José Paulo M. Fonseca - Visconti, Pintor Puro - Catálogo da Exposição Comemorativa do Nascimento de Eliseu Visconti no MNBA - 1967

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Quando Leonardo resolveu esfumar os contornos de seus vultos, iniciava uma das revoluções axiais da pintura no Ocidente. Quase simultaneamente, os venezianos, com Ticiano à frente, também transbordaram a linha. Era o triunfo do visual sôbre o táctil, a imposição de uma pintura pictórica a substituir uma pintura escultórica. O barroco manteve-se fiel a essa tendência, que em Turner e nos Impressionistas chegou – durante os oitocentos – à etapa definitiva. Bonnard, Vuillard, certos Expressionistas, o Tachismo não avançaram no campo não-linear, apenas levaram o estilo já maduro à apreensão de transfigurações mais ousadas da realidade.

Entre os pintores que partiram da técnica impressionista situa-se Visconti. Nascido em 1866 chega a Paris na década de 90 e assimila a nova maneira. Uma tela focalizando o rebanho de telhados parisienses, executado nessa época, evidência não um timorato aprendiz da audácia de Monet ou Pissarro, porém artista munido de suficiente talento individual para levar adiante, com um timbre especifico, a tradição.

Estamos diante de uma retina de pintor puro, que se interessa pelo que vê e não procura corrigir sua visão com o auxílio de uma nitidez oriunda de outros sentidos. Não quero asseverar que uma pintura nítida seja invalida ou menos artística, porém insistir que sem dúvida o curso que teve sua fonte na neblina davinciana deu-nos a mais pintura das pinturas. Trata-se de uma constatação e não de um juízo de valor. Daí, o título dessas notas.

Chego ao ponto de situar a importância da obra viscontiana em nossas artes plásticas: passamos a ter um pintor que estava em dia com a vanguarda européia, ou seguia a perspectiva impressionista. Nesse passo cumpre, por dever da justiça, uma alusão às experiências pontilhistas de um Belmiro (um ano mais velho de que Seurat) bem como ao timbre manetiano de vários retratos de Bernardelli, e à pincelada livre de um Eugênio Latour, dos irmãos Timóteo entre outros. Mas, ao que tudo indica, foi Visconti quem mais solidariamente representou o Impressionismo entre nós.

No inicio de sua produção, entretanto, nosso pintor não adotou a exuberância de palheta da escola, porém nisso não foi arcaico; ao contrário, marcou sua mancha com a contenção cromática de vários Nabis, que desejaram – aliados do Simbolismo – retornar a nuance, aos efeitos de sutileza, fiéis a êsse escôpo se alinham várias obras suas, não apenas fixando a figura humana, mas a própria paisagem carioca, valendo-me como exemplo alguns aspectos de Copacabana apreendidos com uma delicadeza que sugere a visão camerística de um Whistler.

Mais tarde na fase dita “de Teresópolis”, fase de maturidade, é que Visconti se vai valer do aprendizado impressionista a fim de fixar a veemência do sol brasileiro. Em quadros dessa época a côr se instaura como o fundamento estilístico, o mundo será resumido num concerto cromático, as formas se confinam, ou melhor, se expandem como núcleo de luz-côr.

É-nos lícito indagar de várias obras suas (e não apenas a do último estágio) se não realizam algo de tão moderno quanto as telas de pintores de geração mais recente, como um Pancetti, um Marcier, um Bonadei?

A resposta a tal pergunta poderia situar Visconti não propriamente como um preâmbulo à nossa Pintura Moderna, mas como seu vero iniciador. Destarte, seu nome deveria preceder aos de um Segall ou de uma Anita Malfati. É um fenômeno de ótica: com a distância de mais de meio século se pode ver mais seguramente os acidentes fundamentais do panorama.