Flávio de Aquino - Catálogo da Exposição Retrospectiva de Visconti na II Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo - 1954

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“Eliseu Visconti, na sua longa vida de trabalho, probidade e dedicação para com a sua arte, conteve seus limites entre o academismo e o pontilhismo, tendo por intermezzo, o impressionismo e o pré-rafaelismo. E’ com êle e pelo seu espírito inquieto, que o primeiro sopro renovador deu entrada em nosso País numa época em que qualquer inovação plástica era considerada como um insulto aos velhos moldes acadêmicos e tratada como costumavam ser tratadas em todas as latitudes qualquer descoberta, qualquer novidade desconhecida e mal compreendida. Visconti é, para nós, o precursor da arte dos nossos dias, o nosso mais legítimo representante de uma das mais importantes etapas da pintura contemporânea: o impressionismo. Trouxe-o da França ainda quente das discussões, vivo; transformou-o, ante o motivo brasileiro, perante a cor e a atmosfera luminosa do nosso país. Não o foi buscar quando morto, portanto não desenterrou cadáveres, não se apropriou do fácil e perecível, emocionou-se pela nova estética quando ainda algo era possível extrair-se dela. Depois dele, legiões de “prêmios de viagem” voltaram da Europa como foram e dedicaram-se com teimosia à inerte pintura oficial do Instituto. Sobre os acadêmicos que hoje lhe disputam a glória, mesmo sobre pintores da fôrça de um Amoedo, tinha meio século de avanço.

Nós o consideramos, em alguns dos seus quadros, como a mais alta expressão pictórica já havida em nossa terra dentre os pintores, já falecidos, pois, pela sua permeabilidade às novas idéias, pela sua faculdade de resistir às formulas acadêmicas de bem imitar, pela juventude de muitas das suas obras, coloca-se acima de mestres da têmpera de um Vitor Meireles e de um Pedro Américo.

Visconti é um dos raros artistas do passado que resiste à crítica moderna pela sua aspiração de encarar a arte como uma forma de expressão superior dos sentidos, dos poucos cujos imperativos do “metier” não constituem uma prisão, mas decorrem, tão só, de uma necessidade de expressão mais pronta e mais direta da imaginação criadora. A pintura libertada equipara-se então, pela fôrça da criação, à poesia e à música – artes que não se contentam em apresentar novamente, e da mesma forma, os problemas que a natureza nos apresenta: pretendem resolvê-los.

Impossível é estudar a obra tão extensa de Visconti em tão pouco espaço e separar tudo o que se acha mais perto de nós do que se acha ainda contido em moldes antigos; pois esses dois aspectos existem nesta mostra. Pretendemos, somente, notificar, para uma mais fácil identificação do leitor, alguns dos pontos altos da exposição. E ela os tem em abundância.

Suas mais belas obras situam-se no período 1888-1912. São nestes anos que todo seu vigor se desenvolve, sua imaginação cresce e a fuga dos velhos cânones se processa com o conhecimento da nova atmosfera plástica da Europa. Já antes na “Camponesa” demonstra uma vitalidade, uma inquietação até então desconhecida em nosso meio. Em “Idílio nos cajueiros” as côres começam a substituir as negras sombras acadêmicas, dando lugar a um colorido mais rico, a uma composição movimentada e surpreendente, a uma alegria da vida que se acha longe da soturna gravidade dos quadros de então. Não mais a alegoria, o melodrama pictórico e a literatura piegas das telas cuja anedota e habilidade no imitar tinham função principal. O gosto pela poesia sutil das pequenas coisas, a sensibilidade em procura de novas harmonias coloridas, o amor pela pintura em si, os substituem.

“Gioventú” é uma pausa, uma volta ao pré-rafaelismo que tem nesta tela sua melhor expressão. E’ de uma poesia calma, um lirismo comovedor, sem pieguismo, sem detalhes ilustrativos, apenas um desenho sensível e o suave colorido.

São desta época as paisagens de Luxemburgo. Pequenas notas de cor, um desenho simples, livre, um colorido vivo, poucos elementos lhe bastam para sugerir a alegre vibração da Europa daqueles bons tempos.

Também “Musette” é deste tempo e, junto a “Crisálida”, nos dão um dos pontos mais altos desta mostra.

Em 1900 Visconti realiza então uma pintura rica de um colorido vivo, simples, livre, e plástica. Uma arte que, no Brasil de então, não tinha paralelo. O próprio modelado é apenas sugerido, o pincel corre livre sem virtuosismos desnecessários.

E o mestre que, após passar pela fase divisionista e impressionista – que tem nos quadros “Leitura à beira do rio”, “Sob a folhagem”, “Ninando no jardim”, “Flores da rua”, “Retrato de meu filho Afonso”, seus melhores exemplos – parecia entrar num conformismo realista, eis que surge transformado e renovado nas paisagens de Teresópolis. Uma das suas últimas telas é admirável. Seu belo colorido - de uma intensidade sonora, de uma riqueza surpreendente – demonstra que o artista, nos seus setenta e três anos, conservava todo o encanto, a fôrça e a alegria de uma juventude eterna.”