Maturidade - 1921 - 1944

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Chegando ao Brasil com sua família em junho de 1920, Visconti já realiza uma exposição individual na Galeria Jorge, no Rio de Janeiro, inaugurada no dia 5 de agosto, na qual apresenta 36 obras, a maioria pintada na França (Seraphim, 2003, pág. 324).

Após 1920, Eliseu Visconti não mais deixaria o Brasil. Prosseguiria aqui em suas pesquisas, trabalhando incessantemente para criar um estilo próprio. Segundo seu filho, Tobias d’Angelo Visconti, “é nesta fase que se torna bem brasileiro, empenhando-se no estudo da luminosa e vibrante atmosfera do Brasil.” (textos críticos - A brasilidade de Visconti).

Em 1922 é agraciado com a Medalha de Honra na Exposição Comemorativa do Centenário da Independência. Antes, em 1921, apresenta três projetos de selos para o concurso que se realizou no Rio de Janeiro, também em comemoração ao Centenário da Independência. Volta a lecionar, mas em curso particular que dirige à Rua das Laranjeiras, tendo como aluno de destaque Manoel Santiago.

Não tendo sido convidado, acompanhou com interesse os acontecimentos da Semana de Arte Moderna de 22, embora não aceitasse manifestações onde a falta de conhecimento técnico fosse flagrante. Pietro Maria Bardi, em entrevista a “ISTO É” em dezembro de 1977, comentou sobre a ausência de Eliseu Visconti na Semana de 22: “Não foi convidado. Esqueceram o único realmente moderno de sua época, que era Visconti”. No Jornal da Tarde de 2 de dezembro de 1982 – Caderno Cultural, Jacob Klintowitz diria sobre o mesmo tema: “E os principais artistas modernos não foram convidados a participar. Naquela época, como agora, sobravam as questões pessoais, o desconhecimento e a disputa de poder e projeção. O que serve para explicar a ausência...ao menos como homenagem, do grande pintor Eliseu Visconti, a quem devemos, em boa parte, a modernidade de nossa pintura.” A injustiça seria parcialmente reparada 50 anos depois, quando Willys de Castro incluiu uma tela de Visconti no Cartaz Comemorativo do Cinqüentenário da Semana de Arte Moderna.

Conclui Visconti em 1923, com a colaboração de Oswaldo Teixeira, a decoração do vestíbulo do Conselho Municipal, atual Câmara dos Vereadores (Palácio Pedro Ernesto), na Cinelândia. Compõe-se essa decoração de um tríptico de características impressionistas, intitulado “Deveres da Cidade”, medindo 15 m X 5 m. Na parte central da obra, a figura feminina representa a cidade, e a masculina, a legislação. Os painéis laterais fazem menção aos trabalhos desenvolvidos por Oswaldo Cruz (saneamento) e por Pereira Passos (urbanização).

No ano seguinte recebe a encomenda para executar o painel decorativo do plenário da Câmara dos Deputados (hoje Assembléia Legislativa do Rio – Palácio Tiradentes, na Praça XV de Novembro). A primeira esquisse, representando a posse de Deodoro da Fonseca na Presidência da República, foi recusada pela comissão constituída que, segundo Frederico Barata, exigiu do artista outro estudo em que não figurassem mulheres. Visconti apresentou novo trabalho representando a assinatura da Primeira Constituição Republicana de 1891, sem mulheres e de fatura mais comportada. Aprovada pela comissão, a decoração foi executada e concluída em 1926. No grande painel, restaurado em 2001, figuram em tamanho natural os retratos dos 63 constituintes.

Ainda em 1923, Visconti é um dos grandes incentivadores do Salão da Primavera, que teve a ousadia de exibir obras abstratas (Lucia Etienne Romeu em “A Primavera de Eliseu Visconti” – Revista Arte Hoje – outubro de 1977).

Em 1926, na Galeria Jorge, mais importante galeria de artes do Rio de Janeiro à época, situada à Rua do Rosário nº 131, realizou Visconti nova exposição de arte decorativa, reapresentando os trabalhos antigos e expondo agora os selos postais premiados em 1904, bem como o ex-libris e o emblema da Biblioteca Nacional.

Participa com Assis Chateaubriand, em 1927, dos primeiros esforços para criação de um museu de arte em São Paulo, doando quatro telas para o acervo. O MASP (Museu de Arte de São Paulo) seria criado somente em 1947, tendo sua direção sido entregue a Pietro Maria Bardi, admirador de Visconti.

É nesse mesmo ano de 1927 que inicia sua fase de paisagens impressionistas de Teresópolis, cheias de atmosfera luminosa e transparente, de radiosa vibração tropical. Como notou Mário Pedrosa: “... Sob a luz tropical ainda indomada de nossa pintura, Visconti é um conquistador da atmosfera. E aquela ciência da luz e do colorido que aprendeu em França vai servir-lhe agora para dominar o vapor atmosférico, sua grande contribuição à nossa pintura”. (Visconti diante das modernas gerações – Correio da Manhã – 1 de janeiro de 1950).

Concordando com Mário Pedrosa e indo além, João Paulo M. Fonseca diria: “Na fase dita de Teresópolis, fase de maturidade, é que Visconti se vai valer do aprendizado impressionista a fim de fixar a veemência do sol brasileiro...É-nos lícito indagar, diante de várias obras suas, se não realizam algo de tão moderno quanto as telas de pintores de geração mais recente, como um Pancetti, um Marcier, um Bonadei. A resposta a tal pergunta poderia situar Visconti não propriamente como um preâmbulo à nossa pintura moderna, mas como seu vero iniciador”. (Catálogo da Exposição de Eliseu Visconti no Museu Nacional de Belas Artes – 1967). São dessa fase, que se estenderia até sua morte, em 1944, as obras “Descanso Em Meu Jardim”, “Minha Casa de Campo”, “Quaresmas”, “Um Ninho”, “Raios de Sol”, “Roupa Estendida”, “Revoada de Pombos”, dentre muitas outras.

Em 1931, Visconti executa desenho para estilização das armas municipais do Rio de Janeiro, a pedido do Prefeito Adolpho Bergamini. O Prefeito, no entanto, desiste da intenção de substituir os emblemas antigos, já por demais reproduzidos e cristalizados em prédios e repartições públicas.

A reforma do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, no início da década de 1930, iria proporcionar a Eliseu Visconti um retorno às emoções da mocidade. Como a reforma previa o alargamento da boca de cena, o Engenheiro Roberto Doyle Maia convidou Visconti a aumentar o primitivo friso sobre o proscênio. Demonstrando grande vitalidade, preferiu o artista, aos 68 anos de idade, executar um novo friso, que seria colocado sobre o original. Nesse trabalho, executado entre 1934 e 1936, foi auxiliado por sua filha Yvonne Visconti Cavalleiro, por seu genro Henrique Cavalleiro e por seus discípulos Agenor César de Barros e Martinho de Haro.

Nesse mesmo período da reforma do Teatro Municipal, Visconti lecionou no curso de extensão universitária de artes decorativas, que funcionava junto à Escola Politécnica do Rio de Janeiro, organizado pelo Professor José Flexa Ribeiro. Adotaria em seus ensinamentos a orientação de Eugène Grasset, da École Guérin, cujas normas guardava em seus cadernos de apontamentos. Nas decorações, no entanto, Visconti insistia com os alunos para que utilizassem motivos da flora brasileira. (Flávio Motta – Contribuição do Estudo do Art Nouveau no Brasil – 1957). Tem início assim, em 1934, com Eliseu Visconti, o ensino de design no Brasil. Para Guilherme Cunha Lima, Visconti, que já possuía idéias sobre artes aplicadas à indústria, organiza o curso adotando um critério que distinguia a parte geométrica da inspiração naturalista e relacionando sempre o aprendizado com a prática. Visconti encerraria essa atividade em 1936, ao completar 70 anos.

Mais tarde, em 1937, convidado por Lucílio de Albuquerque, então Diretor da Escola Nacional de Belas Artes, Visconti integra a comissão examinadora do concurso para professor catedrático de Arte Decorativa.

Em 1942, Visconti doa para o governo do então Distrito Federal os estudos originais realizados durante a confecção das decorações do Theatro Municipal do Rio. Para abrigar as obras doadas por Visconti, é criado pelo prefeito o Museu Evocativo do Theatro Municipal.

Prosseguiria Eliseu Visconti em sua busca incansável pelo novo e, com certeza, “se mais tempo vivesse, mais além teria levado suas experiências.” (Regina L. Laemmert, no Catálogo da exposição de Visconti no MNBA em 1967). Mas, em julho de 1944, Visconti sofre um assalto em seu atelier da Av. Mem de Sá. Foi encontrado desacordado, ferido na cabeça e sem os seus pertences – relógio, documentos de identidade e dinheiro. Quando pôde falar, Visconti afirmou ter sido procurado por dois homens que lhe teriam oferecido frutas e com os quais teria conversado algum tempo. Depois disso, não se recordava de nada, presumindo-se que tenha sido atacado pelas costas. Durante dois meses permaneceu Eliseu Visconti em agonia, encerrado em uma câmara de respiração artificial.

Surpreendentemente, ergueu-se novamente por cerca de três semanas, lúcido, cheio de idéias e planos, inquieto e, com certeza, ávido por novas experiências, repetindo a todo instante a seus familiares: “Nasci de novo! Agora é que vou começar a pintar, vocês vão ver!”

Agia como se toda a obra que produziu ainda não o tivesse satisfeito. Dirigiu-se novamente ao seu atelier, subindo sozinho as escadas e lá, segundo testemunho de Frederico Barata, que o acompanhou nesta última viagem ao seu templo, “parecia que se transmudara por efeito de um milagre. Só para aquele mundo lhe valia realmente a vida.” A ressurreição no entanto durou pouco. Após recaída, falece o artista em 15 de outubro de 1944, aos 78 anos de idade.

“Durante os quase sessenta anos pelos quais se distendeu sua carreira, foi Eliseu Visconti um inquieto, um pesquisador perene, sempre à procura de novos caminhos para dar vazas à própria personalidade. Seus críticos mais abalizados – Frederico Barata, Lygia Martins Costa, Herman Lima, Reis Júnior, Mário Pedrosa – já lhe distribuíram a produção artística por fases, nas quais repercutem como ecos as influências mais diversas: naturalistas de princípios de carreira, renascentistas do momento de Gioventu, divisionistas (decorações do Teatro Municipal), realistas (Retrato de Gonzaga Duque), impressionistas das paisagens de St. Hubert, enfim neo-realistas dos últimos anos, das paisagens de Santa Teresa e de Teresópolis, quem sabe o momento mais alto, porque mais pessoal de sua atividade pictórica (Revoada de Pombos).

Todas essas fases sucessivas entremostram uma busca incessante por um estilo, uma ânsia de renovação absolutamente inédita num meio e numa época provincianamente acanhados. Sob tal aspecto, mais que por uma tardia filiação aos postulados impressionistas e neo-impressionistas já em decadência na Europa, é que nosso artista se prende ao século XX, e pode inclusive ser reclamado como um precursor do modernismo brasileiro. Mas Visconti é bem mais do que isso: é uma das mais poderosas e completas organizações pictóricas jamais desabrochadas no Brasil, autor de obra extensa e valiosa, um clássico da pintura nacional, no sentido mais lato e profundo do vocábulo”

Esse texto do crítico de arte José Roberto Teixeira Leite, perfeito para encerrar a biografia de Eliseu Visconti, levanta contudo uma questão por vezes abordada por outros estudiosos: Teria sido tardia a filiação de Eliseu Visconti aos postulados impressionistas? Uma análise simplesmente cronológica diria que sim, pois convencionalmente surgido em 1874, o impressionismo na França já cedia espaços ao expressionismo, ao fauvismo e ao cubismo quando Visconti utiliza aquela técnica na transição do século XIX para o século XX.

No entanto, uma regressão à época, quando o conservadorismo e a morosidade das comunicações imprimiam um movimento lento à propagação da evolução artística, mostrará que apenas na França o estilo impressionista já estaria “em decadência”. E é o próprio José Roberto Teixeira Leite quem volta ao tema, quando tem mais espaço para desenvolvê-lo em Arte no Brasil – 1979 – 2 vols. – Editora Abril:

“Mas, com relação a outros países, a contribuição de Visconti, Lucílio de Albuquerque e outros não foi tão defasada (quanto em relação à França). Mais ou menos da mesma idade de Visconti era, por exemplo, o italiano Plínio Nomellini, o alemão Max Liebermann, o russo Valentin Serov, o canadense James Wilson Morrice, o mexicano Joaquin Clausell e o argentino Martin Mallenarro, introdutores do estilo em suas pátrias. Mais moços ainda do que Visconti foram o belga Henri Evenepoel, o alemão Max Slevogt, os uruguaios Pedro BlanesViales e Miguel Carlos Visctorica, o venezuelano Armando Reverón e o argentino Fernando Fader, todos impressionistas”.

Assim, pintores de destaque na Europa e na América foram contemporâneos de Visconti na incorporação de recursos impressionistas às suas paletas. Mesmo na França, a aceitação do impressionismo por parte do público começa a ocorrer em 1880, a partir da última exposição dos impressionistas. O governo francês só reconheceria oficialmente a nova pintura em 1892, ao adquirir um quadro de Renoir. Visconti, já em 1895, pinta “Primavera”, tela em que se observam características impressionistas, traduzidas pela composição de um fragmento de paisagem onde o artista trunca as árvores de grande porte, dando destaque à relva, em que pontos luminosos se destacam, acentuados pela fragmentação das pinceladas, até chegar à sensação de uma névoa nos últimos planos. (Sanchez, 1982 p. 45).

Mas com a tela “Os Patinhos”, 1897 seria realmente o ano do inteiro contato de Visconti com a pintura impressionista. Sua paleta se ilumina. Reflete luz e sombra no espelho d’água do lago. Os patinhos são pura luz, fazendo um contraponto com manchas de cor na água. As pinceladas são mais curtas e ritmadas. A pesquisa dos efeitos da luz configura-se como um aspecto novo dentro da produção de Visconti (Nunes, 2003, pág. 95).

E, ao aprendizado em França da luz e do colorido impressionistas, Visconti acrescentou, após seu retorno definitivo ao Brasil, sua “conquista posterior, de mais luminosidade, de mais transparência, de mais atmosfera, resultado de suas pesquisas sobre o equacionamento de seu estilo genial e de seu impressionismo à nossa natureza tropical.” (Auler ,1967).

Sobre o tema do impressionismo pessoal de Visconti, Maria José Sanchez expõe em sua tese: “Visconti, o mais significativo representante do movimento no Brasil, recebeu o título de Mestre do Impressionismo. Anticonformista desde a juventude, dedicou-se intensivamente ao aprendizado dos novos cânones estéticos e terminou por subjugar-se a eles. Foi o seu espírito rebelde, o desejo intenso de renovação que o levaram à busca da nova técnica, que o absorveu por inteiro. Nos primeiros contatos de Visconti com o impressionismo percebe-se que o artista tentou assimilá-lo consoante os moldes do impressionismo europeu. Mas quando regressou ao Brasil, sob o clima tropical, outra luminosidade e outras cores exerceram influência sobre ele, para criar um impressionismo próprio. É o que chamamos de impressionismo brasileiro, de Impressionismo Viscontiniano.”

E Flávio de Aquino conclui: “Visconti é, para nós, o precursor da arte dos nossos dias, o nosso mais legítimo representante de uma das mais importantes etapas da pintura contemporânea: o impressionismo. Trouxe-o da França ainda quente das discussões, vivo; transformou-o, ante o motivo brasileiro, perante a cor e a atmosfera luminosa do nosso País”.