em busca de uma expressão plástica que correspondesse à sua sensibilidade, de técnicas e temas que revelassem, da forma mais intensa, sua alma de artista. Hoje, é aclamado como precursor do modernismo brasileiro e sempre lembrado como um dos agentes das transformações ocorridas na pintura brasileira na passagem do século XIX para o XX.

Foi um vitorioso desde os tempos de estudante, ganhador de diversos concursos e medalhas; viveu sem dificuldades do seu trabalho como pintor, e pôde saborear em vida o reconhecimento da crítica, o quê, para muitos, vem apenas com o passar para a história. Em 1941, Carlos Rubens dedica duas páginas da sua Pequena História das Artes Plásticas no Brasil a Visconti, porém, em dois parágrafos resume a reputação do pintor, nesta altura já solidificada:

... um temperamento excepcional de artista e uma inteligência lúcida e impetuosa. Uma sensibilidade requintada, uma visão muito segura, uma individualidade equilibrada que a arte iluminaria crescentemente.

Trabalhando pertinazmente, libertando-se de quaisquer influências de artistas e escolas, Visconti apresenta uma pintura forte e brilhante dentro de uma técnica admirável. Paisagista, retratista, pintor de gênero, de nu e decorador, Visconti é um mestre.[1]

Nasceu na Itália em 1866 e veio para o Brasil na infância, trazido pelos irmãos. Numa carta escrita um ano antes de falecer, Tobias d’Angelo Visconti, filho do artista, pede que fiquem claros, em minha dissertação de mestrado, alguns dados sobre o seu pai. Entre eles, que Eliseu Visconti se tornou “cidadão brasileiro em 1890, pela grande naturalização decretada pelo governo da República. No seu passaporte, constava como cidadão brasileiro. Falava português sem qualquer sotaque, mesmo de Italiano, tal como um brasileiro nato”.[2] O próprio pintor revelou a um amigo seu sentir e pensar, em uma declaração muito mais contundente que qualquer documento:

A questão de nascimento é um incidente na vida. Poderá ser um incidente a permanência de 70 anos numa terra onde um homem plasmou a sua alma, estimado e consagrado por todos, não!!! [3]

De fato, Visconti foi, em toda a sua vida, amado e admirado por toda a crítica brasileira, além da estrangeira em diversas oportunidades, tendo seus trabalhos publicados em revistas especializadas e expostos em eventos pela Europa e Américas. Talvez o mais notório desses eventos tenha sido a Exposição Universal de 1900, em Paris, na qual recebeu Visconti uma medalha de prata pelas pinturas Gioventù (1898) e Oréadas (1899). Não tão conhecido, porém, um êxito ainda maior foi o que Visconti obteve na Exposição Universal de Saint Louis, EUA, em 1904, quando conquistou uma medalha de bronze por trabalhos em aquarela e uma medalha de ouro pela tela Recompensa de São Sebastião (1898).

Uma vida familiar harmoniosa, vivida em plenitude de realização profissional, não deixaria lugar para dicotomias. Fazendo-se um levantamento da imagem que o mestre deixou de si, através de inúmeros depoimentos de críticos e estudiosos de sua arte, não se encontra uma única nota discordante sobre as elevadas qualidades da pessoa de Eliseu Visconti, e raríssimas em relação à sua obra. Como explicar tamanha unanimidade? Realmente, ele foi um pintor excepcional que deixou em sua produção a marca da dedicação e do prazer de viver. Além das qualidades ressaltadas por Carlos Rubens, sem dúvida o ambiente favorável desfrutado no seio de uma família afetuosa contribuiu, e muito, para o sucesso de Visconti, como homem e como artista. Sua esposa, a francesa Louise Palombe, foi sua companheira e inspiração até o final da vida, assim como os três filhos que ela lhe deu. E Visconti reconhecia o papel fundamental que eles tiveram em sua existência, como é possível constatar em sua afirmação categórica:

A família, primeiro; a arte, depois. Uma não é incompatível com a outra, como muitos pensam. Ao contrário, as duas se completam. [4]

Em épocas sucessivas, marcadas pelas raras exposições individuais que realizou em vida, Visconti foi considerado um mestre do nu, do retrato e da paisagem. A primeira dessas exposições foi realizada em maio de 1901, no Rio de Janeiro, quando da sua volta de Paris, para mostrar toda a sua produção do período em que lá esteve como bolsista do Governo (1893-1900), prêmio conquistado no primeiro concurso organizado pela nascente República do Brasil. Frederico Barata, amigo e biógrafo do artista, fala em seu livro sobre essa exposição:

Ao retornar ao Brasil, (...) levou Eliseu Visconti a efeito, na Escola de Belas Artes, uma grande exposição individual em que figuraram 60 trabalhos a óleo, pastéis e desenhos, e mais 28 de arte decorativa “aplicada às indústrias artísticas”, como os denominou no catálogo. (...) E era também essa grande exposição a primeira de conjunto que fazia no Rio, desde que obtivera o prêmio de viagem, e após oito anos de ininterrupto estudo na Europa.[5]

A mostra foi bastante festejada pela imprensa por sua qualidade, e também, por se constituir numa inovação, devido à variedade dos trabalhos apresentados. Pela criação dos projetos de arte decorativa para cerâmica, tapeçaria, vitral, luminária, etc, – trabalhos que figuraram numa seção especial na Exposição Universal de Paris, em 1900 – Visconti é hoje aclamado um pioneiro do design no Brasil. Mas as pinturas que mais se destacaram nessa exposição, ao menos para o crítico de arte mais conceituado em sua época, Gonzaga Duque, foram os nus adolescentes:

... esses motivos, de dificílima reprodução, constituem a acentuada característica do seu individualismo que se destaca, em conjunto, pela pureza d’uma arte desviada das perturbações eróticas da contemporaneidade, arte serena e humana...[6]

Uma nota sobre a exposição, editada pelo Jornal do Comercio, ressalta o talento de Visconti em representar a textura da pele humana:

... todos esses admirados estudos de nu, que revelam a sua habilidade em pintar modulações macias e sutilezas de colorido, que proporciona a representação da carnação humana, de tão difícil execução.[7]

Embora se restrinjam ao início da carreira do artista, os nus de Visconti nunca foram esquecidos. Angyone Costa, em 1926, já o considerava um mestre, comentando, seus “nus de carnação viva e fascinadora, que o fazem o maior, no gênero, no Brasil”.[8] E outros autores, já na década de 80, ainda ressaltam essa habilidade desenvolvida nos primeiros anos de trabalho do pintor. [9]

A segunda exposição individual de Visconti no Rio teve sua inauguração anunciada para 10 de janeiro de 1910 [10], e foi considerada, pelo Jornal do Commercio, uma pequena exposição...

... pelo número limitado de quadros, mas muito grande e muito importante pelo valor individual desses quadros.

São na sua maioria retratos, e retratos que já foram vistos quase todos, e todos muito apreciados. Alguns novos, bons como tudo que sai do fino pincel deste artista, mas que não põem na sombra trabalhos que, quando originariamente expostos, fizeram profunda impressão no mundo artístico e diplomaram o seu autor mestre consumado neste especial ramo de arte, quiçá o mais difícil.[11]

O texto cita vários retratos, tais como os da escultora Nicolina de Assis (1905), do músico Alberto Nepomuceno (1895), de Affonso d’Angelo Visconti, irmão do pintor; com comentários sobre alguns, e um especial destaque para o Retrato de Gonzaga Duque, inédito, na ocasião. Esse retrato foi pintado por Visconti em 1908, e entregue ao amigo em novembro, sem estar envernizado, com a promessa de que receberia o acabamento definitivo, na volta da viagem a Europa, que o pintor faria naquele momento. Havia ainda na carta que anunciava o envio do quadro, uma recomendação para que Gonzaga Duque não o expusesse sem primeiro consultar o artista.[12] Esse retrato, em várias publicações aparece com a data equivocada de 1912, ano da 19ª Exposição Geral de Belas Artes (EGBA), do Rio de Janeiro, da qual a obra participou, e que foi a primeira ocasião amplamente divulgada em que a pintura veio a público.

Visconti volta de Paris, no início de março de 1909,[13] casado com Louise Palombe, fato que se reflete grandemente em sua carreira, e marca uma virada em sua preferência temática. A partir de então, os seus nus rareiam visivelmente, se restringindo quase que exclusivamente às obras de decoração. Nota-se, a partir desse momento, uma maior dedicação de Visconti ao gênero do retrato, figurando neles, por diversas vezes, sua esposa, filhos e amigos, e raramente, pessoas não ligadas a ele afetivamente. Além disso, foi um dos pintores brasileiros que mais se auto-retratou, durante toda a sua carreira.

Cada retrato é um profundo estudo psicológico de seu modelo, o mesmo sendo observado em seus auto-retratos, tratados como análises pictóricas de seu eu múltiplo e versátil.[14]

A outra exposição individual realizada por Visconti, esta amplamente noticiada, aconteceu em agosto de 1920, quando do seu regresso definitivo de Paris, depois de quatros anos por lá. Um artigo de jornal nomeou, uma a uma, as 36 obras expostas, e se, na exposição individual anterior, Visconti foi “diplomado” como mestre do retrato, agora recebe mais um título:

A maioria dos trabalhos, porém, é de paisagens, paisagens magníficas, irrepreensíveis.

Como paisagista, este pintor é decididamente um mestre.

A sua natureza tem movimento, tem alma, tem uma suprema beleza. Visconti sabe imprimir uma vitoriosa e inédita expressão do colorido forte da sua paisagem.[15]

Um outro jornal traz destaque para as obras adquiridas já no dia da inauguração, em número de oito, e para a surpresa que constituiu a quantidade de paisagens que faziam parte da mostra:

Foi isso, para muitos, uma novidade, habituados que estavam a admirar o figurista e rarissimamente o cultor da paisagem. Pode-se mesmo dizer que esta domina na exposição Visconti, mas todas as paisagens são povoadas por figuras traçadas com aquela segurança de mestre.[16]

Já no dia da inauguração, foi adquirido um quadro hoje conhecido como Moça no trigal que, porém, nessa mostra individual foi exposto com o título Pão e Flores, como se pode constatar em uma reprodução publicada pela Revista da Semana.[17]

No último período passado na França, Visconti inspirou suas paisagens, especialmente dos arredores, de Saint Hubert, onde a família de sua esposa, Louise, tinha uma propriedade. Em muitas delas, a figura humana é integrada harmoniosamente à natureza, geralmente tendo sua esposa e os três filhos como modelos. A partir de 1920, Visconti não mais se ausenta do Brasil, alternando sua morada entre Copacabana e Teresópolis, lugares dos quais registrou diversos aspectos. Suas paisagens têm sempre um ar doméstico, pois quase invariavelmente se circunscrevem aos lugares onde habitou, seus jardins e quintais ensolarados, ou às vistas de seu atelier.

... sob a luz tropical ainda indomada na nossa pintura, Visconti é um conquistador de atmosfera. E aquela ciência da luz e do colorido que aprendeu em França vai servir-lhe agora para dominar o vapor atmosférico. Será esta a sua grande contribuição.[18]

Pintor até a raiz dos cabelos, ele compreende que o destino de sua arte está na vitória sobre aqueles elementos. Os matos cariocas, a serra de Teresópolis, travam com ele um diálogo misterioso.[19]

Visconti continuou trabalhando constantemente até os últimos dias da sua vida, quando contava, então, 78 anos de idade. No entanto, a maior parte dessa produção permanece desconhecida do grande público e até mesmo dos pesquisadores, algumas obras esquecidas nas reservas técnicas dos museus, ou isoladas em galerias, coleções oficiais e particulares, por todo o território nacional e vários países estrangeiros. Isso sem falar das falsificações presentes no mercado de artes e que podem ser encontradas facilmente também pela internet. Sendo assim, a catalogação de sua vasta produção se mostra um trabalho urgente e de importância fundamental. Um recorte deste trabalho, o das pinturas a óleo e de cavalete, se constitui no meu atual projeto de doutorado.

Numa primeira etapa, o levantamento feito a partir das obras reproduzidas ou citadas em livros, revistas e jornais, exige um trabalho criterioso e exaustivo, pois uma mesma pintura aparece com nomes diversos e muitas informações são vagas ou controvertidas.

Um dos casos mais intrigantes envolvendo uma obra de Visconti era, sem dúvida, o da pintura intitulada Sonho Místico. No Catálogo da Exposição Retrospectiva de Elyseu d’Angelo Visconti, editado em novembro de 1949, Lygia Martins Costa, citando obras destacadas na carreira do pintor, escreve: “... o governo do Chile adquire para o Museu de Santiago, em 1912, ‘Sonho Místico’”. [20] Vários outros autores, escrevendo sobre Visconti, repetem a mesma notícia. Entre eles: Flávio Mota e Roberto Pontual, em 1969, e José Roberto Teixeira Leite em 1988.

Poucos detalhes a mais, sobre a aquisição desta pintura, podem ser encontrados nas notas biográficas de Visconti, publicadas no jornal Noite Ilustrada, em 1936: “Na inauguração do Pavilhão de Bellas Artes do Chile, seu quadro ‘Sonho Místico’ foi comprado por soma considerável por um ‘amador’”. [21] Além da falta de maiores informações, o mistério aumentava pelo registro das reproduções de duas pinturas diferentes com o título Sonho Místico. Única certeza sobre essa obra era que fora pintada por Visconti, em Paris, durante sua estada lá, como pensionista.

Em Le nu au Salon, de Armand Silvestre[22], referente ao Champ de Mars, de 1897, aparecem a reprodução de uma pintura de Visconti com o título Rêve Mystique e duas poesias nela inspiradas. Outra reprodução da mesma pintura [Imagem 1] é publicada em 1944, na biografia de Visconti, escrita por Frederico Barata. Porém, na legenda lê-se: “‘Fatigada’ – (nu em tamanho natural) – Óleo – Paris, 1898. (De coleção particular, na França).” [23]

Na mesma publicação de Barata aparece, ainda, a reprodução de uma outra pintura de Visconti, com a seguinte legenda: “‘Sonho Místico’ – Óleo – Paris, 1896 – Exposto no Salon des Artistes Français, em 1897. – (Do Museu de Valparaíso, Chile).” [24] A informação do museu coincide com uma inscrição manuscrita, que pode ser vista na base da reprodução, e que deve ter sido feita sobre a foto da pintura [Imagem 2].

Essas duas telas podem ser identificadas, ainda, com descrições de pinturas de Visconti, encontradas num artigo de jornal que comentava a 5ª EGBA, no Rio de Janeiro, em setembro de 1898:

... Esperança - é feito com um modo de pintar brilhante, vigoroso, que lembra as telas de Rubens.

Representa uma adolescente sadia e forte, com as formas ainda levemente pronunciadas, pescoço, ombros e braços magros e mãos de criança. Tem na mão esquerda um ramo de lírios. Já não é uma criança, não é, porém, ainda mulher. É o embrião, a promessa, a esperança de um espécime adorável da mais sublime manifestação da natureza.

A figura está em um canto de sala pouco iluminado; o delicado perfil mal se percebe; no ombro direito e nos joelhos a luz bate mais forte, deixando ver a carnação moça e sadia, a pele fina de uma morena quente com tons dourados.

É uma tela de primeira ordem. Junto está outro estudo de um gênero inteiramente diverso. É o nº 247, Fatigada. Um modelo, mulher de formas delicadas e graciosas, cansada de posar, deitou-se de costas no divã e aí, com os joelhos dobrados e os braços cruzados sobre a cabeça, deixa-se estar sossegada, com o corpo entorpecido pelo far niente.

A pintura n’esta tela é bem simples, muito moderna e de escrupulosa verdade. A luz, caindo quase perpendicularmente, sobre a figura, dá efeitos lindíssimos sobre a pele clara, brilhando no peito e espalhando-se levemente sobre todo o corpo, que se sente cansado, perfeitamente em repouso. [25]

Pode-se perceber, que a descrição detalhada de Esperança coincide perfeitamente com a reprodução de Sonho Místico publicada por Barata. E aquela que inspirou o poeta Armand Silvestre, como Sonho Místico, no artigo é identificada como Fatigada.

O mistério só foi solucionado com uma visita ao Museo Nacional de Bellas Artes de Santiago, em 31 de agosto de 2004: A pintura de seu acervo [Imagem 3] é aquela também chamada Esperança, na EGBA de 1898; um óleo sobre tela de 101 x 81 cm , assinado e datado [Imagem 4]. O Catálogo Oficial Ilustrado da Exposición Internacional de Bellas Artes revelou que, na verdade, a mostra e conseqüente venda ocorreram em setembro de 1910. Nas páginas do catálogo referentes à participação do Brasil, aparecem os nomes de vários outros artistas; porém, somente Visconti, além de pinturas – Sonho místico, Maternidade e Retrato de Nicolina Vaz de Assis – expôs também projetos do que foi chamado Arte Decorativa, num total de 14 trabalhos, provavelmente, muitos daqueles que foram apresentados em 1901.

Pode-se imaginar que foi feita uma troca de legendas, no Salão de Paris, em 1897, ou no catálogo de Silvestre, e Visconti adotou outro título para mostrar a pintura na EGBA do Rio, no ano seguinte, procurando evitar maiores confusões. Porém, em maio de 1901, na sua Exposição Individual, Visconti resolveu restituir o título original à pintura. E essa troca foi notada pelo autor de “Notas sobre Arte”, numa crítica sobre a exposição:

Dos trabalhos expostos pelo Sr. Visconti, muitos já são nossos conhecidos e fizeram parte de muitas exposições gerais; [...] o Sonho místico, que conhecíamos com outro nome, impregnado de encantadora expressão poética...[26]

Novamente expondo a tela em 1910, em Santiago, Visconti reafirmou sua intenção original, fixando o título Sonho místico, quando da venda para o governo do Chile. Nesta época, Valparaíso ainda não tinha o seu museu, então, porque Visconti fez aquele registrou na foto da pintura, que gerou a legenda em Barata? As pinturas que vinham do estrangeiro, para a Exposição Internacional que inaugurava o museu de Santiago, chegavam pelo porto de Valparaíso, pois a capital do Chile não é uma cidade costeira. Provavelmente, Visconti, vivendo na capital brasileira à beira mar, ao despachar suas obras para o porto de Valparaíso, registrou em sua memória o nome desta cidade, e anos mais tarde o associou ao museu que fora inaugurado naquela ocasião.

Muitas outras telas de Visconti, com certeza, se encontram ainda envoltas em mistério ou isolamento. Precisam receber a visibilidade que as coloque no lugar de destaque que elas merecem, e as incluam no repertório da obra viscontiana na memória de cada um. Somente conhecendo mais e melhor esse conjunto poderemos avaliar corretamente a importância do grande mestre da nossa pintura, que ultimamente vem sendo redescoberto. Quando pela primeira – e única – vez uma grande quantidade de obras de Visconti (269, sendo 226 pinturas a óleo) foi reunida na Exposição Retrospectiva de 1949, no MNBA, a crítica insistiu na agradável surpresa que o efeito de conjunto dessa exposição proporcionou:

Visconti não fez exposições individuais nos últimos anos de vida, de modo que as gerações novas conheciam apenas fragmentaria e superficialmente a sua obra. É certo que mandava com regularidade trabalhos ao salão Nacional ... Mas a presença de dois ou três quadros seus, nos Salões anuais não dava obviamente margem a que o observador comum tivesse uma idéia justa da importância da obra do pintor e da variedade de seus recursos artísticos. [27]

Em primeiro lugar seria antes de assinalar a sensação de surpresa de tanta gente, mesmo no nosso próprio meio artístico, diante da admirável mostra, que por um mês enriqueceu, de maneira jamais alcançada por outra do mesmo gênero, os salões do nosso Museu, num dos seus mais justos e notados triunfos. [28]

A retrospectiva de Visconti foi uma revelação, o atestado seguro que o nosso mais importante artista já falecido resistiu ao tempo. Uma vida de trabalho, uma arte honesta, um colorido surpreendente e magnífico, um eterno rejuvenescimento dão ao mestre Visconti um passaporte para a imortalidade. Telas como Crisálida e as paisagens de Teresópolis ainda hoje, passada a mostra, continuam a encantar nossos olhos e a excitar nossa imaginação. [29]

Passados mais de cinqüenta anos, aquela visão de conjunto se perdeu. Quantos ainda hoje poderiam se lembrar daquela sensação descrita pela crítica contemporânea? Somente um catálogo que reunisse em grande número a produção de Visconti possibilitaria o estudo aprofundado e o conhecimento estético desse mestre à geração de hoje e às futuras.



* Texto publicado nos Anais das Segundas Jornadas de Historia del Arte: Arte y crisis en Iberoamérica. Santiago do Chile: RIL, 2004, p. 103-111; atualizado e adaptado, em abril de 2006, para o site http://br.geocities.com/dezenovevinte/.

** Doutoranda em História da Arte pela Unicamp; professora no CEFET MT.

[1] RUBENS, Carlos. Pequena História das Artes Plásticas no Brasil. São Paulo-Rio de Janeiro-Recife-Porto Alegre: Nacional (Brasiliana – Biblioteca Pedagógica Brasileira, v. 198), 1941, p. 161.

[2] Tobias d’Angelo Visconti, em carta endereçada à autora, escrita no Rio de Janeiro e postada em 12 mar 2002.

[3] Eliseu Visconti, carta ao amigo Braga, 31 mar 1942, publicada no Catálogo Eliseu Visconti e a Arte Decorativa, Rio de Janeiro: PUC/FUNARTE, 1983, p. 9.

[4] Eliseu Visconti apud, GOMES, Tapajós. “Os nomes gloriosos da Pintura Brasileira: Elyseu Visconti”. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 15 dez 1935, p. 2.

[5] BARATA, Frederico. Eliseu Visconti e seu tempo, Rio de Janeiro: Zélio Valverde, 1944, p. 157, 158.

[6] DUQUE, Gonzaga. “Elyseu Visconti”. In: Contemporâneos, Rio de Janeiro: Tipografia Benedicto de Souza, 1929, p. 25 e 26. Texto escrito sobre a Exposição de 1901.

[7] “Exposição E. Visconti”. Jornal do Commercio (Notas sobre Arte), Rio de Janeiro, 16 maio 1901.

[8] COSTA, Angyone. “Na intimidade dos nossos artistas”. O Jornal, Rio de Janeiro, 11 jul 1926, p. 15.

[9] LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil, Rio de Janeiro: Artlivre, 1988, p. 220; e CAMPOFIORITO, Quirino. História da Pintura Brasileira no séc. XIX, Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1983, p. 224.

[10] “Notas de Arte”. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16 dez 1909, p. 7.

[11] Gazeta Artistica (Atravez das artes), ano 1, nº 9, abr 1910, p. 16. Não foi possível localizar o texto original, mesmo pesquisando-se nas edições dos quatro meses anteriores a essa data, no jornal citado. No microfilme da Biblioteca Nacional, do Jornal do Commercio, existe uma lacuna, na qual se nota a ausência da edição de 19 jan 1910.

[12] Carta de Visconti a Duque, de 23 nov 1908, arquivada na pasta de correspondências do receptor, no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Casa de Rui Barbosa, RJ.

[13] Carta de Duque a Visconti, de 05 mar 1909, arquivada na pasta de correspondências do emitente, no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da CRB.

[14] LAEMMERT, Regina Liberalli. “Apresentação”. In: Exposição Comemorativa do Centenário de Nascimento de Eliseu Visconti. Rio de Janeiro: MNBA, 1967.

[15] “Exposição Visconti, na Galeria Jorge”. Gazeta de Notícias (Vida artística), Rio de Janeiro, 06 ago 1920.

[16] “Exposição Elyseu Visconti na ‘Galeria Jorge’. Os quadros adquiridos”. O Jornal (Bellas-Artes), Rio de Janeiro, 06 ago 1920.

[17] “Exposição Visconti”. Revista da Semana, Ano XXI, nº 28. Rio de Janeiro, 14 ago 1920.

[18] PEDROSA, Mário. Exposição Retrospectiva de Visconti. II Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo. São Paulo: Dep. de Imprensa Nacional/Studio Gráfico Brasil, 1954.

[19] PEDROSA, Mário. “Visconti diante das modernas gerações”. Correio da Manhã (Suplemento de Literatura e Artes), Rio de Janeiro, 1º jan. 1950, p. 6.

[20] COSTA Lygia Martins. “Biografia”. Catálogo da Exposição Retrospectiva de Elyseu Visconti, Rio de Janeiro: MNBA/MES, nov. 1949, p. 16.

[21] ”Visconti, Mestre Pintor”. A Noite Ilustrada, Rio de Janeiro, 6 out 1936, p. 8.

[22] SILVESTRE, Armand. Le Nu au Salon: Champ de Mars, v. 24. Paris: E. Bernard, 1897.

[23] BARATA. Op. cit., p. 10.

[24] BARATA. Op. Cit., p. 26.

[25] SILVANO. “Exposição Geral de Bellas-Artes”. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 23 set 1898, p. 2.

[26] “Exposição E. Visconti”. Jornal do Commercio (Notas sobre Arte), Rio de Janeiro, 16 maio 1901.

[27] ANTONIO BENTO. “A Retrospectiva Visconti”. Diário Carioca, Rio de Janeiro, 20 nov 1949.

[28] LIMA, Herman. “A retrospectiva de Elyseu Visconti”. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 1º jan 1950.

[29] AQUINO, Flávio de. “O ano de 49” . Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 1º jan 1950.