Leonardo Visconti Cavalleiro - Eliseu Visconti - Introdutor do Impressionismo e do Design no Brasil - Revista Designe da Escola de Artes Visuais da UniverCidade - Agosto de 1999

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A nova publicação DESIGNE, sobre Design, organizada e editada pela UniverCidade, abre espaço para estudos e artigos atuais e por que não, também, a matérias destinadas a pesquisas da origem e evolução do Desenho Brasileiro.

Os poucos originais aqui reproduzidos refletem as tendências e preferências de um tempo, tempo este em que artistas, artesãos, indústrias e consumidores estavam de acordo em repudiar os velhos modelos e procurar as criações mais originais. Não era mais uma questão de revolução, e sim, de evolução. Visconti foi um destes artistas que soube introduzir esta evolução em nosso país.

Nascido na Itália em 3O de julho de 1866, na província de Salerno, veio com cerca de dez anos para o Brasil, trazido por influência da Baronesa de Guararema, que seria mais tarde sua grande protetora e incentivadora. Fez todos os seus estudos no Brasil, inclusive os de arte.

Desde cedo, manifestando interesse para as artes, entrou Eliseu Visconti para o Liceu de Artes e Ofícios em 1884, onde seus trabalhos despertaram logo a atenção dos mestres e condiscípulos. No ano seguinte, matriculou-se na Imperial Academia de Belas Artes e aí teve por mestres, além de Victor Meirelles (que já o orientava no Liceu), José Maria de Medeiros no desenho, e Henrique Bernadelli e Rodolpho Amoedo na pintura, continuando, porém, a estudar no Liceu.

Em 1888 obteve a medalha de ouro em pintura. Os ânimos da Academia estavam por esta época exaltados. Os alunos dividiam-se em "positivistas" como eram denominados os conservadores e "modernos". Eliseu Visconti afiliou-se entre esses últimos, sendo um dos mais ardorosos do grupo que fundou o "Atelier Livre", isto é, um curso de pintura nos moldes da Academia Julian de Paris. O novo "curso" tinha por orientadores Zeferino da Costa, Rodolpho Amoedo e os irmãos Bernardelli.

Visconti foi um dos mais apreciados expositores de um "Salão dos Independentes" aberto ao público no próprio edifício em que funcionava o "Atelier Livre", num sobrado da Rua Sachet, no centro do Rio.

Proclamada a República, época em que se naturalizou brasileiro, Visconti fez parte da comissão de alunos que pleiteou junto a Benjamin Constant a reforma do ensino artístico, tão somente em sua parte burocrático-administrativa que, ao seu ver, tolhia na liberdade artística a mocidade entusiasta de então.

Tal atitude, ainda no início da carreira, revelava o seu temperamento inquieto e renovador, que foi sempre o traço predominante do artista, em toda a sua longa e fecunda existência.

Essa luta venceram os "modernos". Rodolpho Amoedo e Rodolpho Bernardelli foram designados para, conjuntamente com o Conselheiro Moreira Maia, elaborarem a reforma do regulamento em questão. Em 1890 a vitória foi concretizada com a aprovação do novo regulamento. A antiga Imperial Academia passou a se chamar Escola Nacional de Belas Artes, sendo nomeado diretor Rodolpho Bernardelli.

Os velhos mestres foram aposentados e substituídos por Henrique Bernardelli e Rodolpho Amoedo, começava, por assim dizer, uma nova era para o ensino das artes no Brasil.

No primeiro concurso para prêmio de viagem realizado na Escola, em 1892, Eliseu Visconti conquistou com brilhantismo essa tão ambicionada colocação, com uma "Academia", (pintura de nu artístico em tamanho natural) trabalho que figura no Museu D. João VI, da atual Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Partiu para Paris em fevereiro de 1893, fixando-se na capital francesa onde, em junho do mesmo ano, inscreveu-se no concurso de admissão à Escola de Belas Artes, obtendo a honrosa classificação do sétimo lugar dentre 456 candidatos inscritos.

Expôs durante sete anos consecutivos nos "Salões" de Paris, obtendo diversas premiações, concorrendo com renomados artistas da época.

Admirador de Arte Decorativa, Visconti freqüentou assiduamente a "Escola Guérin de Artes Decorativas" em Paris, tendo como principal mestre um dos grandes vultos e introdutores do Art Nouveau na França, o suíço Eugene Grasset, arquiteto de formação.

A arte aplicada produzida no Liceu repetia, no entanto, a herança da academia instituída pela Missão Francesa de 1816, e por outro lado, na Academia de Belas Artes o ensino de Artes Decorativas praticamente inexistia.

Na Europa, contudo, no início do século corrente, as relações entre artista plástico e artesão por um lado, o arquiteto de vanguarda e a transformação da indústria da época, por outro, aliavam-se dando ênfase aos aspectos industriais, estilísticos e sociais na arte aplicada, gerando um novo estilo, o Art Nouveau, com características econômicas, políticas e sociais marcantes, abrangendo toda a realidade estética da época. De início o Art Nouveau seria uma nova estilização dos atributos academicistas, parcialmente permitidos, sobretudo em relação à arquitetura e à decoração. Entretanto, no decorrer dos anos significou o gosto dominante, um estilo de época, tão nítido e explícito quanto o romântico, o gótico, o barroco etc., influenciando fatalmente escolas e indivíduos até meados da década de trinta.

Nas Artes Gráficas, os novos processos de impressão automatizados, aliados à fotografia, resultaram em soluções mais simples e racionais do desenho gráfico, linearizando-o. A natureza é a grande fonte para a criação Art Nouveau. O conceito de simetria, a forma retilínea geométrica, advinda do orientalismo, o exotismo, o primitivismo (arte africana) e até a arte egípcia foram elementos constantes e transformadores dos produtos e mensagens gráficas no meio metropolitano.

Os teóricos do movimento Art Nouveau preconizavam que a arte devia estar presente em todos os momentos de nossa vida, os artistas deviam desenhar desde quadros, até colheres e cadeiras. Esses objetos deviam também ser produzidos a baixo custo para poderem ser adquiridos pelas diferentes camadas sociais. Desejavam, portanto, o desaparecimento da divisão entre artes menores e maiores e o reconhecimento de uma única forma de arte, presente em todos os momentos e aspectos da nossa vida".

Na preocupação com uma renovação constante, foi no campo das artes gráficas que Visconti começa a estudar a arte decorativa e a conviver e adquirir as teorias de vanguarda.

“Pela primeira vez, um pensionista brasileiro afastava-se dos caminhos tradicionais, que levavam inevitavelmente aos mestres acadêmicos, como Cabannes, Volon etc., para dedicar-se aos estudos da arte decorativa" (Frederico Barata).

De volta ao Brasil, em 1900, já conhecedor profundo deste novo movimento artístico, Visconti procura uma nova forma de expressão aliada à nossa cultura, visando adaptar nossos incipientes recursos industriais e seus parcos produtos a características mais regionais e, sobretudo, fazer evoluir o ensino de arte no Brasil.

Em 1901, Visconti realiza sua primeira exposição na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Mostra vários projetos: objetos de ferro, luminárias públicas, grades, cerâmica, vitrais, estamparia em tecido, papel de parede, capas de livros, revistas e cartazes.

Seus trabalhos nesta fase, imbuídos sempre de uma linha plástica concisa, traduziam-se em efeitos inovadores.

Entretanto, sua decepção ficou patente em 1901, conforme entrevista dada a "O Jornal" em 1926: "Quando regressei da Europa, como pensionista do governo, fiz uma exposição de arte aplicada à indústria, na intenção de que a arte decorativa era o elemento transformador para caracterizar este setor no país. Olharam-na como novidade e nada mais. Cheguei a fazer cerâmica à mão, para ver se atraía a atenção das escolas, das indústrias e do governo. Tudo perdido, ninguém notou o esforço..." - por sinal, as mesmas queixas que os profissionais de Desenho Industrial e Comunicação Visual fazem hoje.

Mesmo sendo fiel à sua formação de pintor, Visconti realizava seus desenhos e ornamentos com grande clareza gráfica, envolvendo a mensagem tipográfica, quando necessária, com a imagem, dando um tratamento claro e eficiente à leitura, problema este de legibilidade nem sempre bem resolvido pelos artistas gráficos da época.

Ao elaborar qualquer projeto, estudava meticulosamente o assunto realizando vários estudos de composição, interpretando o motivo através de dezenas de configurações, até obter o efeito desejado. Imaginativo e criador, o tema sempre desenvolvido por ele se transfigurava em um lirismo iconográfico preciso, documentando valiosamente desta forma personagens, costumes, símbolos e lugares.

O interesse de Visconti pelo "desenho moderno" não foi um entusiasmo momentâneo à sua atividade. Não podemos classificá-lo como um autêntico designer, tentando levar a denominação deste profissional para a época, visto que sua preferência pela arte impedia-o de transpor todo o seu estilo de artista puro, subjetivo e romântico para um tipo acentuadamente racional e objetivo.

Essa denominação é incompatível com Visconti, que se ocupava de uma investigação estética, experimentando todas as possibilidades dos instrumentos de sua época, em busca de meios e recursos para, através da arte, transmitir um pensamento de modo mais completo, mais claro e universal possível.

Em 1904 vence o concurso instituído pelos Correios e Telégrafos, para a coleção "Série Filatélica". O projeto, composto de selos e bilhetes postais, inexplicavelmente não foi editado, apesar de haver ganho o primeiro prêmio, o que teria deixado o artista mais uma vez bastante desgostoso.

Por essa ocasião desenha o "Ex-Libris" e o "Emblema" para a Biblioteca Nacional recém-inaugurada com a reforma da Avenida Central, atual Rio Branco, e que são utilizados até hoje para identificar seu monumental e precioso acervo. Expõe objetos e vasos de cerâmica em 1903, em uma mostra de suas obras em São Paulo, atraindo o industrial Américo Ludolf, cuja fábrica no Rio industrializava cerâmica e vidro, conseguindo concretizar muitos dos seus projetos. Em 1904, ganha medalha de ouro na Exposição de St. Louis (EUA) com o quadro "A Recompensa de São Sebastião".

Volta a Paris em 1905, e executa as obras de decoração do Teatro Municipal do Rio de Janeiro - pano de boca, "plafond" e friso proscênico a convite do prefeito Pereira Passos. Em 1911 executa dois grandes painéis para a Biblioteca Nacional. Em 1922 desenha três selos para o 10 Centenário da Independência do Brasil, e executa um tríptico para a decoração do Conselho Municipal do Rio de Janeiro, intitulado "Deveres da Cidade".

Em 24, realiza o painel existente na Assembléia Legislativa do Distrito Federal, atual Câmara dos Deputados, na Praça XV, intitulado "Assinatura da Constituinte de 1881".

Entre setembro e outubro de 26 faz nova exposição de "Arte Decorativa Aplicada às Indústrias" em uma famosa galeria de Arte no Rio de Janeiro.

Nos anos 27/28, inicia sua fase de paisagens impressionistas "Período de Teresópolis"."... sob a luz tropical ainda indomada da nossa pintura, Visconti é um conquistador de atmosfera. E aquela ciência da luz e do colorido que aprendeu em França vai servi-lo agora para dominar o vapor atmosférico, sua grande contribuição à nossa pintura". (Mario Pedrosa).

Em 1931 é convidado a redesenhar o brasão da cidade do Rio de Janeiro, cuja idéia inicial permanece até hoje, e em 34 começa a lecionar no curso de extensão universitária que funcionava junto à Escola Politécnica, já Universidade do Brasil, um curso de arte decorativa nos moldes daquele de Grasset em Paris.

Em 36, termina o trabalho do Teatro Municipal e deixa de dar aulas no curso de "Artes Decorativas".

Em 1944, termina seu último trabalho: "As Três Marias". Falece a 15 de outubro do mesmo ano, em sua residência na Ladeira dos Tabajaras 155, Copacabana.

Suas obras figuram em mãos de renomados colecionadores e pinacotecas em todo o Brasil, e em algumas no exterior, sendo que seus mais importantes trabalhos fazem parte da "Sala Visconti", acervo permanente do Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro.

"A Arte Decorativa é a procura do belo nos objetos usuais e não deve deter-se, nem em definição, nem em particulares. Só quando estamos em decadência nos preocupamos com o acessório, em detrimento do principal". (Eliseu Visconti).