Ferreira Gullar - Eliseu Visconti - Arte e Design

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Visconti, pintor e designer - Exposição na Caixa Cultural em 2007

Eliseu Visconti foi um de nossos artistas mais talentosos e talvez o único de sua geração a explorar as possibilidades expressivas não apenas da pintura como também das artes decorativas, realizando trabalhos em cerâmica, estamparia de tecidos, papel de parede, luminárias, além de desenhos de selos e marcas. Uma parte de sua criação, como designer, pode-se ver na exposição a ele dedicada pelo Centro Cultural da Caixa Econômica, no Rio de Janeiro.

O interesse de Visconti pelas artes decorativas surgiu, certamente, em sua primeira estada em Paris, para onde foi em 1892, no gozo do Prêmio de Viagem à Europa do Salão Nacional de Belas Artes. No ano seguinte, matriculou-se na École de Beaux-Arts e também no curso de arte decorativa de Eugène Grasset, na École Guérin, onde estudou até 1897.

Nesse período, as artes decorativas ganharam notável destaque na vida artística da Europa, particularmente em Paris e Londres. Tal ressurgimento deveu-se, sobretudo, à influência do movimento Arts and Crafts, liderado por Williams Morris, que representou uma reação à banalização do artesanato, como conseqüência da industrialização acelerada. Ao chegar Visconti a Paris, o interesse pelas artes decorativas se evidenciava nas exposições que se realizavam em galerias de arte e nos museus. O pintor brasileiro, que já tivera uma iniciação artesanal na Escola de Artes e Ofícios, no Rio de Janeiro, encontrou na nova linguagem decorativa inspiração para explorar também esse campo da criação plástica. Neste sentido, desempenhou um papel pioneiro na arte brasileira, já que até então nossos pintores e escultores não se interessavam por atuar nesse âmbito da arte.

A referida exposição nos mostra alguns exemplos de sua criatividade no terreno das artes decorativas, como estudos para estampagem de tecidos, onde predomina o estilo art nouveau. Aliás, em boa parte de sua produção decorativa, esse é o estilo que prepondera, certamente porque era a linguagem adotada no curso da École Guérin e em toda a produção decorativa da época.

Cabe aqui observar que o ecletismo era um traço dominante na arte de Eliseu Visconti, cuja obra pictórica se vale de diferentes estilos e influências. Na fase inicial, sofre forte influência do Simbolismo, que se manifestava não apenas nas figuras aladas e outros ícones típicos daquela escola artística, como também na transparência diáfana das cenas e imagens, próprias da linguagem simbolista. Em seguida, a influência impressionista passa a predominar nas paisagens e nas cenas. Logo depois, impõe-se a visão realista que se alia a um forte cromatismo, muito distante do colorido suave e transparente do início. Seguem-se paisagens em que a linguagem impressionista ganha feição do pontilhismo, mais característico do pós-impressionismo de Seurat. Mas Visconti nunca se identificará com a objetividade do pontilhismo seuratiano, mais próximo da teoria científica das cores, aprendida em Chevreul do que da atmosfera evanescente dos simbolistas. Na fase final, a pintura de Visconti ganha uma nova expressão impressionista, de fatura mais larga e mais solta.

A mostra se enriquece com uma série de estudos para a decoração do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Seu primeiro trabalho para aquele teatro foi-lhe encomendado em 1905, quando o prédio estava em construção: um painel para o pano de boca de cena, que se mantém até hoje, bem como os murais posteriores. Esse pano de boca foi pintado em Paris, uma vez que Visconti não dispunha no Rio de um ateliê suficientemente amplo que lhe permitisse pintá-lo. Mais tarde conceberia os murais para o foyer do teatro, considerado por todos a sua obra-prima, no qual sua arte de pintor alcança uma sutileza e uma força poética raras. Finalmente, muitos anos depois (1934-36) pinta o novo friso para o proscênio. Alguns dos estudos para esse friso, que estão nesta mostra do Centro Cultural da Caixa, atestam a alta qualidade de seu desenho anatômico.

É curioso observar que o estilo art nouveau e o movimento de valorização da arte decorativa, na Europa do final do século19, era uma tendência oposta à estética funcionalista da arquitetura moderna, que excluía toda e qualquer decoração. O princípio básico dessa arquitetura foi expresso pelo norte-americano Louis Sullivan, ao afirmar que “a forma segue a função” e, mais radicalmente, pelo alemão Adolf Loos, que declarou, em 1902, que “o ornamento é um crime”. Essa visão racionalista e despojada da arquitetura, que também se estenderá à pintura, irá desembocar nas vanguardas construtivas do século20 e nada tem a ver com a arte de Visconti, que buscava expressar a imaterialidade dos sonhos ou a delicadeza de cenas e paisagens idealizadas. Não obstante, no fim de sua vida, Visconti não se dizia nem passadista nem futurista, mas “presentista”, certo de que a arte muda sempre, como muda a sociedade.