O Prêmio de Viagem - 1893 - 1900

Decrease Font Size Increase Font Size

Do primeiro concurso da República para Prêmio de Viagem ao Estrangeiro, vencido por Eliseu Visconti, participaram mais seis concorrentes. Cada concorrente adotava símbolos, como forma de se manter anônimo e garantir a isenção do júri. Visconti utilizou como símbolos a palavra “Adeus” e o desenho do triângulo invertido. Dividido em três etapas, a primeira prova do concurso consistia na execução de uma academia desenhada e eliminou três concorrentes. Como segunda prova, os candidatos foram orientados a pintar uma academia, “Estudo de Nu”, em trinta sessões. O trabalho executado por Visconti para essa prova encontra-se no Museu D. João VI – ENBA. Na terceira prova, os concorrentes, isolados em cabines especialmente construídas, deveriam realizar uma composição histórica tendo como tema “A aparição dos três anjos a Abraão”, e não “Anjo Aparecendo à Maria” como cita seu biógrafo, Frederico Barata (Nunes, 2003, p. 27). Visconti obteve o primeiro lugar nas três provas, tendo sido declarado vencedor do concurso em 26 de outubro de 1892. Participaram da Comissão Julgadora os professores Henrique Bernardelli, Rodolfo Amoedo, Modesto Brocos e Pedro Weingartner. O Jornal do Brasil, em sua edição de 20 de janeiro de 1893, noticiou a conquista de Eliseu Visconti.

Em 28 de fevereiro de 1893 o artista partia para a Europa a bordo do navio Congo. Em Paris, submete-se às provas para admissão na École de Beaux-Arts (Escola de Belas Artes) e, dentre 321 candidatos que se apresentaram ao concurso, obtém ao final excelente resultado, com a sétima colocação dentre os 84 concorrentes que lograram ultrapassar a fase eliminatória dos exames.

Paralelamente, o sistema de concursos para a Escola de Belas Artes de Paris incentivava que os alunos freqüentassem ateliers privados, onde se iniciavam nos estudos de nu masculino ou feminino. Assim, no documento que registra a classificação de Visconti como aluno da Escola de Belas Artes, consta sua filiação como aluno de Bouguereau e Ferrier junto à Academia Julian, um dos mais conhecidos ateliers de Paris (Nunes, 2003 p. 50).

No entanto, Visconti não ficaria muito tempo como aluno da Escola de Belas Artes. Em fevereiro de 1894 seu nome desaparece das listas de presença de alunos da Escola. Para cumprir as tarefas exigidas pela sua condição de pensionista, preferiu Visconti freqüentar apenas a Academia Julian, que lhe dava todas as condições para executar com liberdade as pinturas e desenhos de modelo vivo, obrigatórios nos dois primeiros anos de seus estudos e que deveriam ser enviados à Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

Em sua dissertação de mestrado, José Luis Nunes levanta suposições para explicar o abandono da École por parte de Visconti. Em primeiro lugar, a École era para o artista o primeiro degrau de sua iniciação, com sua formação longa e rígida, inteiramente fundamentada no desenho. Daí o desinteresse de Visconti pela disciplina excessiva que lhe conferia pouca liberdade, posto que não era um iniciante. Também a estrutura de concursos e premiações da École era voltada para preparar os alunos que tinham por objetivo um concurso final reservado apenas aos franceses, o Prix de Rome (Prêmio de Roma). Tais fatos eram agravados pelos freqüentes problemas de relacionamento com os alunos estrangeiros.

Mas Visconti, para adquirir novos conhecimentos e satisfazer ao seu temperamento inquieto, inscreveu-se na Escola Guérin onde, de 1894 a 1898 seguiu o curso de desenho e arte decorativa de Eugene Grasset, considerado uma das mais destacadas expressões do Art Nouveau. “Pela primeira vez, um pensionista brasileiro afastava-se dos caminhos tradicionais, que levavam inevitavelmente aos mestres acadêmicos, para dedicar-se ao estudo da arte decorativa. Aliás, um dos pólos do Art Nouveau, o simbolismo, liga-se ao pré-rafaelismo, daí a presença desses dois aspectos na obra inicial de Visconti”. (Frederico Morais em Eliseu Visconti e a Crítica de Arte no Brasil – Aspectos da Arte Brasileira – 1980)

Visconti receberia de Grasset marcante influência. No logotipo de Je Sème à Tout Vent, elaborado por Grasset para o Larousse inspirou-se, por exemplo, para realizar o ex-libris da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (José Roberto Teixeira Leite). Com nítida influência do art-nouveau, produz, ainda em 1896, a ilustração para a capa do primeiro número da Revue du Brésil, que representou a primeira manifestação concreta de propaganda do nosso País no exterior.

Para prosseguir com os trabalhos obrigatórios durante o terceiro ano de sua permanência em Paris, Eliseu Visconti empreendeu inúmeras viagens a Madrid onde, em agosto de 1895, iniciou uma cópia em tamanho natural (3,07 m X 3,67 m) da obra “Rendição de Breda”, de Velásquez. Concluído em meados de 1896, o trabalho foi enviado ao Brasil e participou do Salão Nacional de Belas Artes daquele ano. Muitíssimo elogiada, inclusive por Sarah Bernhardt, que a conheceu quando ainda era trabalhada por Visconti no Museu do Prado, essa cópia ficou exposta na entrada do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro durante mais de 60 anos. Retirada para reparos, aguarda recursos para sua restauração. Outras cópias foram executadas no Museu do Prado por Visconti nos anos de 1895 e 1896, dentre elas “Las Ninas”, “Mariana d’Áustria” e “Infante Carlos”, todas de Velásquez, a quem Visconti certamente muito deve, pelas soluções que daria aos problemas da luminosidade em seus trabalhos futuros.

Para os que seriam os dois últimos anos de seus estudos na Europa, deveria Visconti executar uma tela de 24 m2 intitulada “Saída da Vida Pecaminosa”, tema extraído da Divina Comédia, de Dante. Chegou a executar um estudo sobre o tema, medindo 1,00 m x 0,62 m. No entanto, a ajuda financeira para executar o grande quadro, apesar de autorizada pelos professores da Escola Nacional de Belas Artes, foi vetada. A desobrigação em realizar obra de tamanho vulto acabou por ser benéfica à carreira do pintor, que pôde prosseguir em suas pesquisas com liberdade.

Tendo sua pensão prorrogada por dois anos, Visconti produz, em 1898 e 1899, importantes obras influenciadas pelos movimentos simbolista e art-nouveau, dentre elas a “Gioventu”, que se tornaria a obra mais reverenciada do pintor, considerada por Edson Motta como a nossa Mona Lisa.

Durante sua permanência em Paris, Eliseu Visconti produziu inúmeras obras e participou seguidamente das exposições anuais nos “Salões” de Paris (Salon de Champs Elysées e Salon de Champ de Mars). Entre 1894 e 1900 expôs “No verão” (1894), “A Leitura” (1894), “Retrato de Alberto Nepomuceno” (1895), “As Comungantes” (1895), “A Convalescente” (1895), “Sonho Místico” (1897), “Fatigada” (1897), “Recompensa de São Sebastião” (1898), “O Beijo” (1899) e “Gioventú” (1899).

Em 1900, na Exposição Universal Internacional de Paris, Visconti expõe “Oréadas” e “Gioventú”, sendo as duas telas premiadas com a medalha de prata. Ambas pertencem ao acervo do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Na mesma Exposição Universal, Visconti recebe a Menção Honrosa na Seção de Artes Decorativas e Artes Aplicadas.

A importância dos trabalhos de Eliseu Visconti nos últimos anos de sua permanência em Paris como bolsista do Governo seria reafirmada em 1904, quando a tela “Recompensa de São Sebastião” recebeu a medalha de ouro na Exposição Internacional de St. Louis, nos Estados Unidos. Nesta exposição, Visconti seria o único brasileiro a ganhar a medalha de ouro em pintura e o único latino-americano a receber uma medalha na nova seção da exposição referente a arte aplicada à indústria.

Também executada no período de bolsista, a tela “Sonho Místico”, de 1897, foi adquirida pelo Governo do Chile em 1910, após exposição no Museu de Belas Artes de Santiago, que estava sendo inaugurado.

Do seu período de formação na França, pode-se dizer que Visconti “estava constantemente procurando conjugar as novas linguagens que se ofereciam ao seu alcance. Modifica sua pintura tanto na temática quanto na linguagem formal, e conseqüentemente na técnica, seguindo os movimentos contemporâneos do simbolismo, do impressionismo e do art-nouveau. A opção consciente por novos temas ou novas linguagens não se estruturou, em contrapartida, a partir de um rompimento com a tradição”. (Nunes, 2003, p. 108-110).

Também para Ana Maria Cavalcanti, Visconti, ao mesmo tempo em que buscou um estilo próprio e original, não rompeu completamente com seus mestres brasileiros. Na busca de sua linguagem pictorial, o artista não operou uma ruptura radical com os ensinamentos adquiridos no Brasil. (Cavalcanti, 1999, pág 261)

Com certeza, a influência de seus mestres Bouguereau e Grasset ajudou-o a libertar a mão. Exercitou-se amplamente, o que permitiu inclusive que detalhes de fundo passassem a ser cuidados da mesma forma que as figuras de primeiro plano. Elementos simbolistas podem ser encontrados nas obras “Recompensa de São Sebastião”, “Oréadas”, “Gioventú” e “Pedro Álvares Cabral Guiado Pela Providência”.

Aproveitando-se do ambiente que o cercava, aparecem suas primeiras obras com reflexos do impressionismo, como “Primavera”, de 1895, e principalmente “Patinhos no Lago”, de 1897. Manteve inclusive contato pessoal com Paul Gauguin, de acordo com informação passada por seu genro, Henrique Cavalleiro. E estruturada no mais perfeito estilo art-nouveau, a ilustração da capa da Revue du Bresil revela e perpetua a contribuição de Visconti à arte da ilustração, através da qual introduziu o art-nouveau nas artes gráficas do Brasil. (Auler em Visconti – Precursor do modernismo no Brasil – 1967)

Em junho de 1899 encerra-se o período de estudos de Visconti na França. Após a Exposição Universal de 1900 ele retornaria ao Brasil, deixando em Paris a jovem francesa Louise Palombe, companheira desde 1898 e com quem ficaria casado pelo resto de sua vida. Louise se tornará figura marcante e inspiradora da obra de Visconti. Frederico Barata chegou mesmo a dividir sua obra em duas grandes fases: anterior e posterior à união com Louise. Para Carlos Drumond de Andrade, “Louise foi o mais amado entre os modelos do pintor, e Visconti, em matéria de modelos, preferia-os familiares porque eram aqueles...a quem, por muito amar, muito compreendia... Tantos e tantos quadros do mestre Visconti revelam-no de fato o pintor de família”.

E é o próprio Visconti quem diz: “A família, primeiro; a arte, depois. Uma não é incompatível com a outra, como muitos pensam. Ao contrário, as duas se completam.” “Dedicação à família e à arte, em doses que permitiram uma harmonia entre as duas, foi o segredo do sucesso que Visconti experimentou em todas as áreas da sua vida, e que ainda hoje se pode sentir, através de sua obra, como um imenso prazer de viver.” (Seraphim, Miriam em Dedicação e Harmonia: Família e Arte na Vida de Eliseu Visconti – In: Anais do XXIII Colóquio do Comitê Brasileiro de História da Arte. Rio de Janeiro: CBHA/UERJ/UFRJ, 2004. pp. 381-389).