Primeiros Tempos - 1866 - 1892

Decrease Font Size Increase Font Size

Eliseu d’Angelo Visconti nasceu em 30 de julho de 1866, na Vila de Santa Catarina, Comuna de Giffoni Valle Piana, Província de Salerno, Itália. Filho de Gabriel d’Angelo e de Christina Visconti, teria imigrado para o Brasil com um ano de idade, segundo Frederico Barata, seu principal biógrafo e autor do livro oficial do pintor “Eliseu Visconti e Seu Tempo”, de 1944. No entanto, informações posteriores, prestadas inclusive por seu filho, Tobias d'Ângelo Visconti, revelam que Visconti viajou para o Brasil já menino. Uma carta de próprio punho, encaminhada por Eliseu Visconti em 26 de agosto de 1938 a Oswaldo Teixeira, à época Diretor do Museu Nacional de Belas Artes, constitui o único documento que faz menção ao ano em que Visconti imigrou. De seu texto, depreende-se que sua vinda para o Brasil teria ocorrido em 1873, aos sete anos de idade portanto.

Teria sido trazido por influência de D. Francisca de Souza Monteiro de Barros, a Baronesa de Guararema, aluna de pintura de Vitor Meireles, e que se tornou grande incentivadora e protetora de Visconti. Em tratamento de saúde na Itália, a Baronesa convence a família de Eliseu a deixá-lo vir para o Brasil, juntamente com sua irmã Marianella. Aqui já se encontravam seus irmãos Afonso e Anunciata. Eliseu Visconti hospeda-se inicialmente na Fazenda São Luiz, em Além Paraíba, de propriedade de Luiz de Souza Breves, o Barão de Guararema.

Vem jovem para o Bairro do Andaraí, no Rio de Janeiro, e estuda música no Club Mozart, na rua da Constituição. O precoce talento pelas artes plásticas prevaleceu após a Baronesa ver um de seus desenhos, representando a figura de uma camponesa romana. Foi o bastante para que, a conselho de sua protetora, deixasse de freqüentar as aulas de música, que já não lhe agradavam, e abraçasse os estudos de desenho e pintura.

Em 1883, o poeta Otaviano Hudson, amigo da família de Eliseu Visconti, encaminhou-o com uma carta de apresentação para matrícula no Liceu de Artes e Ofícios. Seus trabalhos no Liceu, além de valerem-lhe inúmeras medalhas, despertaram a atenção de colegas e professores, dentre estes Vitor Meireles, José Maria de Medeiros, Estevão Roberto da Silva e Pedro José Peres.

Sem abandonar o Liceu, ingressa na Imperial Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro em 1885, estimulado por D. Pedro II. O Imperador, um ano antes, em uma de suas visitas ao Liceu, impressionado que ficara com uma escultura de Visconti intitulada “As romãs”, havia aconselhado o jovem Eliseu a continuar seus estudos na Academia: “Por que o senhor não entra na Academia? O senhor deve continuar, deve entrar o quanto antes na Academia”. Foram as palavras de D. Pedro II, durante solenidade no Liceu Imperial de Artes e Ofícios. Na Academia, Visconti teria novamente como professores Vitor Meireles e José Maria de Medeiros, e ainda Zeferino da Costa, Henrique Bernardelli e Rodolfo Amoedo. Mas receberia a última recompensa do Liceu, em 1886, novamente das mãos do Imperador, que lhe entrega o prêmio da medalha de prata em Ornatos e acrescenta: “Vejo que o senhor progride. Isto me causa grande satisfação. Quando entra para a Academia?” Visconti, emocionado, não consegue agradecer a D. Pedro II nem lhe comunicar que já ingressara na Academia. Anos depois, o agradecimento viria em forma de homenagem, quando Visconti, mesmo sofrendo críticas, inclui a figura do Imperador no Pano de Boca do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Durante sua permanência na Academia, Visconti receberia prêmios que, se analisados qualitativamente, denotavam uma tendência que resultaria na grande conquista do prêmio maior, o da viagem ao exterior (José Luiz Nunes em “Eliseu d’Ângelo Visconti: Sua Formação Artística no Brasil e na França”). Visconti adquiriu sólida formação artística que, aliada ao seu temperamento inquieto, faria com que participasse de episódios marcantes, prenúncio do surgimento de um artista com personalidade renovadora, sempre aberto a novas experiências.

Após a proclamação da República, como reflexo dos momentos de transição política, a Imperial Academia foi palco de agitação e incidentes provocados por grupos rivais de jovens alunos. Lutava-se contra as normas de ensino então vigentes, herança da missão artística francesa de 1816. Os “modernos”, dentre os quais se alinhavam Eliseu Visconti, José Fiúza Guimarães e Rafael Frederico, pressionavam por uma ampla reforma dessas normas, bastante defasadas das idéias trazidas da Europa pelos Professores Rodolfo Bernardelli e Rodolfo Amoedo. O regimento interno da Academia exigia que as aulas se desenvolvessem no recinto da Escola, impedindo o contato direto do artista com a natureza, e foi contra essa medida, somada ao fato de os mestres não buscarem renovação, limitando-se ao aperfeiçoamento formal, que Eliseu Visconti se insurgiu. Queriam também os modernos que fossem restabelecidas as provas para prêmio de viagem à Europa, interrompidas desde 1884 (Maria José Sanchez em “Impressionismo Viscontiniano”, Dissertação de Mestrado).

Enquanto isso, os positivistas, mais radicais, pregavam mesmo a extinção da Imperial Academia, pleiteando “inteira liberdade aos aspirantes das artes, sem sujeitarem o caráter aos corruptos processos do regime acadêmico”. (Frederico Barata em “Eliseu Visconti e Seu Tempo”). Dentre os positivistas estavam Montenegro Cordeiro, Décio Vilares e Aurélio de Figueiredo. Num terceiro grupo, na defesa das normas tradicionais de ensino, reuniam-se os “conservadores”.

Em meados de 1890, o projeto contendo as reivindicações dos positivistas, denominado Projeto Montenegro, era encaminhado a Benjamim Constant, Ministro do Interior encarregado da reforma da Academia. A República, no entanto, simpatiza com as transformações desejadas pelos modernos e as Assembléias realizadas em 16 e 21 de junho, das quais participam alunos e professores da Academia, indicam uma primeira aproximação entre modernos e positivistas.

Ainda assim, talvez com o intuito de pressionar o Governo e apressar a reforma, em 9 de julho daquele ano os “modernos”, acompanhados pelos professores com eles afinados, afastam-se da Academia e fundam o Atelier Livre. Montado inicialmente num barracão construído no Largo de São Francisco, o Atelier Livre, após dois meses de funcionamento transferiu-se para um sobrado à Rua do Ouvidor. O curso de pintura do Atelier, ministrado por Rodolfo Amoedo, pelos irmãos Bernardelli e por Zeferino da Costa, logo despertou a curiosidade de artistas já formados, dentre os quais João Batista Castagneto, várias vezes visto visitando o Atelier Livre.

Sucesso maior ainda teve a Exposição Coletiva organizada ao final de 1890, contendo trabalhos de filiados ao movimento e que contou com a colaboração financeira de simpatizantes e patrocinadores do Atelier Livre, como Fonseca Araújo, Luiz de Rezende e José do Patrocínio. Organizada nos moldes do Salão de Independentes dos impressionistas franceses, a Exposição atraiu numeroso público, destacando-se como expositores Eliseu Visconti, Rafael Frederico, José Fiúza Guimarães , Bento Barbosa e França Júnior.

Cabe assinalar que Frederico Barata registra em seu livro o ano de 1889 como data da formação do Atelier Livre e da realização da Exposição Coletiva. No entanto, em pesquisa para a Tese de Doutorado que apresentou à Universidade de Paris, Ana Maria Tavares Cavalcanti demonstra, através de consultas a edições da época do jornal O Paiz, que houve equívoco de Frederico Barata no registro dessas datas, equívoco repetido por aqueles que utilizaram o livro do eminente jornalista e crítico de arte como fonte de consulta.

Finalmente, em 8 de novembro de 1890, o Governo da República terminou por aprovar a reforma proposta pela comissão por ele nomeada para definir suas bases, formada por Rodolfo Bernardelli e Rodolfo Amoedo. É criada a Escola Nacional de Belas Artes, em substituição à Imperial Academia. Os dois professores da comissão são nomeados Diretor e Vice-Diretor da Escola, respectivamente. Os velhos professores Vitor Meirelles, Pedro Américo, Maximiano Mafra e Moreira Maia, ligados ao antigo regime, aposentam-se. O movimento dos modernos, ao qual Eliseu Visconti se engajara com o entusiasmo dos seus 23 anos, acabara por atingir o grande Vitor Meirelles, seu mestre e por quem Visconti daria mostras de enorme admiração por toda a sua vida. O Atelier Livre é fechado e seus integrantes retornam à escola oficial.

Ao finalizar seus estudos no Brasil, Visconti já estava capacitado tecnicamente frente às questões da pintura então em voga na Escola. Essa maturidade, pode ser percebida na paisagem “Mamoeiro”, com a qual o artista conquista em 1890 a medalha de ouro em pintura. Nessa obra já se apresentam aspectos que seriam constantes na produção de Visconti, como, por exemplo, o manejo da cor. As qualidades de Visconti seriam confirmadas pela sugestão de compra de duas de suas obras para integrar a nova galeria da Academia, fato marcante se considerada sua então condição de estudante (Nunes, 2003 p 36).

Em 1892 é organizado o primeiro concurso da República, tendo como prêmio a concessão de bolsa de estudos na Europa. Eliseu Visconti participa e vence o concurso, sendo o primeiro pensionista da República pela Escola Nacional de Belas Artes.