Visconti E O Art Nouveau

Decrease Font Size Increase Font Size

Eliseu Visconti, durante seu período de formação na França e ainda como aluno de Eugene Grasset, ilustrou a capa do primeiro número da Revue du Bresil, revelando aí o que seria a sua primeira contribuição à arte da ilustração, através da qual introduz o art nouveau nas artes gráficas no Brasil.

“0 estilo Art Nouveau interessou a poucos artistas brasileiros, entre eles Eliseu Visconti e, ocasionalmente, Belmiro de Almeida. No entanto, quem marcaria a passagem para a modernidade nas artes plásticas foi Visconti, por se demonstrar sensível à tendência pré-rafaelita, ao art nouveau e aos ecos do movimento impressionista, embora tardiamente.” (Aracy Amaral in Estágios no Processo de Formação de um Perfil Cultural).

Visconti realizou em vida três exposições individuais nas quais apresentou seus trabalhos ligados à arte decorativa. Em 1901 realizou sua primeira exposição na Escola Nacional de Belas Artes, logo após seu regresso da França, onde permaneceu por quase sete anos como bolsista do governo brasileiro. Nessa exposição apresentou também seus principais trabalhos de pintura realizados em Paris. Visconti desenhou a capa do catálogo dessa exposição de 1901, bem ao estilo art nouveau, onde quis representar que “as artes nascem do mesmo tronco”. Em março de 1903 Visconti realiza em São Paulo sua segunda exposição, inaugurada pelo então Presidente do Estado, Dr. Bernardino de Campos, na qual também apresentou seus trabalhos relacionados às artes decorativas e às artes aplicadas à indústria. Em 1926, na Galeria Jorge, no Rio de Janeiro, realizou Visconti sua última exposição de arte decorativa, reapresentando os trabalhos antigos e expondo desta vez os selos postais premiados em 1904, os selos comemorativos do Centenário da Independência, bem como o ex-libris e o emblema da Biblioteca Nacional.

Após sua morte, em 1944, o nome de Eliseu Visconti seria mais relacionado à extensa obra que realizou como pintor e às decorações que executou para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Flavio Mota, em 1957, Hugo Auler, em 1968 e Frederico Morais, em 1980, publicaram textos enaltecendo o trabalho de Visconti no campo da arte decorativa e da arte aplicada. Mas, foi somente em 1983 que o conjunto da obra do artista nesse campo mereceu um trabalho mais completo, através da realização na PUC do Rio de Janeiro de uma exposição organizada por Irma Arestizabal, que teve como grande objetivo, segundo a própria organizadora “começar a conhecer as raízes do nosso desenho industrial”.

A exposição, realizada no Solar Grandjean de Montigny – Centro Cultural da PUC-RJ entre os dias 16 de agosto e 17 de setembro de 1983, foi levada também a Brasília, apresentada na Galeria Osvaldo Goeldi – Escritório Funarte entre 13 e 30 de outubro do mesmo ano, e a Porto Alegre, onde foi realizada no Museu de Arte do Rio Grande do Sul em dezembro do mesmo ano.

O catálogo da Exposição, intitulado “Eliseu Visconti e a Arte Decorativa”, foi antecedido por extensa pesquisa da obra e da vida do artista. É de Leonardo Visconti Cavalleiro, designer, professor e neto de Eliseu Visconti, um dos textos que prefaciam o catálogo, resumido a seguir.

“Os trabalhos de Eliseu Visconti refletem as tendências e preferências de um tempo. Tempo este em que artistas, artesãos, indústrias e consumidores estão de acordo em repudiar os velhos modelos, e procuram as criações originais. Não é mais uma questão de revolução, e sim, de evolução. Visconti foi um destes artistas que soube introduzir esta evolução em nosso País.

Obtendo o premio de viagem à Europa em 1892, por três anos freqüentou assiduamente a Escola Guérin de Artes Decorativas em Paris, tendo como principal mestre um dos grandes vultos e introdutores do Art-Nouveau na França, o suíço Eugene Grasset, arquiteto de formação.

Precursor do Art-Nouveau no Brasil, a principal preocupação de Visconti não era a de tornar-se um artista gráfico, nem tampouco um desenhista industrial na época, e sim, com os infinitos recursos de estilização da arte decorativa, procurar uma nova forma de expressão, adquirida em seus estudos na Europa, visando o ensino da arte no Brasil.

Na preocupação de uma renovação constante, foi no campo das artes gráficas que Visconti mais se aprofundou. Seus trabalhos nesta fase, imbuídos sempre de uma linha plástica concisa, traduziam efeitos decorativos inovadores.

Mesmo sendo fiel à sua formação de pintor, Visconti realizava seus desenhos e ornamentos com grande clareza gráfica, envolvendo a mensagem tipográfica, quando necessário, com a imagem, dando um tratamento claro e eficiente à leitura, problema este nem sempre bem resolvido pelos artistas da época. Ao elaborar qualquer trabalho, estudava meticulosamente o assunto, realizando vários estudos de composição, interpretando o motivo através de dezenas de configurações, até obter o efeito desejado.

Seu meio de expressão não era dirigido aos setores comerciais, não visava lucro, tanto que recusou diversas propostas de industrializar seus motivos, adornos e imagens, voltando-se apenas para a pesquisa, pois seu objetivo íntimo era a pintura. A arte decorativa em Visconti foi uma evolução natural em sua formação de pintor pré-rafaelista no Brasil, anterior à sua viagem, e sua inquirição pela arte japonesa e do movimento impressionista na Europa, culminando deste vínculo a obra de decoração do pano de boca, “foyer” e cúpula do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde os valores de um verdadeiro pintor e suas pesquisas decorativas no campo do Art-Nouveau se coadunam em efeito monumental e de grandeza pictórica.”